Crescimento pessoal

09/08/2016 08h00

ENTREVISTA EXCLUSIVA - Um retiro em sintonia

O Nosso Bem Estar conversou com Marco Schultz e Roberto Crema sobre um tema super relevante para a nossa época: como podemos aplicar o autoconhecimento de uma forma coerente e honesta no nosso dia a dia.

Por Nosso Bem Estar

MANGOSTOCK/ADOBE STOCK/NBE
Zeny

Como podemos aplicar o autoconhecimento de uma forma coerente e honesta no nosso dia a dia?

O Nosso Bem Estar conversou com Marco Schultz e Roberto Crema sobre um tema super relevante para a nossa época: como podemos aplicar o autoconhecimento de uma forma coerente e honesta no nosso dia a dia.

Nos próximos dias 13 e 14 de agosto eles estarão juntos, facilitando um retiro urbano que acontecerá em Porto Alegre.  Acompanhe abaixo os trechos principais das entrevistas, que podem ser vistas, na íntegra, no nosso canal do youtube.

 

 

MARCO SCHULTZ

Para quem é do mundo do Yoga, Marco Schultz dispensa apresentações. Professor de educação física, trabalha há 25 anos com esta milenar tradição, além de ter viajado o mundo estudando desenvolvimento humano integral, terapias, saúde holística e diferentes áreas do autoconhecimento.

Sua trajetória na meditação é vasta e profunda em diversas linhagens tradicionais e contemporâneas. Há mais de quinze anos lidera grupos de estudos em viagens a importantes centros de peregrinação pelo mundo, além de ter realizado a coprodução do aclamado filme "Eu Maior".

Marco, quando não está viajando o Brasil ministrando cursos, retiros e satsangs - encontros meditativos com canto de mantras e ensinamentos de temática espiritual - mora em Florianópolis.

Marco, como podemos aplicar e viver a espiritualidade e o autoconhecimento de uma forma coerente, responsável e honesta no nosso dia a dia?

O estudo e a teoria são igualmente importantes, mas é preciso se apropriar e integrar este conhecimento, que hoje está tão acessível, com a realidade do bom combate da vida. A proposta de um retiro urbano é exatamente esta. No sábado à noite, depois de um momento de pausa e aprofundamento, cada um vai voltar para sua realidade e aplicar os ensinamentos na prática. A intenção é também acolher estas pessoas que têm resistência em entrar em momentos de retiro, para que possam aproveitar o ambiente urbano debatendo diversas questões, com o apoio de escrituras, estudos e ciências e, através destes recursos, ter um campo mais favorável para este apropriamento.

Este modelo de retiro facilita a prática deste autoconhecimento no cotidiano?

É mesmo difícil fazer uma realidade externa virar uma realidade interna, é fina esta linha que nos faz viver o autoconhecimento de uma forma verdadeira. Para isso, é importante entender o que é o autoconhecimento. Ele não pode ser resumido a um contexto horizontal, ou seja, eu e minha vida de Marco. A proposta é ir além desta vida de Marco, somar a uma realidade anterior e até posterior. A realidade Eu Sou que o Marco costuma não dar atenção ou esquecer. Reconheço este Eu Sou e me aproprio dele, e trago para o Marco que está aqui, vivendo uma condição humana, errando, com suas características, qualidades e defeitos, que tem uma realidade bastante comum, urbana, ordinária, mas que busca, com a prática do yoga, estar apropriado desse Eu Sou, para estar mais inteiro, equilibrado, consciente, sendo um cidadão mais responsável, um parceiro, um filho, um pai ... onde essa realidade dos papéis que a gente representa em vida, apropriados desse Eu Sou mais amplo, possam fazer um quadro que, de fato, seja honesto e coerente com tudo isso que a gente estuda tanto.

Como surgiu a oportunidade de realizar um trabalho junto ao Roberto Crema?

Esta proposta de retiro urbano começou o ano passado, em São Paulo e no Rio de Janeiro. O Roberto é um irmão querido que abraçou a proposta de nos juntarmos e somarmos forças para trazermos para as pessoas este campo de inspiração, mais favorável a este apropriamento. Não adianta nada a gente visitar lugares e participar de eventos, absorver tanta coisa inspiradora, sem que aconteça este apropriamento. O linguajar do Roberto, com toda sua experiência e cultura, é muito adequado e nós funcionamos em sintonia. Temos empatia ao propósito espiritual, ao autoconhecimento e a cultura de paz. É uma grande oportunidade e, sem dúvida, será um encontro inspirador. O Crema é um irmão servidor.

Algumas pessoas passam pela vida sem a oportunidade de viver a paz que traz um retiro como este. Uns têm a benção de experimentar e outros não?

Eu concordo, porém, ao mesmo tempo é muito interessante. Tenho um passado de desencontros e sofrimento, próprios da condição humana, mas o fato é que todo este passado junto, os erros e acertos, me colocaram aonde eu estou agora. Acho que, neste sentido, é um grande mérito e também uma grande responsabilidade. Essa realidade do Eu Sou está disponível para todo mundo. É dar-se conta, mas para dar-se conta, a gente tem que viver o que nos cabe viver. Este contentamento que a gente tanto busca, a realidade do ser, não do estar, é baseada também em experiências anteriores.  Podemos simplesmente relaxar nessa realidade, está tudo certo, a vida segue e tem algo nos levando. É bom se deixar levar, como um filho, aonde um pai – aquele que nos colocou aqui – está junto, nos acompanhando. Muitas vezes o filho, por si mesmo, não acerta o alvo, e ele precisa dessa relação.

Assista a entrevista de Marco Schultz na íntegra no nosso canal do youtube: bit.ly/marcoschultz2016

ROBERTO CREMA

Reitor da Unipaz - Universidade Internacional da Paz, é antropólogo e psicólogo do Colégio Internacional de Terapeutas. Na Universidade Holística Internacional de Brasília, implementou o curso de formação holística de base, além de orientar o curso de Psicologia Transpessoal.  Pioneiro da transdisciplinaridade, viaja pelo Brasil e pelo mundo ministrando cursos e realizando palestras sobre a importância da abordagem holística.  É autor de diversos livros: Introdução à Visão Holística, Visão Holística em Psicologia e Educação e Saúde e Plenitude - um Caminho para o Ser. 

Roberto, uma das temáticas trazidas pelo filme Eu Maior foi a questão da tarefa do século, onde comentaste a respeito da ética da não-separatividade, o que parece ter muita relação com o tema do retiro. Como podemos viver a espiritualidade e o autoconhecimento de forma coerente, honesta e realista no nosso dia a dia?

O retiro é paradoxal. Conciliar paralelamente este cotidiano da grande cidade com o monastério, é o grande desafio. No retiro vamos propor uma pausa, porém, dentro do cotidiano e, nesse sentido, é bastante natural. Precisamos, na verdade, de uma aliança da ética da não-separatividade com a ética da diversidade, porque ao mesmo tempo somos únicos, temos um semblante original, uma assinatura do mistério, única, mas há uma não-separatividade. Eu diria que a ilusão da separatividade está na fonte do sofrimento humano. No meu primeiro encontro com o saudoso e perene Pierre Weil, tive um insight extraordinário que foi redefinidor da minha existência. Ele dizia que a raiz do sofrimento humano é o apego. O apego é a identificação. Se nós estivermos identificados, seja lá com o que for, uma pessoa, um objeto, um conhecimento, um status, haverá o medo de perder. Esse medo nos remeterá ao estresse, que é a origem das doenças civilizacionais. E de onde vem todos os apegos? Da fantasia da separatividade. O retiro irá promover um encontro onde a pessoa possa se conectar com essa realidade básica de si, do outro, dos outros, da natureza e do próprio mistério (que convocado ou não, sempre está presente). Conciliando, portanto, a ética da comunhão com a ética da alteridade, daquilo que nós temos de único. Creio que dessa conjunção ética nós poderemos, quem sabe, ter um espaço de humanidade mais fraterna, consciente e responsável, mais em paz, mais humana.

Que ferramentas, além do retiro, você sugere para lidarmos com o dilema de viver a espiritualidade e autoconhecimento no dia a dia?

Essa é a grande questão, eu diria, porque vivenciamos uma crise da fragmentação e, sobretudo, já que no retiro nós vamos buscar uma conciliação entre “Éx oriente lux” (do oriente vem a luz) no coração do ocidente. Nós, a partir do século XVII, vivemos uma cisão bastante grave entre o profano e o sagrado, entre a espiritualidade e a matéria, a razão e o coração, a sensação e a intuição, a efetividade e a afetividade. Em última instância, isto está escrito em nossos próprios hemisférios cerebrais, e quando eu falo em oriente e ocidente, não se trata meramente de regiões geográficas e, sim, de estados de consciência. Nós temos o hemisfério esquerdo do pensamento, da lógica, do rigor, certamente o ocidente da tecnociência. Temos o hemisfério direito, da poesia, da mística, da comunhão, da musicalidade e, por certo, nosso oriente interior. No século XVII saímos de um excesso de espiritualidade (e tudo que é excessivo nos adoece, e na Europa medieval nos levou às fogueiras da inquisição) para uma maior ênfase na razão - que as vezes tem razão, quando dentro dela palpita um coração. E aquilo que foi um movimento da inteligência, que fez brotar toda modernidade, o racionalismo científico, que no século XVIII se manifestou como o iluminismo (nós achávamos que a razão iria iluminar tudo), no século XIX este modelo já tinha se extremado e nós fomos para um outro polo. Se nos momentos sombrios da idade média a ciência era reprimida em nome de algo que confusamente era chamada Deus, nos momentos sombrios da modernidade é a experiência sublime da espiritualidade passa a ser reprimida em nome de algo que confusamente nós chamamos de ciência. E o paradigma que nós estamos propondo na Unipaz há 30 anos é da integração destes dois hemisférios. O retiro vai representar uma experimentação no coração da Babilônia, vivenciar esta Nova Jerusalém que fala da paz, ou seja, unir estas duas formas de apreensão no mesmo real. Então, de fato, hoje nós falamos de uma espiritualidade inclusive transreligiosa, que respeita as religiões mas que as transcende todas, porque espiritualidade, até onde eu posso compreender, na sua essência é amor e na sua prática é solidariedade. E foi precisamente o naufrágio do essencial, da espiritualidade, que nos levou a este momento de uma crise global e não é com a lógica, que inventou o problema, que nós iremos resolvê-lo. Eu concordo com Carl Sagan que dizia que o futuro da humanidade dependeria do corpo caloso, que une os dois hemisférios. Dependemos desta integração para que possamos ser inteiros, porque tudo que é inteiro é belo, justo, pacífico, saudável e sagrado.  

Assista a entrevista de Roberto Crema na íntegra no nosso canal do youtube: bit.ly/robertocrema2016

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