Crescimento pessoal

05/11/2015 09h44

Sejamos mais humanos!

A crise socioeconômica e ambiental faz com que nos deparemos todos os dias com a decadência do projeto humano. O que choca não é tanto a truculência das diversas formas de segregação e violência cotidianas, mas a debilidade com que nos acostumamos a reagir a isso. Não há como escapar: enquanto a campainha soa estridente, a luz de emergência pisca sem parar. É hora de descruzar os braços e assumir responsabilidades.

Por Nanda Barreto

Arquivo Nosso Bem Estar
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Todos podemos fazer algo para melhorar o planeta, basta cuidar de tudo que estiver ao nosso alcance

A foto do menino sírio de apenas três anos morto afogado em uma praia turca estarreceu o mundo no início de setembro. A imagem de Aylan Kurdi foi amplamente difundida pelos meios de comunicação, tornando-se o símbolo de uma crise migratória que já matou milhares de pessoas do Oriente Médio e da África que tentam chegar à Europa para escapar de guerras, perseguições e pobreza.

Mas é muito mais do que isso: o registro dessa vida interrompida precocemente nos comoveu justamente porque desconhece limites geopolíticos. Não se trata de um assunto para ser resolvido pela ONU. A morte do pequeno Aylan coloca cada um de nós cara a cara consigo mesmo. A consternação é por ele, mas também pelo que somos, pois sua morte expõe a nossa própria miséria. Afinal, quais são os limites da humanidade?  

Essa é uma pergunta para a qual não há uma resposta exata. No entanto, superar a fantasia do individualismo talvez nos indique um caminho. Ninguém é uma ilha, ninguém é completo em si mesmo. Cada ser humano é um pedaço do continente, afirma o sábio poema de John Donne. Se por um lado parecemos num beco sem saída, por outro sempre é possível redesenhar fronteiras e criar novos horizontes.

Normose: uma epidemia global

Na avaliação do antropólogo e psicólogo Roberto Crema, os diversos tipos de violência podem ser compreendidos como sintoma de uma epidemia global denominada “normose”, a patologia da normalidade. O termo, cunhado por Crema e pelos psicólogos franceses Jean-Ives Leloup e Pierre Weil, na década de 1980, caracteriza-se pela adaptação a um sistema dominantemente desequilibrado, mórbido e pela estagnação evolutiva.

Crema explica melhor: “Normose é cruzar os braços, indolentemente, diante de escândalos absurdos como o da exclusão, injustiça, corrupção e destruição dos ecossistemas planetários”. Na avaliação dele, um aspecto terrível da normose se traduz pela violência passiva: ou seja, o sentimento de que não há nada a fazer diante dos descaminhos da humanidade. “O normótico é alguém que adapta-se a um contexto doente e não cultiva seu potencial evolutivo, é aquele que enterra os talentos recebidos, com medo do seu próprio florescimento, de sua capacidade de realização, de amar e de servir”, sintetiza.

A ética do cuidado
Nenhuma sociedade vive sem uma ética. Como seres sociais, precisamos elaborar certas regras de convivência, consensos, limitar determinadas ações e criar projetos coletivos que dão sentido e rumo à história.  Diante da bancarrota que estamos enfrentando, a ética do cuidado surge como uma via para superar diferenças e viabilizar a convivência dos povos.

O cuidado é mais comumente compreendido como a atitude de assumir responsabilidade sobre o bem estar de outro. O ser humano sempre foi fisicamente frágil em relação a outros animais e é por meio dessa prática que conseguimos preservar a espécie, prevenir e tratar problemas. Ou seja: se chegamos até esta linha do texto, é porque alguém (ou mais provavelmente muitos alguéns) cuidaram de mim e de você ao longo da vida!

Claro, a ética do cuidado precisa ser levada a cabo também na nossa relação com o ambiente. Na avaliação do teólogo Leonardo Boff essa é uma condição indispensável para evitar que o ser humano tenha o destino dos dinossauros: a extinção. “Se não cuidarmos do planeta Terra, ele poderá sofrer um colapso e destruir as condições que permitem o projeto planetário humano. A própria política é o cuidado para com o bem do povo. Cuidado e responsabilidade andam sempre juntos”.

Apontada desde os gregos, mas desvalorizada ao longo da nossa história, a prática do autocuidado é também um passo fundamental para a condição humana. Recuperada no início dos anos 80, pelo filósofo francês Michel Foucault, a qualidade ampla e positiva de “ocupar-se consigo mesmo” aponta para a necessidade de fazermos o dever de casa por meio do cuidado com a saúde física, mental, emocional e espiritual. Cuidar de si é o primeiro passo para melhorar o mundo.

Quando dá orgulho de ser humano

É verdade que quando nos deparamos com situações-limite como o afogamento do menino sírio realmente dá aquela vontade de jogar a toalha e antecipar o “game over” da humanidade. Por outro lado, é preciso reconhecer que o ser humano também pode ser divino e maravilhoso. E nem é preciso ir longe: basta olhar a nossa volta. As pessoas com as quais convivemos, nossos amigos, familiares.  Realmente o mundo também está lotado de gente boa!

No entanto, algumas pessoas se superam.  É o caso da administradora de empresas Danielle Figueredo, 31, que acaba de passar por uma experiência de gestação solidária. Conheça essa história, pelas próprias palavras dela:

“Eu e Gabriela somos de Recife/PE. Já nos conhecíamos há alguns anos mais não éramos amigas, tínhamos amigos em comum, e sempre nos encontrávamos em jantares na casa desses amigos. Eu sabia da história dela e sua luta para conseguir ser mãe e suas tentativas sem sucesso (que ela mesma conta em seu blog Sobre Elefantes ─ https://sobreelefantes.wordpress.com/). Gabi tem uma doença autoimune chamada SAAF, uma síndrome que interfere na coagulação sanguínea, favorecendo o risco de tromboses, principalmente durante a gravidez”.

Solidarizada com essa história, Danielle decidiu oferecer sua barriga para gestar o grande sonho da vida de outra pessoa. “No dia 24 de dezembro de 2014 realizamos a fertilização dos embriões fecundados (óvulos e esperma de Gabi e seu esposo Breck) e, após um período, tivemos o resultado duplamente positivo: eu estava grávida de gêmeos!”, relembra, emocionada, Danielle, que é mãe de dois outros meninos e contou com amplo apoio do seu companheiro durante esse processo.

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O casal de gêmeos nasceu dia 15 agosto.  Martim e Pilar chegaram ao mundo sob o paradigma do amor que supera a normose e estão sendo muitíssimo bem cuidados. “Eu tiro meu leite com a desmamadeira e a Gabi dá a eles na mamadeira e também estimula o peito dela. Como são prematuros, eles ainda não têm tanta força para fazer a sucção mais ela tem algum leitinho”, conta a administradora de empresas.

Para Danielle, sentir que estava contribuindo para a felicidade de alguém foi a maior de todas as emoções. “Me doar a esse ponto me fez crescer como ser humano. E é essa minha busca constante. Hoje me sinto plena, realizada. Não me restam dúvidas ou arrependimentos. Não houve sofrimento, apenas motivos para comemorar”, garante.

Agir é o melhor caminho

A vida do ser humano tem sido um caminho de distrações. Ora buscamos poder, ora buscamos dinheiro e, nas horas vagas, nos dedicamos à satisfação dos nossos desejos e impulsos sexuais. Mas será que é só isso o que viemos fazer aqui na Terra? Nascer, crescer, procriar e morrer? É claro que não! Erramos muito ao longo do nosso processo civilizatório, é verdade. Mas sempre é tempo de nos transformar.  A sobreposição do “ter” ao “ser” imposta pela sociedade de consumo talvez seja o desvio que nos trouxe a essa rua sem saída. Mas podemos, sim, dar a meia-volta.

Como costuma dizer Roberto Crema, vivemos o momento crucial de sair dos trilhos e passar a criar as nossas próprias trilhas. Essa jornada é um convite para olhar para si mesmo, assumir responsabilidades com a sua existência e saber-se intrinsecamente ligado ao outro. De novo: ninguém é uma ilha! E cada um de nós tem um papel fundamental na construção dessa nova sociedade. Somos cocriadores do Universo. Nossa intervenção no mundo é o que nos faz. Cada um de nós pode ser um exemplo e um discípulo de si mesmo, com a coragem necessária para honrar seus talentos e vocações.

Não é necessário comprar mais nada, nem esperar mais tempo. A vida é um tabuleiro de agoras! É hora de oferecer o que cada um tem de melhor. As atrocidades continuarão a existir por muito tempo. No entanto, a impotência diante delas é uma das mais cruéis maneiras de conivência. Todos podemos fazer algo para melhorar o planeta, basta cuidar de tudo que estiver ao nosso alcance, colocando-nos a serviço do amor e da solidariedade. No final das contas, é disso que se trata: olhar para nosso entorno, perceber o que ele nos pede e partir para a ação!

 

DEPOIMENTOS

O que é ser mais humano?

 

“Ser mais humano é ter o olhar para o outro. Sentir compaixão, cuidado e amor ao próximo. Quando nos colocamos no lugar do outro em todas as circunstâncias, principalmente em momentos de ‘crises’. Quando saímos de nossa ‘zona de conforto’ em prol do próximo estamos honrando nossa condição de humanos”.

  Danielle Figueredo, administradora de empresas e barriga solidária.
  (Leia AQUI a entrevista completa sobre a experiência de Danielle)


 

“Olga Benário, militante comunista, tem uma definição que acho ótima. Dizia ela que devemos lutar pelo ‘belo, justo e pelo melhor do mundo’. Che Guevara, por sua vez, falava que ser revolucionário é ter a capacidade de se indignar contra qualquer injustiça cometida contra qualquer ser humano em qualquer parte do mundo. Acho que essas duas visões se complementam para a busca constante de nos tornarmos mais humanos.”

  Patrick Mariano, advogado, escritor e ativista dos Direitos Humanos.
 

“Entendo que ser mais humano consigo é transformar as emoções em sentimentos mais úteis às ações curativas ─ menos suscetíveis às reações de descarga. Do mesmo modo, tornar-se mais atento a si próprio, nesta transformação, nos torna mais humanos com os outros também. ‘Seja mais humano’ para mim soa como: seja mais consciente do que você pensa, sente, deseja e realiza. Pois, só assim, você terá chance de se posicionar melhor frente a sua vida e escolher ─ com atenção e responsabilidade por seu próprio cuidado ─ as ações que lhe parecem mais apropriadas para si e para os outros com os quais convive.”

  Christiane Ganzo, psicanalista, autora, juntamente com sua irmã Denise Aerts, dos livros A vida como ela é para cada um de nós: em busca do eu-caleidoscópio e Curação: a arte de bem cuidar-se.
 

“O desejo de expansão da mente é que nos diferencia dos animais, nós somos insaciáveis, sempre queremos expandir; esse é nosso Dharma, mas algumas pessoas buscam essa expansão através das coisas materiais que, no fim, não levam a expandir a mente. Pelo contrário. Então, se satisfazemos errado essa nossa natureza podemos nos afastar de nossa meta e nos comportarmos na verdade como se fôssemos animais, nos ocupando unicamente de comer, dormir, fazer sexo e nos defender, esquecendo da consciência suprema e de nosso objetivo como ser humano, nos unir a ela!”

  Parabhakti, instrutora de yoga e integrante do projeto musical Gandharvas.
 

“O que nos torna mais humanos é não sermos motivados por impulsos/instintos, muito menos usar isso como justificativa de qualquer ato. Acho que o medo nos afasta do enorme potencial que é o poder ser um humano. E o que nos une é o amor incondicional, a empatia, a noção de nos enxergar como eternos aprendizes diante dos diversos mestres que cruzam o nosso caminho diariamente.”

  Fernanda Sundari Leivas, professora de yoga.

 


 

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