Bem-estar

09/11/2015 10h22

Acumulação Compulsiva

Juntar objetos sem utilidade pode ser sinal desse transtorno.

Por Elisa Dorigon

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Juntar objetos sem utilidade pode ser sinal desse transtorno.

O que diferencia um colecionador de um acumulador? Qual a diferença entre ser bagunceiro e guardar objetos desordenadamente? Quando e como as pessoas perdem o controle e passam a ser consideradas acumuladoras?

Embora pouco divulgado, o tema da acumulação compulsiva intriga todos que já ouviram histórias – muitas vezes inacreditáveis – de pessoas que vão acumulando objetos, animais e até lixo dentro de casa.

Recentemente, programas de televisão passaram a abordar a questão em reality shows e tornaram o assunto mais conhecido, mas essa ainda parece uma realidade distante da maioria das pessoas. Você sabe identificar, entre seus amigos e parentes, alguém que tenha manifestado esse transtorno? Difícil, pois a tendência dos acumuladores é o isolamento. Apesar de ser um tema que serve de entretenimento, o comportamento de acumulação compulsiva geralmente causa, para quem sofre da doença e para membros da família, prejuízo emocional, social, financeiro, físico e até mesmo legal.

A incapacidade de descartar as coisas já foi classificada como um Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e hoje é tratada como um distúrbio distinto.

Segundo a psicóloga Larissa Pereira, o termo acumulação pode estar associado a desorganização de objetos em um determinado espaço e uma dificuldade de algumas pessoas se desfazerem ou desapegarem de algo. “É comum, em fases distintas da vida, darmos significados diferentes aos objetos, mas quando descartamos ou doamos é porque o sentido muda, assim como nós mudamos também. Por exemplo, na fase infantil ganhamos brinquedos, mas na medida em que vamos crescendo, não damos o mesmo significado para aqueles objetos como antes. Torna-se relevante distinguir o fato de colecionar e de acumular, pois os colecionadores adquirem objetos com uma noção de organização. No caso dos acumuladores, eles não estão cientes de como esse hábito pode acarretar prejuízos cognitivos e sociais”, revela Larissa.

A diferença entre colecionar e acumular, é clara. Mesmo que o colecionador apresente uma compulsividade ao adquirir os objetos que coleciona, sejam selos, bonecas, adornos, borboletas, relógios ou até mesmo carros, ele tende a organizar os objetos racionalmente, respeitando de forma sensata o espaço, os valores e as possibilidades práticas de aquisição. Os acumuladores compulsivos, por sua vez, são incapazes de organizar o seu espaço de convivência, perdem o autocontrole para adquirir ou de se desfazer das coisas.

O psicólogo Francisco Trindade explica que, em termos gerais, o acúmulo compulsivo ou disposofobia (medo de dispor ou desfazer-se das coisas) está associado a um estado crônico de ansiedade, que gera uma condição persistente de angústia e medo do futuro, do qual o indivíduo tenta se proteger com o apego aos objetos externos, pois não confia que possa suportar ou lidar com o mundo a partir de seus próprios recursos internos.

“Em uma sociedade pautada pelo consumo e a propriedade, é comum termos muito mais do que necessitamos. A diferença entre o acúmulo de bens materiais "normal" do "patológico" está na relação afetiva entre o indivíduo e os objetos que acumula. Uma pessoa previdente manterá consigo objetos que lhe sirvam como um recurso em um momento posterior, ou seja, que sejam úteis mesmo que eventualmente. Uma pessoa desleixada pode vir a não realizar a higiene periódica esperada em sua moradia ou local de trabalho como outras pessoas mais asseadas fariam. Já o acumulador é alguém tão autoexigente que tem grandes dificuldades em abrir mão do que quer que seja, mesmo algo virtualmente inútil, irreparável ou sem valor afetivo claro. É normal guardar fotos de família ou alguns recortes de jornal em uma caixa de sapato, mas não pôr pra fora um saco de lixo reciclável porque pode haver algo de útil ali para alguma eventual emergência já é um sinal”, alerta Trindade.

COMO TRATAR

O psicólogo Francisco Trindade diz que, dependendo do prejuízo causado pelo quadro e outras patologias associadas, deve-se abordar o caso com diferentes recursos, mas sempre é interessante que o indivíduo seja atendido por equipe multidisciplinar, com vistas a abordar diferentes aspectos da sua vida. “Em qualquer dos casos, a psicoterapia é de grande ajuda. Certas vertentes focarão no comportamento (o que pode ser útil em curto prazo), enquanto a psiquiatria em geral aborda os sintomas de ansiedade e compulsão por meio de tratamento medicamentoso. Acredito que o que venha a dar conta seja um tratamento psicológico mais profundo e duradouro, que permita ao indivíduo tomar consciência e lidar de forma gradual com seus conflitos internos e sua história emocional”, indica.

A eficácia depende da aderência do indivíduo e da família ao processo. O comportamento é apenas um reflexo de uma condição interna ou relacional. “Tratamentos medicamentosos voltados aos sintomas perceptíveis podem aparentemente ter mais eficácia em curto prazo. Já tratamentos voltados ao comportamento compulsivo podem vir a contribuir em médio prazo. Já a atenção integral e aprofundada tende a ter melhor efetividade, mas demanda tempo, participação de diferentes profissionais e, obviamente, o desejo do indivíduo de transformar-se em alguma medida por seu próprio esforço”, conclui Trindade.

Mas é bom lembrar que cada caso é um caso e, na hora de diagnosticar, o importante é procurar a ajuda de um profissional credenciado para a realização de uma análise criteriosa do paciente. Respeitar os limites e o ritmo de cada pessoa é fundamental para o sucesso do tratamento.  

Acumulação e Consumismo – uma relação inegável

A indução ao consumismo desenfreado também pode ser considerado desencadeador desse processo de adoecimento da sociedade, cada vez mais acumuladora. A quantidade de produtos e serviços que nos são oferecidos, diariamente, estimulam o consumo desregrado. Tudo parece muito necessário. E será?

O psicólogo Carlos Alberto Soares lembra que as mulheres são famosas por adquirirem muito mais sapatos do que podem usar. “Precisariam ser centopeias para que 90% dos sapatos que possuem não caíssem na categoria de desperdício. Mas, será que é preciso desenhar para mostrar que existe um significado simbólico em acumularem sapatos e não chapéus ou cintas? Então, já vemos que a dita acumulação não se resume apenas a juntar objetos. Responde a uma motivação inconsciente que vai além de juntar coisas.”

O fato é que cultivar um olhar consciente enquanto consumidores pode, sim, ser uma das formas de prevenção ao acúmulo compulsivo. Ter o hábito de doar coisas que não precisamos mais e podem ser úteis a outras pessoas também pode ser um antídoto contra a manifestação do transtorno. 

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