Crescimento pessoal

11/02/2016 08h12

Toda Forma de Saber

Segundo a teoria das Inteligências Múltiplas, todo ser humano possui graus variados de cada uma das inteligências e diferentes formas de combinações entre si. Ao entender o indivíduo como uma singularidade holística permite-se que ele aprenda e expresse seu saber de diferentes formas.

Por Vera Mari Damian

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Nos anos de 1980, a ideia de inteligência única começou a mudar graças aos novos conceitos desenvolvidos pelo cientista norte-americano Howard Gardner em sua Teoria das Inteligências Múltiplas

O menino não conseguia aprender as primeiras letras e a escola desistiu dele. Aconselhou os pais a perderem a esperança, pois seu filho nunca iria aprender. Mesmo no seio da família ele era considerado um “retardado”. Só conseguiu ser alfabetizado depois dos nove anos de idade. Com graves dificuldades de memorização, perdia o interesse pelas aulas que exigiam tais habilidades. Do diretor de sua escola ouviu que “jamais iria servir para coisa alguma”.

Ainda bem que o menino Albert Einstein não acreditou no que pensavam a seu respeito e foi adiante. Em 1921 recebeu o Prêmio Nobel de Física por seus estudos sobre a teoria da relatividade e acabou consagrado como o mais célebre cientista do século 20. Mas, ao longo da vida, continuou com dificuldades para memorizar e se relacionar com pessoas.

Afinal, o que define a inteligência de um indivíduo? Durante muitos anos compreendeu-se que a inteligência humana poderia ser medida de acordo com os resultados de testes de QI (coeficiente de inteligência), que avaliam basicamente a capacidade de raciocínio lógico.

Nos anos de 1980, a ideia de inteligência única começou a mudar graças aos novos conceitos desenvolvidos pelo cientista norte-americano Howard Gardner em sua Teoria das Inteligências Múltiplas (Frames of Mind, de 1983). 


Estavam lançadas novas luzes. Gardner apresentou vários tipos de inteligência e suas características. Segundo ele, já se nasce com as “inteligências”, mas elas precisam ser “acordadas”  por meio de estímulos significativos. O desenvolvimento de cada inteligência será determinado tanto por fatores genéticos e neurobiológicos quanto por fatores ambientais.

EDUCAÇÃO INDIVIDUALIZADA

Einstein era um gênio matemático, Mozart um gênio musical, Shakespeare um gênio linguístico e Darwin um gênio naturalista, mas dificilmente um gênio será gênio em tudo. Por outro lado, o estímulo adequado pode provocar o desenvolvimento das diversas inteligências em todos os seres humanos e, consequentemente, de habilidades e aptidões específicas.

Como múltiplas inteligências, Gardner identificou a Linguística, a Lógico-Matemática, a Espacial, a Musical, a Corporal-Cinestésica, a Interpessoal e a Intrapessoal. Após novos estudos, acrescentou a inteligência Naturalista à sua lista original e mantém pesquisas sobre o que define como Inteligência Existencial ou Inteligência Espiritual. Outras formas de inteligência podem vir a ser identificadas para otimizar a teoria e sua aplicação.

Segundo o autor, todo ser humano possui graus variados de cada uma das inteligências e diferentes formas de combinações entre si. Ao entender o indivíduo como uma singularidade holística permite-se que ele aprenda e expresse seu saber de diferentes formas e exercite diferentes Inteligências.

Suas contribuições colaboram para o avanço de reflexões na educação. Gardner é autor de cerca de 20 livros que abordam essa questão de o ser humano possuir mais de um tipo de inteligência. Ora, se é assim, os processos de aprendizagem também devem ser individualizados. 

“Devemos individualizar a educação. Ao invés de ensinar a mesma coisa da mesma forma para todos, precisamos aprender ao máximo a respeitar e tentar educar cada aluno da maneira que faça sentido para sua forma particular de pensar. Outra questão é a pluralização da forma de ensinar. Nada do que é importante pode ser ensinado apenas de uma forma, quer seja a teoria da evolução, quer  seja a noção matemática do zero, quer seja a história de um país. Se você ensinar de maneiras diferentes duas coisas vão acontecer: primeiro, vai alcançar mais pessoas – algumas aprendem mais com histórias, outras com filmes, outras com debates ou interações. Segundo, vai conseguir demonstrar o que realmente significa saber algo. Porque se você realmente entende de um assunto, pode pensá-lo de muitas formas diferentes.  Estou absolutamente confiante de que, se individualizarmos e pluralizarmos mais a  educação, os estudantes vão aprender mais, gostar mais da escola e virarão aprendizes para o resto da vida. O oposto disso é ensinar tudo de uma só maneira e querer forçar todo mundo a ser igual.”

CONFORME A CULTURA

Gardner propõe que cada uma das inteligências tem sua forma própria de pensamento ou de processamento de informações, além de um sistema simbólico. Esclarece que jamais haverá uma lista única de inteligências humanas, mas sua teoria de Inteligências Múltiplas se propõe a captar uma gama razoável dos tipos de “competências” valorizadas pelas culturas humanas.

Há que se considerar ainda que o valor — maior ou menor — que uma sociedade confere a determinado tipo de inteligência está relacionado à sua cultura e ao tempo/espaço em que ela se manifesta. Na Índia, por exemplo, o desenvolvimento da inteligência Espiritual está impregnado na cultura desde o nascimento, diferentemente de outros países que cultuam prioritariamente a inteligência Lógico-Matemática.

Para Celso Antunes, educador brasileiro especialista em inteligência e cognição e autor de 180 livros na área, as pesquisas de Gardner representam um instrumento de ação pedagógica imprescindível. Em artigo publicado na revista Educação, destaca:

“Gardner mostrou de forma coerente que todos os seres humanos possuem diferentes tipos de mente e que pais e professores podem tornar possível uma educação personalizada. Na imensa diversidade que existe em cada um, deve solidificar-se a certeza de que nenhum ser humano é perfeito em tudo, mas todos, absolutamente todos, possuem potencial de grandezas diversas e forças pessoais que devidamente reconhecidas colocam uma nova linha educacional a serviço do integral desenvolvimento humano e da extrema grandeza da singularidade de sua mente.”

SUPERANDO OS LIMITES

O engenheiro aeronáutico Antônio Carlos Perpétuo decidiu buscar uma solução para as dificuldades de concentração apresentadas por seu filho caçula na escola. Em suas pesquisas encontrou não apenas a solução para seu filho, mas uma nova perspectiva de vida. “Os resultados surpreendentes com meu filho me levaram a querer desenvolver um método que pudesse beneficiar mais pessoas”, conta ele.

Assim surgiu em 2006 o Supera – Ginástica Para o Cérebro. A partir da experiência piloto no interior de São Paulo, Antônio Carlos projetou uma rede de franquias que chega a 2016 com 200 unidades no Brasil e prospecções para alcançar outros países. Em 10 anos a Supera já recebeu mais de 60 mil alunos de idades que variaram entre 5 e 101 anos.

A metodologia é baseada no uso de quatro ferramentas: ábaco, jogos, exercícios lógicos e dinâmicas de grupo.

“Trabalhamos especialmente com foco nas inteligências Lógico-matemática e Interpessoal. Entendemos que essas são as portas para as outras inteligências porque desenvolvem a capacidade de resolver problemas do dia a dia e de se relacionar. As melhoras que o aluno obtém se refletem em outras áreas e em ganhos significativos na sua qualidade de vida”, pontua Josi Marcolin, uma das franqueadas no Rio Grande do Sul.

Em todas as idades, o método trabalha a “atenção”, considerada uma porta para a memória e o raciocínio, e a “concentração”. O treinamento é considerado importante especialmente porque hoje, com o uso das tecnologias, as pessoas estão treinando muito a “desconcentração”.  

O cérebro humano consome em torno de 30% da energia que o corpo produz e a partir dos 25 anos inicia uma perda natural de neurônios. Graças a sua capacidade de neuroplasticidade, pode criar novas conexões se for estimulado.

Para aumentar a quantidade e a qualidade das sinapses, o cérebro precisa de “novidade”, “variedade” e “desafios crescentes”. Os maiores inimigos do cérebro são o desuso e a rotina. No contraponto, a ginástica cerebral colabora para retardar o envelhecimento e prevenir doenças cerebrais degenerativas. O método é procurado por idosos que desejam envelhecer saudáveis. Atualmente, pessoas com mais de 60 anos já representam 35% dos alunos da Supera no Brasil.

As Múltiplas Inteligências

Na teoria das Inteligências Múltiplas, Howard Gardner propõe que todos os indivíduos, em princípio, têm a habilidade de questionar e procurar respostas usando as diversas inteligências que possuem, como parte de sua bagagem genética.

A linha de desenvolvimento de cada inteligência, no entanto, será determinada tanto por fatores genéticos e neurobiológicos quanto por condições ambientais.

Quanto mais “inteligente” for o ambiente de convívio e quanto mais adequados os estímulos, mais as pessoas se tornarão capazes. E menos determinante será sua herança genética.

Inteligência Linguística - É a habilidade para usar a linguagem para convencer, agradar, estimular ou transmitir ideias. Consiste na capacidade de pensar com palavras e de usar a linguagem para expressar e avaliar significados complexos. Crianças com expressiva capacidade linguística surpreendem pelo vocabulário que conhecem e utilizam, adoram ler, escrever e contar histórias, mostrando interesse por rimas, trocadilhos, charadas e jogos com palavras. 

Inteligência Musical -  Habilidade para apreciar, compor ou reproduzir uma peça musical. Inclui discriminação de sons, sensibilidade para ritmos, texturas e timbre, tendência para perceber temas musicais e para produzir e/ou reproduzir música. Crianças com expressiva inteligência sonora mostram-se sensíveis a sons e seus ambientes, recordando com facilidade de ritmos e melodias.

Inteligência Lógico-Matemática - Ligada à competência em compreender os elementos da linguagem lógico-matemática, permitindo ordenar símbolos numéricos e algébricos assim como  quantidades, espaço e tempo. Crianças que apresentam uma elevada inteligência lógico-matemática adoram separar, classificar e organizar objetos e brinquedos, aprendem a calcular rapidamente e são excelentes em jogos que envolvem lógica e estratégia.

Inteligência Espacial - Expressa a capacidade de relacionar o espaço próprio com o espaço do entorno, identificando e administrando distâncias e pontos de referências, bem como revelando a capacidade em perceber espacialmente diferentes objetos. Crianças com elevado nível de inteligência espacial parecem “pensar” por meio de imagens visuais e muitas vezes destacam-se em atividades artísticas ou jogos que envolvem montagens.

Inteligência Corporal-Cinestésica - Capacidade de controlar e utilizar o corpo, ou uma parte dele, em atividades motoras complexas e em situações específicas, assim como manipular objetos de formas criativa e diferenciada. A criança especialmente dotada desse tipo de inteligência se move com graça e expressão a partir de estímulos musicais ou verbais. Demonstra uma grande habilidade atlética ou uma coordenação apurada.

Inteligência Interpessoal - Muito nítida em pessoas que revelam extrema capacidade em compreender a natureza humana, procedendo uma verdadeira “leitura do outro”, assim como uma destacada facilidade para relações interpessoais e a compreensão da dinâmica dos grupos sociais. Crianças com fortes habilidades nessa inteligência relacionam-se muito bem com outras pessoas, fazem amizade com extrema facilidade e são escolhidas para liderar grupos. 

Inteligência Intrapessoal - É a inteligência de quem expressa grande facilidade para estabelecer relações afetivas com o próprio eu, construindo uma percepção apurada de si mesmo, fazendo despontar a autoestima e aprofundando o autoconhecimento de sentimentos, temperamentos e intenções. Crianças com inteligência intrapessoal elevada desde cedo demonstram saber “quem realmente são”, não se preocupando muito com o que pensam a seu respeito.

Inteligência Naturalista - Está associada à sensibilidade de percepção e compreensão dos elementos naturais e da interdependência entre a vida animal e vegetal e os ecossistemas. As crianças com elevada inteligência naturalista interessam-se muito por animais e pela vida rural.  Costumam também ter uma leitura coerente e racional da natureza em todo seu esplendor.

Inteligência Existencial (ou Espiritual) - Capacidade de se situar a respeito dos limites mais extremos do cosmos e também em relação a elementos da condição humana como o significado da vida, o sentido da morte, o destino final do mundo físico e ainda outras reflexões de natureza filosófica ou metafísica. Marcante em pessoas com forte espiritualidade, é também a inteligência destacada dos filósofos, sacerdotes, xamãs, gurus, entre outros. 
 

Criança tem que brincar

Que tal seu filho(a) aprender a costurar nestas férias? Se for brincando, está valendo.

A temporada de “Férias Divertidas” proposta pelo Espaço de Aprendizagem Na Ponta do Lápis vai reunir as crianças para cultivar brincadeiras na sala, na cozinha, na horta e na máquina de costura, já que algumas crianças manifestaram interesse em aprender a “fazer roupinhas”.

A pedagoga Lúcia Helena Sgorla desenvolveu a proposta das “Férias Divertidas” no verão de 2015, em Caxias do Sul, e vai repetir a experiência neste verão num espaço bem maior e com  novas atividades. “A criança aprende pela experiência e a exploração de sua curiosidade. Enquanto brinca está se construindo. Se você apresenta a ela o mundo, ela vai se aproximar dos seus interesses específicos. A inteligência é desenvolvida por meio de estímulos positivos e na relação com o outro”, diz Lúcia Helena.

Ao longo do ano, a Na Ponta do Lápis oferece apoio pedagógico lúdico e interativo. “Só trabalho com estímulo. Não trabalho com conteúdo escolar. As escolas têm um ritmo padrão, que pode não servir para algumas crianças e elas acabam se perdendo no caminho. Se não compreender bem o processo da alfabetização ou da construção do número, a criança vai criar lacunas de aprendizagem e se sentir impotente com comprometimentos na escola e na vida pessoal. Isso pode ser evitado com o apoio pedagógico”, garante a profissional. 

Vera Mari Damian é jornalista

 

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