Crescimento pessoal

05/09/2016 08h00

Amor de longe

Um mora aqui. O outro, acolá. Mas o desejo de ficar junto é ainda mais quilométrico. Será que a distância pode aproximar as pessoas? Conheça a história de alguns casais que decidiram namorar - e até casar - mesmo morando em cidades ou países diferentes

Por Nanda Barreto

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Amor

Uma grande vantagem trazida pela distância é o tempo disponível para a auto-observação e a reflexão de aspectos que podem ser melhorados no relacionamento

Quem tem sorte sabe: quando o amor acontece, ele não pede licença. A paixão geralmente chega avassaladora, pronta para derrubar dogmas e fazer a gente mudar de planos -  ou de endereço. Com a psicóloga e advogada Juliana Dedavid, 33, aconteceu assim: ela estava vivendo há meses na Argentina, mas só foi conhecer o grande amor por lá depois que já havia voltado a Porto Alegre e foi visitar amigos no país vizinho. "Eu estava fazendo o sanduíche de uma pós-graduação e não buscava encontrar ninguém depois de um recente término de relacionamento. A frase de Cortázar em Rayuela me lembra sempre do nosso encontro: "Andábamos sin buscarnos pero sabiendo que andábamos para encontrarnos." Acho que foi exatamente isso. Depois de um mês, sabíamos que queríamos apostar no que sentíamos um pelo outro, para além de qualquer fronteira ou dificuldade", relembra.

Para ela, foi bem difícil estar longe neste momento de maior encantamento. "Eu em Porto Alegre, ele em Buenos Aires. Foram 2 anos de idas e vindas. No primeiro ano a ideia era eu ir morar lá e tentar um doutorado. Mas fui chamada num concurso em POA, que foi uma bela surpresa, e os planos tiveram que mudar. Será que vamos bancar tanta mudança? - eu pensava."

Juliana acredita que a decisão de apostar no relacionamento veio de um desejo forte de fazer dar certo. "Tudo parecia improvável. Muitas pessoas, quando se fala em namoro a distância, te desanimam, tomam a história como se fosse um romance de livro, platônico, algo que não foi feito para durar mesmo. Namorar a distância exige muita, mas muita confiança, um no outro e na relação, além de paciência e certo desapego com todos aqueles detalhes que não deixaríamos passar se convivêssemos diariamente com a pessoa. Tem momentos em que vamos estar perdendo pela ausência do outro, mas creio que ganhei muito em amadurecimento e amor próprio com essa relação".

Após dois anos juntos, Juliana e seu companheiro decidiram juntar as escovas de dente. "Nós dois queremos construir uma família. Seguir a distância pra sempre não era uma possibilidade. Com tudo isso, fomos conversando, lidando com a distância, até que há alguns meses o Ale entregou o apartamento que alugava lá e se mudou pra POA. Fomos de 8 a 80. De 1400 km para o mesmo apartamento (um JK! - risos). Da misteriosa distância para a sabida e louca rotina de um casal que mora junto e divide as contas. Agora é respirar fundo e acreditar no amor, esse amor humano e cheio de equívocos e imperfeições que se vive diariamente".

Amor intercontinental, saudades oceânicas

No quesito amor à distância, a professora universitária Rosalma Diniz Araújo, 44, foi um pouquinho mais longe, literalmente. Ela e o companheiro se conheceram em 2007, em Jericoacoara (CE), onde ela estava de férias, com um amigo. Na ocasião, o designer Nicola Muratori, 49, que é italiano, visitava o Brasil pela primeira vez. A paixão veio com tudo e a decisão de manter o relacionamento foi inevitável. Em 2012, os dois se casaram, mas - diferente do que acontece com grande parte dos casais - eles continuam morando em países diferentes e não têm planos para mudar este cenário.

"O desafio é encarar a saudade como um bom tempero da relação, e não como um ingrediente amargo", avalia Rosalma. Ela explica que o estilo de vida e a profissão do marido favoreceram esta história de amor. "Duas coisas, em termos práticos, foram fundamentais para a continuidade da nossa história: a tecnologia e o trabalho dele. Como ele é designer, ele leva o escritório na mochila. Esta flexibilidade permite uma maior mobilidade. Eu sou professora, portanto tenho a mobilidade limitada às férias escolares. E então, nos períodos em que estamos separados, o skype aproxima com som e imagem as nossas distâncias".

Zalma acredita que amor próprio e confiança são ingredientes fundamentais nesta mistura de amor e lonjura. "Saber que o outro é seu complemento, não sua metade. Saber gostar da própria companhia facilita a convivência com o outro, que não vai ser tão cobrado pela ausência. Aliás, talvez vivamos mais próximos do que muitos casais que vivem sob o mesmo teto 365 dias no ano. Confiança é outro requisito. Como ter ciúmes de uma pessoa cujo oceano separa?".

A professora está satisfeita com a dinâmica do casal. "É essa distância que nos une. Quando as pessoas chegam pra mim perguntando como suporto essa distância, eu respondo com outra pergunta: como se suporta conviver 24 horas por dia? Acredito que seja mais fácil viver como nós vivemos. E encaro assim: quando ele tá com saudade da família, da pizza, do café italiano, etc, ele volta. Quando a saudade começa a bater, ele retorna. E assim, não enchemos muito o saco um do outro! (risos)."

A boa e velha teimosia

O biólogo e terapeuta reichiano Glauber Carvalhosa, 35, mora em Niterói, mas a conheceu a namorada - que vive em Porto Alegre - durante um curso no interior de São Paulo em julho de 2015. "Houve um profundo encantamento, mas o momento não me parecia favorável. Na época, eu era um tanto preconceituoso quanto a relacionar-me com alguém a distância. Mal sabia que esta guria é adepta do amor e da espontaneidade, então teimou em viver o que sentia. Acho que dei um pouquinho de trabalho até me entregar por completo", conta.

A rotina de trocas e conversas é intensa e o casal passou por uma verdadeira maratona de viagens no último ano. "Em geral, todo mês cada um faz uma viagem para a terra do outro. Ela costuma ter mais disponibilidade e fica quase uma semana em Niterói, enquanto eu consigo alguns finais de semana prolongados ou semanas de férias, assim conseguimos ficar uns 10 a 15 dias juntos todo mês. Falamos muitos por mensagens de texto, que podemos ler no celular a toda hora e em qualquer lugar, e se complementa naturalmente com mensagens de voz e fotos. Dependendo da fase e da semana, usamos skype ou ligações de telefone mesmo, que costumam ser demoradas".

Glauber lembra que o relacionamento passou por diferentes fases. "No início, foi a etapa de conquista, quando construímos a decisão de ser um relacionamento, mesmo tendo a distância como uma característica. Em seguida foi um período em que reconhecíamos nesta característica da distância uma série de aprendizados. A distância era um fator que não era completamente desejado, mas que era bem tolerado, além de inevitável. Até que deixou de ser tolerável, o tempo distante não era mais tão prazeroso e foi quando começamos e buscar viabilizar uma vida juntos."

Segundo Glauber, se esta paixão fosse uma música, seria "Locomotiva", de Jorge Mautner. De fato, o amor atropelou - delicadamente ou nem tanto - a rotina de cada um. De mudança para Porto Alegre nos próximos capítulos, Glauber está adaptando todos os aspectos da sua vida para se lançar no dia a dia deste relacionamento. "Somos um casal que gosta de rotina e de casa e que quer viver uma vida simples, juntos. Foi exigida muita paciência neste período e foi muito importante para fundamentar a certeza da mudança", argumenta. "Um dia eu decidi que este não seria um amor impossível", sintetiza o futuro morador da capital gaúcha.

Tempo e espaço para mudar

Uma grande vantagem trazida pela distância é o tempo disponível para a auto-observação e a reflexão de aspectos que podem ser melhorados no relacionamento. Na intensidade do cotidiano - principalmente durante a paixão ardente dos começos - é comum abafarmos algumas emoções e maquiarmos outras com o objetivo de evitar desentendimentos. Com a distância, no entanto, o amor ganha tempo e espaço para se manifestar em seus aspectos de sombra e luz.

Sem a demanda da presença física diária, é possível depurar melhor a origem de nossos comportamentos mentais e, com isso, evitar a reedição de padrões que já deram errado em situações do passado. Usar os intervalos de distância entre o casal para cultivar o amor, cuidando dos seus detalhes e usando a criatividade para criar outras formas de estar perto é um desafio que se apresenta a quem decide por uma relação à distância. Outro aspecto importante é valorizar o poder do silêncio, já que a vontade é preencher todos os espaços com muita comunicação - algumas vezes excessiva - via mensagens de celular e internet.

Para alguns casais o relacionamento a distância representa a medida ideal para a troca e profundidade que buscam. Em outras situações, isso dura apenas algum tempo… Logo a lonjura começa a apertar o coração e a vontade de estar perto cresce. Seja qual for a decisão do casal, esta forma de relacionamento abre a brecha para uma enriquecedora reflexão: quantos de nós deixa de se aventurar em outras formas de se relacionar simplesmente por temer o novo? Será que existe um jeito certo e um jeito errado de viver a relação? Em quantos quilômetros de distância cabe o verdadeiro amor?


Relações autênticas

Eu sou do tipo que acredita, sim, que podemos encontrar uma pessoa com a qual desejaremos passar o resto da vida. Mas sou ainda mais romântica: acredito profundamente que cada um de nós pode criar a sua própria forma de viver o grande amor.

Isso pode muito bem significar ficar casada e monogâmica por 30 anos, mas também pode significar ter dois ou três namorados simultaneamente. Por vários anos. Meses. Ou Semanas. Aliás, o tempo assume dimensões infinitas quando o assunto é amor.

Outras maneiras interessantes de manter uma relação amorosa pode ser morar junto ou separado, dormir em quartos diferentes, levar relacionamentos abertos, poligâmicos, iô-iô, ardentes, pasmaceiros: nenhuma destas formas ou características de organização afetiva me parece melhor do que a outra.

 

Homem não é tudo igual. Mulher não é tudo igual.

Se somos seres diferentes, porque nossas formas de se relacionar haveriam de ser iguais? Temos o direito de realizar nossa própria história!

Se tem uma coisa que me subtrai a vida é ter que caber em funções sociais devidamente catalogadas para agradar aos outros. Quantas gerações ainda hão de desperdiçar suas vidas seguindo roteiros de amor pré-estabelecidos simplesmente por temer o novo?

Vejo que a falta de referências alternativas é um bloqueio para a inovação. Não ter modelos para se apoiar realmente gera muita insegurança, mas quantos de nós ainda se agarrarão em relações frustradas apenas porque “é assim que todo mundo faz”?

Entendo que para muitos, mudar isso não é uma tarefa fácil. Pelo menos para mim não é. Questionar a própria vida é exigir emocionalmente. Além disso, reclama muita responsabilidade, mas como a vida é uma só e estamos aqui para aprender, desconfio que valha a pena.

Trata-se simplesmente de abandonar padrões que não nos servem e de enxergar nossos relacionamentos amorosos como elos construídos por nós mesmos, e não como meros modelos instituídos por aspectos socioculturais.

Os riscos são evidentes e os custos são altos: afinal, ninguém sabe onde esta estrada vai nos levar.

Mas podemos tentar. Na pior das hipóteses, morreremos na praia. Na melhor das hipóteses, descortinaremos um mundo fascinante, onde o amor é constelado por dúvidas indissolúveis, onde o outro se mostra como realmente é e nos abre caminhos para sermos o que realmente somos! E tudo isso é um mistério!

Eu valorizo muitíssimo as minhas dúvidas, mas também tenho um punhadinho de convicções. Tipo, estabelecer relações verdadeiras, profundas e autênticas: esta oportunidade eu simplesmente não quero perder!

Amor criativo
Acompanhe nas próximas edições do jornal Nosso Bem Estar uma série de matérias sobre pessoas que vivem relacionamentos abertos, poligâmicos e outras formas de amores que se afastam dos modelos convencionais. Também vamos conversar com monogâmicos convictos, solteiros a toda prova e conversar com pessoas que buscam criar suas próprias formas de se relacionar. Participe: envie seu depoimento para o nosso e-mail : redacao@jornalbemestar.com.br!

Nanda Barreto é jornalista e jurava que nunca namoraria a distância. Até que...

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