Saúde Integral

10/10/2016 09h00

Por uma nova cultura de saúde

As práticas integrativas e complementares seguem crescendo no Brasil

Por Andrea Lovato Ribeiro

ADOBE STOCK/NBE
Sa

O desejo de cuidar da própria saúde por meios mais naturais

Neste ano, uma garota de seis anos que conheço contou a uma estudante de medicina que estava com uma gripe forte. A estudante orientou: “Tome um bom chá e descanse que vai melhorar.” A menina, sem pensar muito, falou: “Um chá? Nossa, você será uma boa médica!”

E assim cresce uma geração de crianças filhas de pais e mães que buscam cuidar da saúde de uma forma mais natural.

O desejo de cuidar da própria saúde por meios mais naturais – por parte dos pacientes e dos profissionais de saúde – tem levado milhares de pessoas ao redor do mundo a buscarem alternativas à medicina ocidental alopática.

Em resposta a essa necessidade, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou, em 2002, um primeiro documento sobre práticas tradicionais em saúde, denominado “Estratégia para a Medicina Tradicional 2002-2005”, no qual incentiva os países membros a implementarem e a pesquisarem sobre a utilização dessas práticas. Na época, dados já demonstravam que mais de 75% da população de países como França, Canadá e África fazia uso de práticas integrativas e complementares em saúde (PICS) e esses números crescem ano a ano.

A medicina tradicional (MT) refere-se a sistemas como medicina tradicional chinesa, ayurvédica indiana, unani e também a várias formas de medicina indígena. Já a medicina “complementar”, “alternativa” ou “não convencional” refere-se a um conjunto de práticas em saúde que não são parte da tradição de um país ou que não estão integradas ao sistema de saúde dominante. Em países em que o sistema de saúde dominante é baseado na medicina alopática (ou quando a MT não foi incorporada no sistema nacional de saúde) é dessa forma que a MT é normalmente chamada.

No Brasil, como resultado dessa ação da OMS, foi construída, em maio de 2006, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde (SUS). Essa política legitima e incentiva o uso das PICS no nosso sistema público de saúde. As práticas contempladas na PNPIC são:

  • Medicina Tradicional Chinesa: sistema médico integral, originado há milhares de anos na China. Engloba várias modalidades de tratamento, como acupuntura, plantas medicinais, dietoterapia, práticas corporais e mentais.
  • Plantas medicinais e fitoterapia: a fitoterapia é uma terapia caracterizada pelo uso de plantas medicinais em diferentes formas terapêuticas sem a utilização de substâncias ativas isoladas, ainda que de origem vegetal. O uso de plantas medicinais na arte de curar é uma forma de tratamento de origens muito antigas, relacionada aos primórdios da medicina e fundamentada no acúmulo de informações por sucessivas gerações.
  • Homeopatia: sistema médico complexo de caráter holístico, baseado no princípio vitalista e no uso da lei dos semelhantes enunciada por Hipócrates, no século IV a.C.
  • Medicina Antroposófica (MA): é uma ampliação da medicina acadêmica que busca compreender e tratar o ser humano, considerando a relação com a natureza, a vida emocional e a individualidade. Na MA, utilizam-se recursos baseados na homeopatia e nas plantas medicinais, além de diversas terapias, como arteterapia, musicoterapia, euritmia, entre outras.
  • Termalismo Social-Crenoterapia: consiste na indicação e uso de águas minerais com finalidade terapêutica atuando de maneira complementar aos demais tratamentos de saúde. O uso das Águas Minerais para tratamento de saúde é um procedimento dos mais antigos, utilizado desde a época do Império Grego.

Hoje, cerca de 5 mil estabelecimentos públicos de saúde no Brasil ofertam PICS, em cerca de 900 municípios. Além das práticas descritas na política, 2.190 equipes de saúde espalhadas pelo país oferecem outras práticas também legitimadas pelo Ministério da Saúde (MS), como yoga, reiki, ayurveda, florais, do-in/shiatsu/massoterapia, shantala, talassoterapia, biodança, musicoterapia, dança circular, naturologia, terapia comunitária, terapia com argila, sistema rio aberto (movimento vital expressivo), arteterapia, entre outras.

Existem alguns desafios para que as PICS sejam implementadas em mais estabelecimento no SUS. Há ainda falta de informação por parte de muitos profissionais e pouco apoio por parte dos gestores públicos, mas o Ministério da Saúde tem feito diversas ações para superar esses desafios, dentre elas, a oferta de cursos gratuitos a distância sobre diversas dessas práticas que estão acessíveis a toda a população.

 

Cursos gratuitos a distância:

  • Gestão em Práticas Integrativas e Complementares, voltado a gestores de serviços de saúde, contempla os passos para implantação das PICS
  • Uso correto de plantas medicinais e fitoterápicos para Agentes Comunitários de Saúde
  • Curso Introdutório em Medicina Tradicional Chinesa
  • Curso Introdutório em Práticas Corporais e Mentais da Medicina Tradicional Chinesa
  • Curso Introdutório de Medicina Antroposófica

Não é obrigatório ser trabalhador do SUS para se inscrever. Os interessados podem ter acesso a esses cursos no site da Atenção Básica do SUS: www.atencaobasica.org.br. Para acompanhar os dados atualizados sobre PICS no país, acesse o site: http://redenacionalpics.wix.com/site do Núcleo de Práticas Integrativas e Complementares do Ministério da Saúde

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Andrea Lovato Ribeiro é mestre em psicologia social e clínica e yoga terapeuta. Autora do livro “Psicologia e o cuidado nos serviços de saúde” e trabalha desde 2013 na formação de profissionais do SUS para atuarem com Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, em projetos junto ao Ministério da Saúde e Organização Pan-Americana da Saúde.

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