Saúde Integral

06/06/2016 08h00

Um mundo sem doenças

Uma utopia ou uma meta a ser alcançada?

Por Elisa Dorigon

Arquivo Nosso Bem Estar
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Durante cinco anos os pesquisadores acompanharam 35 homens com câncer de próstata de baixa agressividade para explorarem a relação entre as mudanças de estilo de vida e o comprimento dos telômeros

O estado de completo bem-estar físico, mental e social, que consiste não apenas na ausência de uma doença ou enfermidade, é a definição de saúde adotada desde 1946 pela Organização Mundial de Saúde, data em que foi fundada. Até hoje o conceito se mantém atual e nunca foi modificado embora, em 1983, tenha sido realizado um congresso para incluir a palavra espiritual que, até hoje, não foi incluída oficialmente.

O fato é que de lá para cá, a medicina avançou muito, mas mantém seu foco na cura das doenças e na restauração da saúde e pouco tem realizado no sentido de educar o ser humano para adotar comportamentos para que ele desenvolva a própria saúde.

O médico gaúcho especializado em traumatologia e esporte, Uronal Zancan, é uma das exceções. Uma experiência pessoal com duas hérnias de disco, a primeira lombar e a segunda cervical, o levou a tomar uma decisão simples, que acabou modificando seu comportamento como indivíduo e também seu papel como médico. Passou a trabalhar cada vez menos com a doença e cada vez mais com a saúde.

Começou estudando a fisiologia dos exercícios e acabou montando uma academia de musculação dentro da sua clínica de traumatologia, seguiu os estudos pela nutrição e descobriu o poder das proteínas. Deixou de frequentar congressos de ortopedia e começou a frequentar congressos de educação física e psicologia. O resultado? Criou  um programa de emagrecimento chamado Pro Ser - Programa de Desenvolvimento da Saúde Integral. Realizado em grupos de 30 pessoas, a iniciativa se tornou um sucesso. “O fato é que para atingir um completo estado de bem-estar, é preciso trabalhar em sete dimensões: física, emocional, mental, cultural, social, ambiental e espiritual”, relata o médico.

Mas Uronal não parou por aí. Seguiu seus estudos e se aprofundando na busca pelo desenvolvimento da saúde integral, descobriu que podemos atingir idades avançadas sem ficarmos doentes e este conhecimento, está acessível a todos, independentemente da idade e nível social.

A descoberta do telômero

Estudando o efeito das dietas e estilo de vida na promoção da saúde, Zancan encontrou um estudo da Universidade da Califórnia (realizado por Elizabeth Blackburn, Prêmio Nobel de Medicina em 2009) que relacionava o estilo de vida, alimentação, exercícios físicos e controle de estresse, ao alongamento dos telômeros ao longo do tempo.

Os telômeros são partes dos cromossomas que afetam a rapidez com que as células envelhecem. À medida que se tornam mais curtos e como sua integridade estrutural enfraquece, as células  envelhecem e morrem mais rapidamente. Na verdade o estudo comprovou que os telômeros  podem alongar a medida que as pessoas mudam seus estilos de vida. Telômeros mais longos estão associados a menos doenças e vidas mais longa.

A pesquisa

Durante cinco anos os pesquisadores acompanharam 35 homens com câncer de próstata de baixa agressividade para explorarem a relação entre as mudanças de estilo de vida e o comprimento dos telômeros. Parte do grupo mudou estilo de vida: dieta, exercício moderado, redução de estresse e participação em grupo de apoio. O grupo que fez as mudanças teve aumento significativo no comprimento dos telômeros. O grupo que não alterou estilo de vida, teve os telômeros encurtados.

Quando tomou conhecimento da pesquisa, Uronal passou a estudar o mundo dos telômeros e montou uma palestra: A Cura do Envelhecimento, mito ou visão científica? E foi convidado a apresentar esta palestra na abertura da semana do médico na AMRIGS, em 2014.

Projeto Supersaúde

Após descobrir que o laboratório de Bioquímica da Universidade Federal do RS – UFRGS, mede telômero, Uronal criou um projeto inédito intitulado Supersaúde, onde 50 pessoas de 33 a 65 anos irão se submeter à medição dos telômeros todos os anos, durante cinco anos. A UFRGS aceitou realizar a pesquisa e aguarda apenas a aprovação da Comissão de Ética da Universidade.

O grupo se submeterá a todas as ferramentas de aumento da saúde aplicadas por Zancan, a fim de buscar, no mínimo, desacelerar o envelhecimento e avaliar a possibilidade criar algum tipo de rejuvenescimento.

O projeto receberá a orientação científica de vários pesquisadores da UFRGS e de outras instituições. O departamento de pós-graduação da Cardiologia da Faculdade de Medicina e do Hospital de Clínicas avaliará a melhoria da capacidade cardíaca. O Departamento de Bioquímica da UFRGS avaliará periodicamente o tamanho de telômeros, a função mitocondrial, os danos de DNA mitocondrial e nuclear, os danos às proteínas intracelulares e os danos oxidativos (fatores de avaliação do processo de envelhecimento utilizados pelos principais laboratórios de pesquisa).

É um trabalho inédito, que nunca foi realizado nestes moldes e o objetivo é que seja publicado em revista científica internacional de nível I.

As principais armadilhas que nos afastam da saúde e nos conduzem à doença

Uronal Zancan

Inconsciência sobre as suas ações

A principal causa de doença é a inconsciência. Nós não somos, na maior parte do tempo, conscientes das ações que fazemos. Agimos sem pensar na consequência, não temos o discernimento de pensar nas reações que essa ação vai nos causar e nem mesmo que ela nos fará pagar um preço mais caro do que o prazer que nos traz.  Como exemplo básico, todos sabem que açúcar faz mal para a saúde, inclusive em pequenas quantidades, e mesmo assim comemos doces por prazer, independente dele destruir a médio ou longo prazo a nossa saúde. Somos tão inconscientes que até oferecemos doces às crianças que mais amamos. Se conseguirmos pensar sempre o que essa ação vai fazer em relação a nossa saúde, com certeza iremos diminuir ao máximo as ações que nos levam para a doença.

O velho é doente por ser fraco e não por ser velho

O segundo conjunto de fatores são relativos ao movimento, ou à falta dele no ser humano.  Se nós não fizermos exercícios, perderemos massa muscular e essa perda é, talvez, a principal causa das doenças no meu entender. O velho é doente por ser fraco e não por ser velho. Se ele voltar a fazer exercícios de fortalecimento muscular ele regenera todo o seu corpo e até pode recuperar-se das suas doenças.  E, para isso, o principal exercício é a musculação apesar do preconceito quanto a ela.

Diminuição da capacidade cardiovascular respiratória

Outro fator causador de doença é a diminuição da capacidade cardiovascular respiratória. Muita gente acredita que isso é decorrente de idade e quanto mais velho, mais fraco fica o coração, quando na verdade a queda da capacidade cardíaca é decorrente da falta de exercícios adequados para manter o seu coração em nível ótimo. Um treinamento correto aliando exercícios anaeróbicos e aeróbicos de alta intensidade não só mantém a força do coração durante o envelhecimento como também possibilita aumentar em mais de 50% a capacidade cardíaca que tínhamos quando jovem.

Alimentação inadequada

Outro conjunto de fatores que leva às doenças é a alimentação inadequada. Nós ingerimos comidas e bebidas erradas, e isto acaba agredindo o nosso corpo, causando as doenças, sem nos darmos conta. A gente come buscando prazer e, de novo, sem consciência, e não se dá conta que isso vai nos trazer consequências danosas mais adiante.

Falta de alimentos corretos

Às vezes deixamos de comer a comida certa, achando que qualquer lanche que nos tira a fome iminente é correto, quando na verdade o corpo precisa ter uma quantidade de nutrientes adequados para manter a sua saúde. O progresso industrial nos fornece alimentos industrializados com baixíssimo poder nutricional e a custos baratos, e nos deixamos levar pela economia. Devemos escolher “comida de verdade” aquela que não é empacotada, não tem rótulo, que nossos avós comiam.

Necessidade de suplementação

Outras vezes, comemos alimentos que achamos adequados e naturais, mas vem de solos empobrecidos e com ausências dos nutrientes necessários e, por isso, a suplementação nutricional está cada vez mais necessária.

Sono inadequado

 Ouro fator que gera muitas doenças é a falta de hábitos adequados de saúde. O sono inadequado não nos dá a regeneração necessária dos órgãos e tecidos. Sono não é só para gente relaxar e descansar. É para recuperar todas as agressões sofridas durante o dia. E não adianta deixar para recuperar no final de semana. Inúmeros trabalhos demonstram que sono perdido é sono irrecuperável.

Pouca exposição ao sol

Outro problema causador de muita doença é a falta de contato com o sol, que faz produzirmos pouca vitamina D e essa deficiência favorece ao aparecimento de mais de 300 doenças.

Estresse

A causa de doença que mais está aumentando é decorrente do estresse, que é devido à maneira errada de enfrentar os problemas e as dificuldades da vida moderna.  E, o mais incrível, é que existem centenas de técnicas fáceis de realizar que impediríamos de ficarmos estressados frente à determinada situação.  Só precisamos ir atrás e aprendê-las.

Delegação de responsabilidade sobre a sua saúde

E finalmente, a décima causa de doença é devido a nós delegarmos a gestão da nossa saúde a outras pessoas como ao médico, ao nutricionista, ao educador físico e achar que por eles terem conhecimento e nós não, que eles são seres superiores e tudo o que disserem deve ser considerado dogma e não os questionarmos. Temos que questionar sempre se a informação serve para nós, e adotar na nossa vida apenas o que acharmos correto e pertinente para o nosso atual momento.

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