Família

08/02/2016 17h57

Plano de parto

Tudo o que você precisa saber.

Por Kalu Brum

Nascer Melhor
Plano de parto

O plano de parto é um documento em que a mulher expressa seus desejos de como quer que aconteça seu parto.

Pouca gente sabe, mas o plano de parto é um documento em que a mulher expressa seus desejos de como quer que aconteça seu parto. Trata-se de uma prática pouco difundida pelos médicos, apesar de ser incentivada pela Organização Mundial de Saúde.

O plano de parto deve ser escrito pela mulher, discutido com seu médico e o pediatra que vai fazer o primeiro atendimento ao bebê. Os dois poderão dizer, a partir do que ela deseja, se dentro do hospital escolhido é possível ou não realizar os seus desejos.

O plano de parto pode ser também uma carta de alforria: ao registrar o que quer e não quer na hora de parir, a futura mãe deixa claro o que pensa sobre o assunto. Eu mesma, quando mostrei meu plano ao meu (ex)obstetra, ouvi dele: esse tipo de parto eu não faço.

Abaixo segue um exemplo de plano de parto que pode ser apresentado ao médico e também a uma instituição hospitalar. Lembre-se: esse é só um exemplo que pode ajudar a se pensar em como elaborar o próprio plano de parto.

Plano de parto

Eu, Fulana de Tal, ciente dos direitos do meu corpo e expressando meu desejo, declaro as práticas e condutas que espero dos profissionais durante meu trabalho de parto.

Eu quero:

– Ser chamada pelo meu nome;

– Que nos momentos das contrações prevaleça o silêncio;

– Ser avaliada e auscultada onde estiver (chuveiro, banheira, por exemplo);

– Usar minhas próprias roupas e meus acessórios (muitos hospitais obrigam a mulher a usar a roupa da instituição. Isso descaracteriza a pessoalidade de cada ser humano, tão fundamental na hora do parto);

– Fazer o mínimo possível de exames de toque. E sempre por um mesmo profissional. Desejo que meu acompanhante permaneça a meu lado durante o exame;

– Que peçam licença para examinar a dilatação e que isso seja feito apenas entre as contrações. Que se use gel lubrificante e que o colo do útero não seja forçado. Que eu seja informada sobre a dilatação;

– Comer e beber água (as evidências científicas apontam que a privação de alimentos e água é prejudicial para a mulher e, por isso mesmo, configura uma violência obstétrica);

– Que meus pelos não sejam raspados (embora não seja uma prática mais tão corriqueira, em muitas instituições ainda é comum. A raspagem faz com que a região fique exposta e mais sensível);

– Que não seja feita lavagem intestinal (prática ainda muito usada. Durante o trabalho de parto, as fezes da mulher ficam amolecidas e ela acaba defecando durante as contrações, o que é absolutamente normal. Usada sob pretexto de evitar a evacuação e contaminação do bebê, uma lavagem intestinal não impede a eliminação de fezes no período expulsivo do parto. E a contaminação do bebê pode ser evitada de outras formas, como uma simples limpeza);

– Ter liberdade para caminhar (em muitos lugares a mulher não pode sair da maca);

– Que a doula e meu marido estejam presentes;

– Ausculta intermitente e não contínua (o uso do cardiotocógrafo, um aparelho que mede os batimentos cardíacos do bebê, impede a movimentação da mãe. Só deve ser usado quando se faz necessário acompanhar de forma mais prolongada o comportamento cardíaco do bebê) ;

– Ouvir minhas músicas, acender meus incensos e velas;

– Não fazer uso de ocitocina (usada na maioria dos partos normais do Brasil, acelera o parto, tornando as contrações mais intensas e a dor insuportável. Seu uso deve ser feito apenas em circunstâncias muito específicas e nunca de maneira generalizada);

– Que não me ofereçam anestésicos (o uso da anestesia pode interferir no parto, sendo necessário o uso da ocitocina);

– Que a bolsa não seja rompida artificialmente (o rompimento da bolsa não é recomendado, a não ser em caso de distocias, dificuldades durante o trabalho de parto que colocam em risco mãe e filho, de progressão ou de sofrimento fetal – para verificação de mecônio, primeiras fezes do recém-nascido. Se nada for feito, a bolsa se romperá naturalmente entre 7 e 10 cm de dilatação, ou durante o período expulsivo. Ruptura artificial da bolsa de água é o maior fator de risco para prolapso de cordão umbilical, que é a deslocação deste para o canal de nascimento. Isso deixa o cordão espremido e diminui o fornecimento de sangue e oxigênio para o bebê).

No momento do parto

Eu quero:

– Ficar na posição que desejar. Chuveiro, de cócoras, apoiada atrás pelo marido, apoiada de cócoras na cama. Caso a posição não esteja ajudando, que me sejam sugeridas posições no intervalo das contrações;

– Fazer força só durante as contrações, quando eu sentir vontade, em vez de ser guiada;

– Aguardar a evolução natural do parto;

– Que não seja realizada antissepsia (limpeza) dos genitais, uma vez que a passagem do bebê pelo canal vaginal tem como uma das funções biológicas colonizar por bactérias a criança e assim protegê-la de doenças;

– Um ambiente especialmente calmo nessa hora;

– Ter liberdade de gritar se sentir vontade;

– Que minha barriga não seja empurrada para baixo. Não vou tolerar isso (considerada uma violência obstétrica, a Manobra de Kristeler pode provocar lesão de fígado, de baço, ruptura uterina, descolamento de placenta, fratura de costela e hematomas, entre outros problemas);

– Que não seja feita episiotomia (corte efetuado na região do períneo – área entre vagina e ânus – para aumentar o canal do parto);

– Que não me apressem;

– Que quando o bebê estiver coroando, eu seja lembrada de sentir sua cabeça com a mão e possa, assim, controlar a força e a expulsão;

– Proteger meu períneo com uma compressa (o maior risco de laceração de quarto grau ocorre quando se abre uma episiotomia. Lacerações em geral são pequenas, a maioria nem exige sutura. Cerca de 70% das mulheres saem com o períneo intacto);

– Que as luzes sejam apagadas (penumbra) e o ar-condicionado, desligado;

– Que meu bebê nasça em ambiente calmo e silencioso;

– Que não puxem o bebê;

– Que o bebê seja recebido com delicadeza;

– Que enxuguem o bebê delicadamente, sem esfregar;

– Que meu bebê fique em contato de pele comigo quando ainda estiver ligado ao cordão;

– Que caso haja a necessidade de se fazer algum procedimento, ele seja feito em meu colo ou sob supervisão do pai;

– Esperar o cordão parar de pulsar. Cerca de 1/3 do volume de sangue do bebê está no cordão e na placenta. Quero que deixem que esse sangue vá para o bebê;

– Que o pai ou eu cortemos o cordão depois que ele tiver parado de pulsar;

– Que a placenta não seja tracionada e que se espere sua saída espontânea;

– Que a sutura, em caso de necessidade, seja feita com anestesia.

Pós-parto

Eu quero:

– Que o bebê não seja aspirado;

– Que não lhe deem banho;

– Que se pingue o colírio de minha escolha (de preferência abandone o nitrato de prata, que é cáustico e doloroso e ainda por cima menos efetivo. Substitua-o por antibiótico ocular);

– Que vacinas e vitamina K sejam dadas mais tarde;

– Que eu mesma ou o pai possamos vestir o bebê;

– Ser informada de todo e qualquer procedimento e ter tempo para pensar, sem a presença do profissional de saúde, para que possa fazê-lo em privacidade, com meus acompanhantes.

Importante: um plano de parto como este segue todas as recomendações da Organização Mundial de Saúde e é embasado por evidências científicas. Informe-se sobre cada item proposto aqui. Garanta que todas as etapas sejam cumpridas. Discuta-as com os membros da equipe que prestará assistência.

Por fim, não se esqueça: só se pode nascer uma vez.

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