Bem-estar

21/01/2014 18h37

Quando a morte se aproxima

Reflexões importantes sobre um evento natural e inevitável

Por Nosso Bem Estar

RAFFAELA VANNUCCI/ ISTOCKPHOTO/ NBE
Morte

Nascimento e morte fazem parte dos ciclos eternos da natureza

“Por que é tão difícil praticar a morte e praticar a liberdade? E por que temos tanto medo da morte que evitamos por completo olhar para ela? De algum modo, no fundo, sabemos que é impossível evitar encará-la para sempre. A morte é um vasto mistério, mas há duas coisas que podemos dizer a seu respeito: é absolutamente certo que morreremos um dia, e é incerto quando e onde essa hora vai chegar.”

Os questionamentos presentes em “O livro tibetano do viver e do morrer” sugerem uma reflexão importante sobre este evento natural e inevitável, com o qual precisamos nos defrontar de tempos em tempos. Compreender a mortalidade do corpo é fundamental para o equilíbrio da vida, porque ajuda a encontrar a verdadeira essência de se estar vivo.

Nosso objetivo com essa reportagem é retomar o sentido natural desse fenômeno e favorecer uma educação para a morte. Mais cedo ou mais tarde, teremos que enfrentar sua chegada, seja para nós, para os que amamos ou também - importante considerar – para aqueles com quem nos desentendemos. Quando chegar esta hora, podemos estar mais conscientes e preparados.

Em diversas culturas, especialmente na filosofia oriental, a morte é vista como um processo contínuo, uma transição para outra etapa da evolução. Se observarmos a natureza, veremos que tudo está em constante movimento, refletindo ciclos eternos de nascimento, crescimento, envelhecimento e morte. Saber viver o fim é inevitável para que haja um novo começo, a mudança às vezes tão esperada por cada um de nós.

Segundo Herculano Pires em seu livro “Educação para a morte”, nas civilizações agrárias e pastoris, graças ao seu contato permanente com os processos naturais, a morte era encarada sem complicações. “Os rituais suntuosos, os cerimoniais e sacramentos surgiram com o desenvolvimento da civilização, no deslanche da imaginação criadora. A mudança revestiu-se de exigências antinaturais, complicando-se com a burocracia, processos de julgamento e condenações”, relata o escritor.

Para ele, as religiões prestariam um grande serviço à humanidade se tratassem a questão da morte com naturalidade. “A morte é o nosso fim inevitável. No entanto, chegamos geralmente a ela sem o menor preparo. As religiões nos preparam, bem ou mal, para a outra vida. E depois que morremos encomendam o nosso cadáver aos deuses, como se ele não fosse precisamente aquilo que deixamos na Terra ao morrer.”

Quanto mais adiamos esse encontro, quanto mais o ignoramos, maior é o medo e a insegurança que surgem para nos perseguir... Quanto mais tentamos fugir do medo, mais monstruoso ele se torna. Por isso é tempo de iluminar também esta figura tão obscurecida no inconsciente coletivo.

 

 

A arte de bem viver

“Se queremos morrer bem, devemos aprender a viver bem: se esperamos morrer em paz, devemos cultivar a paz em nossa mente e modo de vida.” Estas palavras do Dalai Lama resumem o que ele chama de “certas precauções que é sensato tomar antes que a morte ocorra”.

Do ponto de vista do budismo, a vida é eterna, assim como a consciência, que sobrevive ao fim da existência corpórea. Outras experiências virão, e tudo dependerá de como você se sente. A mente é a causa de todo sofrimento, que tem origem no medo e no apego. Portanto, o estado de espírito em que nos encontramos no instante da morte deve ser motivo de atenção. “Apesar da grande diversidade de carma que acumulamos, se fizermos um esforço especial para produzir um estado mental virtuoso, poderemos fortalecer e ativar um carma também virtuoso, e assim propiciar um renascimento feliz”, orienta o líder espiritual.

Ajudar quem está morrendo

Cuidar de alguém que está de partida também não é tarefa fácil. A dor da despedida – que é tão natural quanto a própria morte – muitas vezes está acima da capacidade de compreensão. Mas, segundo os ensinamentos compartilhados em “O livro tibetano do viver e do morrer”, nestas horas difíceis o importante é conseguir manter uma comunicação sincera e amorosa.

- Dar amor incondicional: A quem está morrendo é preciso dar, tanto quanto possível, um amor incondicional, livre de qualquer expectativa. Seja natural, seja você mesmo, seja um bom amigo e a pessoa terá certeza que está com ela, como um igual, de um ser humano para o outro.

- Dizer a verdade: Devemos ser sinceros quanto à sua condição, da forma mais calma, gentil, sensível e habilidosa possível. Muitas vezes as pessoas sabem instintivamente que estão morrendo, mas esperam que os outros – médicos, família ou amigos – confirmem isso. Se não o fazem, aquele que vai morrer tende a pensar que é porque os membros da família não saberão lidar com a notícia. Então ele próprio também não tocará no assunto. Essa falta de honestidade só fará com que ele se sinta mais isolado e ansioso.

- Medos ligados à morte: Para que possa ajudar alguém que vai morrer, é importante tomar consciência dos medos que você tem em relação à morte. Lidar com os que morrem é como encarar um espelho polido e implacável que revela a sua própria realidade...

- Questões não resolvidas: Uma ansiedade comum entre os que estão morrendo é a de deixar assuntos não concluídos. Às vezes as pessoas se agarram à vida e têm medo de soltar-se dela e morrer porque ainda não se conciliaram com o que foram e fizeram, o que aumenta o sofrimento tanto de quem se vai quanto de quem fica. Uma sugestão para se libertar da sensação de pendência é deixar que escrevam aquilo que gostariam de ter dito, de ter feito a alguém. Também se pode fazer um exercício de visualização do diálogo com as pessoas com quem queiram se reconciliar, e compartilhar isso com um amigo ou familiar.

- Dizer adeus: Não são apenas as tensões que você deve aprender a abandonar, mas a própria pessoa que vai morrer. Se está apegado e agarrado a ela, pode provocar angústia desnecessária e tornar-lhe difícil abandonar tudo e morrer pacificamente. Uma pessoa que vai morrer pode resistir por muitos meses ou semanas até que se sinta pronto. Muitas vezes necessitam de uma permissão dos familiares para partir, sentindo que ficarão bem.

A importância do luto

“A experiência do luto é poderosa. Assim também é a sua capacidade para ajudar a curar a si mesmo. Ao viver o processo do luto, a pessoa está se movendo em direção a um renovado senso de significado e propósito em sua vida.” (Wolfelt)

Choro, tristeza e lembranças são formas de "elaboração" da ausência e da falta, mas não devem impedir novas relações, sentimentos, atividades e vontades. Mas será que estamos preparados para lidar com as emoções que as perdas provocam?

A professora Maria Júlia Kovács, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), assinala uma tendência, típica da sociedade contemporânea, que é a de abafar o luto e “tocar em frente”. Hoje, só as mortes espetaculares como a do popstar Michael Jackson são admitidas; as outras são anônimas e geram um problema: como manejar a tristeza.

Segundo Aurélio Fabrício Torres de Melo, psicoterapeuta e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, na atualidade, a morte está perdendo seu lugar. “E, se a morte está sendo ‘expulsa’, como lidar com o luto?”, questiona. Sofremos pequenas perdas durante toda a vida e, mesmo as grandes e sofridas, seriam comumente precedidas de outras menores. Um exemplo é a angústia gerada pela percepção do envelhecimento dos pais, que sabemos, um dia vão nos deixar.

Tememos a morte, mas quando ela chega, não há escolhas, e a intensidade do luto depende da força da relação, dos sentimentos envolvidos, das expectativas nutridas. Assim, apesar de universal, cada um reage à sua maneira, mais penosa ou apaziguada, às perdas.

Hoje, entende-se que não há fases obrigatórias ou sequências de sentimentos no luto. Mas basicamente são considerados, em primeiro lugar, o choque gerado pela perda e, depois, o período de “elaboração” da ausência e da falta. Etapa muito variável, intensa ou contida, que dependente de fatores agravantes como a violência da perda ou as chamadas inversões, quando, por exemplo, filhos morrem antes dos pais.

Porém, o que importa é que o luto seja vivenciado. Por sua vez, Eugênio Mussak propõe a seguinte reflexão: “Se dê o direito de sofrer, mas não morra junto”.

Impermanência*

“A base do conceito budista de renascimento é principalmente a continuidade da consciência. Tome o mundo material como exemplo: todos os elementos no nosso atual universo, mesmo no nível microscópico, podem ser rastreados em direção ao passado, segundo cremos, até uma origem, um ponto inicial onde os elementos do mundo material são condensados no que se chama tecnicamente de ‘partículas espaciais’. Essas partículas, por sua vez, são o estado resultante da desintegração de um universo prévio. Assim, há um ciclo constante em que o universo evolui e se desintegra, e então volta novamente a ser. A mente é muito parecida com isso.” Dalai Lama

Por que vivemos em tal pavor da morte? Porque nosso desejo instintivo é viver e seguir vivendo, e a morte é um selvagem fim de tudo que nos é familiar. Sentimos que quanto ela vem somos lançados em alguma coisa realmente desconhecida, ou nos tornamos algo totalmente diferente. Imaginamos que estaremos perdidos e confusos, em algum lugar terrivelmente estranho. Imaginamos que será como acordar sozinhos, numa tormenta de ansiedade, num país estrangeiro, sem conhecimento da terra ou da língua, sem dinheiro, contatos, passaporte, amigos...

Talvez a razão mais profunda de termos medo da morte é que não sabemos quem somos. Acreditamos numa identidade pessoal única e separada, mas se ousarmos examiná-la, descobriremos que ela depende inteiramente de uma série infindável de coisas que a sustentam: nosso nome, nossa “biografia”, nossos companheiros, família, lar, emprego, amigos, cartões de crédito... É nesse suporte provisório e frágil que apoiamos nossa segurança. Assim, quando tudo isso nos é retirado, será que sabemos de fato quem somos?

Sem esses sustentáculos familiares, ficamos frente a frente conosco, alguém que não conhecemos, um estranho amedrontador com o qual estivemos convivendo todo o tempo, mas com quem nunca desejamos realmente nos encontrar. Não é por isso que sempre tentamos preencher cada instante de tempo com barulho e atividade, ainda que sem graça e superficial, para nos assegurarmos de nunca ficar em silêncio frente àquele estranho que há em nós mesmos?

Hipnotizados pela emoção de construir, de areia erguemos os castelos da nossa vida. Esse mundo pode parecer maravilhosamente convincente, até que a morte destrói a ilusão e nos expulsa do abrigo seguro. Que acontecerá então, se não temos nenhuma pista de uma realidade mais profunda? Quando morremos deixamos tudo para trás, especialmente este corpo que sempre tratamos com tanto carinho, em que confiamos cegamente, e que com tanto empenho tentamos conservar vivo.

Mas nossa mente não é mais confiável do que nosso corpo. Olhe só para a sua mente por alguns minutos. Você verá que ela é como uma pulga, saltando sem cessar de um lugar para o outro. Verá que os pensamentos surgem sem razão nenhuma, desconexos. Levados de roldão pelo caos de cada instante, somos vítimas da inconstância da nossa mente. Se esse é o único estado de consciência com que temos familiaridade, então confiar em nossa mente no instante da morte é uma aposta absurda.

*Retirado de “O livro tibetano do viver e do morrer”

Fontes: O livro tibetano do viver e do morrer (Sogyal Rinpoche), Laboratório de Estudos sobre a Morte da Universidade de São Paulo - www.lemipusp.com.br, Livro Educação para a Morte (Herculano Pires)

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