Crescimento pessoal

03/10/2016 09h00

Amor fora da caixa

Será que existe um jeito certo e um jeito errado de viver a relação? Conheça algumas histórias de amor que superam padrões convencionais e abrem espaço para a criatividade

Por Nanda Barreto

Arquivo Nosso Bem Estar
Louve

Sem seguir receitas, muita gente tem experimentado formas autênticas de viver o amor

Se a vida é uma escola, os relacionamentos afetivos-sexuais são a universidade - costuma afirmar o líder espiritual Sri Prem Baba a quem busca se conhecer melhor. Ser feliz no relacionamento é uma conquista desafiadora e pode-se até mesmo dizer: rara. Foi-se o tempo em que casar era praticamente obrigatório, a monogamia ocupava um valor inalienável e ninguém questionava este modelo. Hoje em dia é exigente viver uma relação amorosa satisfatória, que contribua para o próprio crescimento emocional.

Sem seguir receitas, muita gente tem experimentado formas autênticas de viver o amor. A freelancer paulistana Fabíola C., 29 anos, é uma destas pessoas. Após um namoro convencional de sete anos, ela decidiu se aventurar na arte contemporânea de criar seus relacionamentos sem se preocupar com padrões sociais. "Eu passei a questionar o ciúmes e o sentimento de posse sobre o outro, que é algo absolutamente naturalizado na nossa sociedade, que cultua um ideal de amor romântico. Mas na verdade a outra pessoa não é sua propriedade e querer limitar os sentimentos dela é uma falta de respeito", defende.

Com estas ideias, Fabíola abraçou a bandeira dos relacionamentos abertos. "Tenho me sentido muito mais leve e não tenho regras pré-estabelecidas. Com cada pessoa é diferente e isso te leva a conversar mais sobre os desejos e limites de cada um - o que naturalmente aumenta a cumplicidade entre as pessoas. Dá uma trabalheira porque estamos desconstruindo padrões, ficamos quebrando a cabeça para achar um jeito, mas é muito criativo e bonito".

O relacionamento mais duradouro de Fabíola neste novo modelo já dura dois anos. "Temos uma forte conexão afetiva, muito amor. Mas eu não vejo o meu amor e a minha dedicação a ele como um impedimento para sair com outras pessoas", sustenta a freelancer, que prefere não dar rótulos a suas relações.

Mais triângulo, menos quadrado

A artista multimeios Malu Engel, 27 anos, aderiu ao relacionamento aberto sem planejar. "Houve um período da minha vida que eu me relacionava abertamente com dois caras ao mesmo tempo, eu tinha dois namorados. Na época eu morava com a minha mãe e ambos frequentavam lá em casa, ela gostava dos dois (risos). As coisas simplesmente acabaram se desenrolando assim. Eu já namorava um deles há algum tempo", conta.

Malu avalia que uma relação dessas necessita ser constantemente atualizada. "Quanto mais pessoas envolvidas, mais dinâmica a relação, mais tem que ficar claro pra você porque você está ali, por quê quer estar com aquelas pessoas. Eu e meus namorados sempre conversávamos muito. Eles me falavam como estava sendo pra eles também, como se sentiam em relação à tudo isso. Ficamos uns dois anos nessa configuração, eles não ficavam entre si, mas se respeitavam, e isso era fundamental para que desse certo. Eu tinha uma relação diferente com cada um", explica a artista brasiliense.

Casamento sem tabus

A dentista gaúcha Ana C., 39, vive um relacionamento com o jornalista Lucas O. há 16 anos - metade desse tempo, casados.  "Nos conhecemos com 20 e poucos anos e casamos um bom tempo depois. Não temos um relacionamento aberto, no sentido de cada um sozinho sair com outras pessoas. Mas nós eventualmente saímos juntos com outras pessoas", conta.

Tudo começou com o desejo em comum do ménage à trois. "Foi bem legal, saímos um tempo com uma menina, mas depois esse assunto ficou meio de lado por um bom tempo. De uns anos para cá, em viagens, tivemos curiosidade de conhecer casas de suingue. Somos discretos com nossa vida íntima, principalmente em função dos nossos trabalhos - acho que muita gente não entenderia bem e isso pode nos prejudicar profissionalmente", argumenta.

Na avaliação de Ana, transar juntos com outras pessoas traz novos temperos e mais intimidade à relação. "O aspecto mais positivo é o que chamamos de "apimentar" a relação. A gente conversa muito e as ideias surgem como fantasias que decidimos (ou não) colocar em prática. Os dois tem que estar confortáveis e curtindo a ideia, seja qual for. Porque a intenção é quebrar a rotina do relacionamento longo e aumentar a intimidade, e não o contrário", pontua.

A dentista conta que o casal também passa por longos momentos monogâmicos. "É nossa forma de viver. Hoje em dia, felizmente, casamento é cada vez menos uma obrigação social e cada vez mais a celebração do amor entre duas pessoas que decidem compartilhar a vida, pelo tempo (e do jeito) que fizer sentido para elas", argumenta.

Recentemente, o casal tem sentido vontade de compartilhar esta história com amigos mais próximos. "É difícil a linha divisória entre a sinceridade e a exposição. Recentemente temos ampliado um pouquinho para os amigos próximos. Estamos neste momento descobrindo e conversando com amigos que têm experiências parecidas e isso está sendo bem bacana. Queremos que seja menos tabu, que possamos perceber que cada relacionamento tem suas nuances".

Nanda Barreto é jornalista

 

Espelho, espelho meu

“Dentro da infinita esfera dos elementos com os quais nos relacionamos a todo instante, o relacionamento com outro ser humano, principalmente o afetivo- sexual, é, sem dúvida, o mais poderoso catalisador ou ativador da verdade. É através do relacionamento que temos a chance de amadurecer e de ativar os valores humanos que possibilitam a nossa evolução. O outro, independentemente de quem seja, está sempre funcionando como um espelho que reflete partes de nós mesmos que não estamos podendo ou querendo enxergar. Às vezes, o outro reflete aspectos positivos e luminosos da nossa personalidade, e às vezes reflete aspectos negativos e sombrios.”

Sri Prem Baba*Trecho do livro Amar e ser livre

Poliamor
A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins é estudiosa e autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda” e “O Livro do Amor”. Para ela, o amor é uma construção social; em cada época se apresenta de uma forma. "O amor romântico, que só entrou no casamento a partir do século 20, e pelo qual a maioria de homens e mulheres do Ocidente tanto anseia, não é construído na relação com a pessoa real, que está ao lado, e sim com a que se inventa de acordo com as próprias necessidades.

Esse tipo de amor é calcado na idealização do outro e prega a fusão total entre os amantes, com a ideia de que os dois se transformarão num só. Contém a ideia de que os amados se completam, nada mais lhes faltando; que o amado é a única fonte de interesse do outro (é por isso que muitos abandonam os amigos quando começam a namorar); que cada um terá todas as suas necessidades satisfeitas pelo amado, que não é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, que quem ama não sente desejo sexual por mais ninguém.

A questão é que ele não se sustenta na convivência cotidiana, porque você é obrigado a enxergar o outro com aspectos que lhe desagradam. Não dá mais para manter a idealização. Aí surge o desencanto, o ressentimento e a mágoa.
É provável que o modelo de casamento que conhecemos seja radicalmente modificado. A cobrança de exclusividade sexual deve deixar de existir. Acredito que, daqui a algumas décadas, menos pessoas estarão dispostas a se fechar numa relação a dois e se tornará comum ter relações estáveis com várias pessoas ao mesmo tempo, escolhendo-as pelas afinidades. A ideia de que um parceiro único deva satisfazer todos os aspectos da vida pode vir a se tornar coisa do passado."

*Trechos de artigos e entrevistas retirados da internet.

 

Amor criativo
Esta matéria faz parte de uma série. A primeira foi "Amor de Longe", sobre pessoas que vivem ou viveram relacionamentos a distância, publicada em setembro. A ideia é trazer à tona experiências de pessoas que vivem relacionamentos que ultrapassam os modelos convencionais. No próximo mês, vamos falar sobre casais com filhos que encontraram também suas formas pessoais de viver o amor em família - e outras surpresinhas.

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