Crescimento pessoal

08/03/2016 09h35

Elas decidiram gestar outros sonhos!

Mulheres rebatem preconceitos por não querer engravidar e projetam parir um mundo com mais liberdade de escolha.

Por Nanda Barreto

Arquivo Nosso Bem Estar
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Atuando e assumindo liderança em diversas áreas, as mulheres passaram a ver a maternidade não como um destino inexorável, mas como uma opção.

As mulheres conquistaram seu espaço no mundo. Claro, ainda há muito o que avançar na garantia de direitos, mas há de se reconhecer que cada vez mais elas estão dando um chega pra lá na cultura patriarcal. Atuando e assumindo liderança em diversas áreas, as mulheres passaram a ver a maternidade não como um destino inexorável, mas como uma opção.

Tê-los ou não tê-los, eis a questão. Para a jornalista Cristiane Santos, 38, a decisão foi complexa. “Eu cogitei ser mãe quando tinha uns 25 anos. Mas a ideia de não ter filhos veio junto com a consciência de um papel de militância e de luta de classes na minha vida. Não daria conta com filhos. Veja bem, não acho que outras mães não dão conta... é o meu caso”, pontua.

Por algum tempo, a decisão de não engravidar mobilizou alguns conflitos internos na vida da estudante de engenharia Natália Azevedo, 23. Mas hoje, apesar de tão jovem, ela se sente segura e realizada assim. “Eu refleti e me questionei profundamente sobre isso. Quando conheci meu atual namorado e já pretendia fazer a segunda graduação, comecei a pensar no estilo de vida que pretendia ter assim que me formasse. Um filho não caberia nesse projeto”, sustenta.

Já a esteticista Silvia Silveira, 43, lembra que a decisão de não ter filhos veio clara e límpida desde sempre. “As consequências mais positivas da minha escolha estão ligadas ao fato de que não tenho ninguém dependendo diretamente de mim e por isso tomo as decisões que acho melhor para minha vida.”

A autonomia também é uma vantagem apontada por outras mulheres. “Vejo que consigo ter uma liberdade que as mães não têm e assim tenho uma vida bem disponível para as causas com as quais contribuo”, argumenta Cristiane. “Também me sinto com uma visão ampla de amor, como se o que ficaria represado nos filhos se esparramasse, entende?”, complementa.

Pressão social

Talvez um dos aspectos mais incômodos sobre a decisão de não ter filhos seja a pressão social. De fato, ainda existe certo mito de que a mulher só pode se sentir completa quando experimenta a procriação. Sem questionar o reducionismo dessa perspectiva, a maternidade continua sendo a atribuição feminina mais valorizada pela sociedade.

Natália defende que embora seja um ponto difícil, o julgamento dos outros é mais suportável do que ter um filho. “Meu pai já me perguntou quando vou ter filhos e já sabe que não pretendo. Minha mãe já citou a solidão na velhice e eu rebato citando os asilos. Ironicamente, quem coloca os pais e avós nos asilos são os filhos. Alguns amigos ficam falando ‘ah, mas você já foi criança’. No entanto, não é uma questão de gostar ou não gostar de ter sido criança. Trata-se de uma opção por um estilo de vida que, como qualquer outro, tem seu ônus e seu bônus.”

Cristiane diz que nunca se sentiu pressionada pela família. Já pelos conhecidos… “Acho que a maior pressão é cultural mesmo, essa ideia vendida de que mulher sem filhos é incompleta... Mal sabem eles que tenho tantos filhos: meus projetos, realizações, tanta gente com quem pude contribuir nesta vida… Talvez pelas minhas tantas opções, minha família nunca me pressionou diretamente. Sempre me trataram como a diferente”, brinca.

A dentista Fernanda Freitas, 36, vê a maternidade como uma espécie de peso. “Costumo dizer que minha opção vem desde a infância. A maternidade nunca me emocionou. Nunca balancei na minha decisão. Minha mãe, de certa forma, até me apoia. Ela deixou de viver para criar os filhos após o marido morrer tragicamente num acidente aéreo quando eu tinha apenas três anos. Alguns amigos que não me conhecem a fundo ainda tocam no assunto, mas eu ignoro solenemente e por vezes até me irrito”, afirma.

Relacionamentos

Atualmente Fernanda vive uma união estável com um companheiro que já tem filha. No entanto, o assunto nem sempre é um tema bem resolvido entre os casais, e ela conta que já encarou muitos desafios em um relacionamento anterior. “Terminamos pela minha decisão. Ele sonhava em ser pai e hoje é. A família dele pressionava bastante”, recorda.

Natália está num relacionamento há dois anos e meio e seu companheiro compartilha da sua decisão. “Nós moramos juntos e estamos de acordo a respeito disso. Meus ex-namorados queriam ter filhos, mas não tive como questioná-los sobre isso, então, acredito que é fruto do velho modelo ‘conhecer alguém-casar-ter filhos’”, avalia.

Silvia conta que todos os seus namorados já tinham filhos e isso nunca foi motivo de conflito para o casal. “Se aparecesse uma situação diferente dessas com certeza o relacionamento terminaria, pois para mim é muito claro que não quero ser mãe”, sustenta.

Outras gestações

Os novos tempos lançam um desafio para que possamos abrir nossas mentes e corações para além das programações socioculturais. No livro Amar e ser livre, o líder espiritual brasileiro Sri Prem Baba traz reflexões sobre os significados da maternidade. “Ainda é muito comum os pais trazerem os filhos sem estarem desejando por eles ou, quando os desejam, essa vontade atende somente à necessidade de se realizar através deles. [...] Quem em você quer ter um filho? O egoísmo? O medo da escassez? O medo da solidão? Talvez você possa concordar que é injusto trazer um Ser para este planeta somente porque você quer alguém para cuidar de você”, escreve. Na publicação, Prem Baba defende que se todos pudessem ouvir o próprio coração, certamente o número de crianças encarnadas iria diminuir muito.

Certo é que ao ter coragem de enfrentar preconceitos e assumir sua não vocação para a maternidade, as mulheres assumem outros poderes. Empenham sua energia realizadora em outras áreas, buscam novos ares para explorar seu potencial criativo. De olho no futuro, o que elas querem é semear outros frutos.

Cristiane pretende seguir com sua missão de se colocar a serviço de uma sociedade mais justa e com mais qualidade de vida. “Ainda quero ser professora de yoga! E o maior filho de todos, sendo gestado, é a ideia de criar um Centro de Convivência de Práticas Integrativas de Saúde, juntando homeopatia, massagens, yoga, reiki, dança e tudo mais”, conta.

Na opinião de Fernanda, o que vale é ouvir os profundos anseios do seu coração. “Quero viajar mais, ler mais, estudar mais. Tudo com a liberdade que a minha alma pede e precisa.” Silvia entende que o grande legado da sua vida é dar o melhor de si a cada dia. “Quero gerar muita felicidade sempre e deixar para todos a lembrança e a herança da pessoa que fui.”

Quem em você quer ter um filho?

“Em algum momento você já questionou porque as pessoas querem ter filhos? Já notou a existência de uma programação social que nos conduz a casar e, automaticamente, ter filhos? Você já se perguntou se realmente isso faz sentido? Eu percebo esta questão como fonte de angústia para muitas mulheres e para muitos homens também. [...]

Às vezes ser mãe faz parte de um verdadeiro comando espiritual, um comando do coração. Porém ainda é muito raro que uma mãe tenha consciência da maternidade como uma iniciação espiritual. É muito raro encontrar casais que estão nesta frequência. O mais comum é que os casais tragam os filhos para o mundo apenas para responder a uma programação social e cultural, para atender às necessidades da própria criança ferida, para aliviar a carência. Ainda é muito comum os pais trazerem os filhos sem estarem desejando por eles ou, quando os desejam, essa vontade atende somente à necessidade de se realizar através deles. É a síndrome de Walt Disney: a esperança mágica de que o relacionamento e a família trarão felicidade eterna. Trata-se de uma crença de que a sua felicidade somente é possível através do outro, então você acredita que vai encontrar o príncipe encantado ou a princesa encantada e será feliz para sempre. [...]

No meio disso, existe uma dúvida específica no universo feminino: como mulher, para completar a maturidade, é preciso ter um filho? Não necessariamente. Essa é uma programação social que já está com os dias contados, ela já está caducando. Eu vejo muitos carregarem esta angústia, mas se puderem ser realmente honestos consigo mesmos, encontrarão por trás dessa questão a necessidade de agradar alguém.”

Sri Prem Baba. Trechos do livro Amar e ser livre.

Dica de leitura!

Um amor conquistado. O mito do amor materno.

Será o amor materno um instinto, uma tendência feminina inata, ou depende, em grande parte, de um comportamento social, variável de acordo com a época e os costumes? É essa a pergunta que Elisabeth Badinter procura responder nesse livro.

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