Saúde Integral

10/02/2016 08h08

Vale a pena consumir os sem lactose?

Produtos lac free, como leite, requeijão, sorvetes e iogurtes, invadiram as prateleiras dos supermercados nos últimos tempos. Será que o consumo desses produtos atendem nossas necessidades? Eles podem comprometer nossa saúde?

Por Maribel Melos

Arquivo Nosso Bem Estar
Sec fev dollarphotoclub 85171426

Será que o consumo desses produtos atendem nossas necessidades? Eles podem comprometer nossa saúde?

Existe diferença entre intolerância à lactose e alergia à proteína do leite. Enquanto a primeira tem relação com falta de uma enzima, a segunda pode ser ocasionada pelo sistema de defesa do nosso corpo contra o alimento.           

O leite é um alimento completo, pois seu objetivo é fornecer ao bebê, ou qualquer filhote, independente da espécie, nutrientes adequados para seu crescimento e desenvolvimento. Contém cerca de 86% de água e está constituído por uma mistura de várias substâncias como lactose, proteínas (caseína, lactoalbumina e lactoglobulina),  gorduras, vitaminas e minerais.

INTOLERÂNCIA X ALERGIA

A lactose é a parte doce do leite, representa 29% das calorias totais do leite. Essa substância para ser digerida pelo organismo necessita de uma enzima chamada LACTASE, que é produzida no intestino delgado. Quando a produção de lactase é deficiente ou inexistente, dizemos que a pessoa tem INTOLERANCIA à LACTOSE.  Sem a enzima, ocorre a fermentação da lactose, causando sintomas como formação de gases, cólicas, estufamento, dores intestinais, mau hálito e até diarreia, porém, não há intermediação do sistema imunológico. Portanto, não existe “alergia à lactose” e sim intolerância à lactose. Existem diferentes graus de intolerância à lactose, pois algumas pessoas produzem pouca enzima e, portanto, toleram alguns alimentos com lactose; já outras pessoas não têm a enzima e são completamente intolerantes à lactose. Nesse caso o uso da enzima LACTASE na forma de cápsulas facilita a vida de quem precisa ou deseja comer algum alimento preparado com leite. 

Mas, como já se viu anteriormente, o leite de vaca contém ainda proteínas, sendo estas responsáveis por sintomas relacionados à alergia alimentar.
 

ALERGIAS ALIMENTARES

Alergia alimentar é a denominação utilizada para as Reações Adversas aos Alimentos (RAA) não tóxicas, que envolvem mecanismos imunológicos, resultando em grande variabilidade de manifestações clínicas.

Os principais alimentos alergênicos são os que possuem proteínas de difícil digestão: leite de vaca, leite de cabra, soja, trigo (glúten), ovo, amendoim, oleaginosas, peixes e frutos do mar. Porém, considerando a individualidade bioquímica, as sensibilidades alimentares podem acontecer com qualquer alimento, dependendo das características únicas do indivíduo.

A parede intestinal é responsável por selecionar a entrada dos nutrientes no organismo para que sejam utilizados pelas células. Para isso, os alimentos precisam passar por todos os processos de digestão a fim de liberar esses nutrientes.  É por isso que temos um enorme tubo digestório (só o intestino delgado tem aproximadamente sete metros). Só depois de todo o processo digestivo ser completado, os nutrientes entram em contato com o sangue.

Caso o alimento seja mal digerido, pode atravessar a parede intestinal, acarretando uma resposta imunológica contra ele. Nosso sistema de defesa tolera que alguns alimentos ultrapassem essa parede, mas se a passagem de alimentos for excessiva, inicia-se um processo de reação denominada sensibilidade alimentar ou alergia.

Quando pensamos em alergia, lembramos das pessoas que passam mal quando comem camarão e ficam com manchas vermelhas ou até mesmo sentem falta de ar. Isso ocorre quando a alergia é do tipo imediata (mediada por IgE), que ocorre de segundos até duas horas após o contato com o alimento. Mas existem as sensibilidades mais brandas, chamadas de tardias (mediadas por IgG), que podem aparecer de duas a setenta e duas horas após o consumo do alimento. Estas podem causar diversos sintomas crônicos, como otite, amidalite, bronquite, rinite, sinusite, esofagite de refluxo, gastrite, colite, cistite, celulite, enxaqueca, olheiras, dores musculares e articulares, ansiedade, irritabilidade, alterações de humor, agitação, distúrbios de concentração, distúrbios de aprendizagem, depressão, compulsividade, resistência à insulina, entre outros. Para um alimento desencadear processos inflamatórios por intermediação de IgG, o mesmo deve ser consumido frequentemente.

OS PRODUTOS SEM LACTOSE

Há poucas décadas o consumo do leite fazia parte da alimentação das pessoas em pequena quantidade (aproximadamente um copo por dia). Não existia essa enormidade de produtos industrializados e a alimentação era mais natural e rica em nutrientes, havendo um equilíbrio orgânico muito maior, que possibilitava ao organismo se defender de substâncias estranhas a ele.

Então, se comemos várias vezes ao dia uma proteína que é mal digerida, podemos desencadear respostas alérgicas a ela.

As principais proteínas do leite são caseína, betalactoglobulina e betalactoalbumina, sendo estas as responsáveis por sintomas de alergia ou sensibilidade alimentar.

 
Os produtos sem lactose que a indústria está despejando nas lojas e mercados vêm atender ao público que tem intolerância à lactose, pois são feitos à base de leite em que a enzima lactase é adicionada. Como essa enzima tem baixa durabilidade, é necessário acrescentar estabilizantes que, em sua maioria, são à base de sódio. Por exemplo, há produtos no mercado como leite sem lactose com três estabilizantes à base de sódio – trifosfato de sódio, difosfato de sódio, citrato de sódio. O consumidor utiliza tal produto para manter o hábito alimentar arraigado e por acreditar que dessa forma o consumo de cálcio está garantido. Mas como o sódio e o cálcio competem pelo mesmo sítio no intestino, esses estabilizantes podem interferir na sua absorção. É sabido que o cálcio do leite não é a única, nem a melhor forma, de se absorver o nutriente. A couve tem o cálcio mais disponível para absorção, bem como outras fontes vegetais como gergelim, feijões, amêndoas, aveia, entre outros. 

Sendo assim, se você já percebeu que o consumo de produtos lácteos causa desconforto gástrico, rinite, conjuntivite ou enxaqueca, muito provavelmente usar produtos sem lactose não vai lhe trazer benefícios nutricionais. O mais adequado é ter uma dieta variada, com a substituição do leite de vaca por bebidas de origem vegetal como amêndoas, coco, castanhas, aveia, girassol, quinoa, arroz. Essas bebidas fornecem nutrientes diversos e contribuem para uma boa nutrição.               

Talvez a resposta para a longevidade com qualidade de vida esteja em hábitos alimentares com menos produtos industrializados e aditivos químicos e o retorno ao consumo de alimentos mais saudáveis, dados de presente pela “mãe” natureza. Inclusive o leite de vaca, porém em quantidades equilibradas, respeitando a nossa capacidade de defesa e uma individualidade bioquímica, que faz com que as pessoas lidem de maneira diferente com os mesmos alimentos.

Para adequação de cálcio, o importante é adotar um consumo regular de legumes, verduras, frutas, leguminosas, gergelim (que precisa ser triturado), sementes trituradas (de melão, abóbora, girassol, melancia), quinoa, com a vantagem de esses alimentos serem ricos em todos os minerais, vitaminas e fitoquímicos necessários à boa absorção e utilização dos mesmos pelo organismo.

Maribel Melos é nutricionista funcional

 

X