Família

15/10/2015 13h37

Como você quer nascer?

Dois contos, duas maneiras diferentes de se chegar ao mundo. Leia, compare, sinta.

Por Kalu Brum

Arquivo Nosso Bem Estar
Nm out dollarphotoclub 74437470

Dois contos, duas maneiras diferentes de se chegar ao mundo. Leia, compare, sinta.

CONTO 1

Era um mundo silencioso. Já reconheço a voz doce da minha mãe, a grave voz do meu pai e algumas pessoas que sempre estão por perto. Aqui o mundo é constante. Não sinto frio, ou fome. Desconheço a sede, o ritmo, a gravidade.
Os ruídos são constantes: o pulsar das veias, as batidas do coração, o ruidoso estômago. Já sabem que posso detectar a luz ou a ausência total dela.

Sinto medo, tenho pesadelos, tenho soluço. Gosto de sentir minha mãe acariciar o ventre.

Aproximo-me da nona lua. Estou pronto para nascer. Não sei o que significa isso, mas minha natureza deu início ao trabalho de parto. Aqui estava ficando apertado.

Talvez o braço da minha mãe seja igualmente confortável. Recebo um abraço leve, outro um pouco mais apertado. Em meu corpo posso sentir os hormônios de êxtase.

Entro no ritmo da vida em uma dança minha e dela. É gostoso sentir essa massagem no meu corpo, esse braço que me aperta com força numa despedida me lançando ao mundo. Esse estreito lugar comprime meu peito, lança o líquido dos meus pulmões para fora.

Aqui fora tudo é estranho. Que frio! Mas esse corpo quente me aquece. Ouço sua voz. É ela. Nos conhecemos finalmente. Ainda somos um. Eu ligado a ela pelo cordão que me nutriu. O ritmo continua natural. O cordão pulsa e quando cessa me desligo sem desgrudar.

É estranho respirar, difícil. Cofff, atchim. O ar entra amigo. Estou seguro, estou sobre ela. Que cheiro bom ela tem. Ainda posso ouvir ao longe seu coração. Isso me dá paz.

Estou com fome. Que delícia este peito! Cheiro, lambo, mamo. Aqui fora é bom. Suave. Não sinto frio porque tenho seu corpo. Nem medo porque ouço sua voz.

Foi uma longa jornada e por fim estou no mundo, ainda absolutamente dependente.

Quero dormir porque confio no mundo externo e suave que você me proporcionou.

 

CONTO 2

 Era um mundo silencioso. Já reconheço a voz doce da minha mãe, a grave voz do meu pai e algumas pessoas que sempre estão por perto. Aqui o mundo é constante. Não sinto frio, ou fome. Desconheço a sede, o ritmo, a gravidade.

Os ruídos são constantes: o pulsar das veias, as batidas do coração, o ruidoso estômago. Já sabem que posso detectar a luz ou a ausência total dela.

Sinto medo, tenho pesadelos, tenho soluço.

Ouço barulhos estranhos. Ela está com medo. O que é isso que sinto? Estou ficando sonolento. Sinto uma queda. Estou do lado de fora. Como cheguei aqui? Vejo luzes que me cegam. Onde está o coração? O calor? Aqui dentro está frio, muito frio. Desliguem esse vento.

Estou me afogando. Meu Deus?! Choro com força. Me salvem! Mãe, cadê você? Não sei falar sua língua. Estou com medo! Pelo menos um ambiente quente. Mas é duro. Por que ferem minha pele esfregando este pano?

Sinto um cano violar minhas narinas. O que fiz para merecer tanta dor? Esse cano dentro de mim. Cadê minha mãe? Chego bem perto, mas me levam para longe. Quero minha mãe! Por favor!

E essa balança fria o que é? Por que estão me medindo? Eu só quero um colo e peito. Choro sem parar. Estou exausto. Sei que me olham através do vidro. Pai! Vó! Me tirem daqui! Por que ninguém me ouve?

O que vão pingar nos meus olhos? Nitrato de prata? Mas eu nasci por cima. Como posso ter uma cegueira causada por gonorreia? Ela não tem gonorreia! Isso arde, arde muito. Choro com vigor. Estou em pânico.

Pelo menos um carinho na minha perna. Por que aperta? Ai que dor! Uma agulhada! Mais choro. É a vitamina K, medicação usada para prevenir um distúrbio de coagulação. Não lhe disseram que tem a versão oral? Não falaram que é só não me banhar e deixar eu mamar? Eu não sei falar, mas sei de tudo. Tudo isso é dor. Será sempre assim?

Estou exausto. Vou dormir. Quem sabe acordo do pesadelo?

Espere, por que me acordam? Ah, não! Por que tiram minha roupa? Estou com frio. O que é esse líquido? E essa espuma? Eu preciso da proteção da minha pele que retiram. Quem faz tudo isso? Cadê minha mãe?

Estou pronto para conhecê-la. Quem é ela mesmo? A pediatra? A enfermeira? Ela também não me reconhece. Não me abraçou com as entranhas, nem ao menos me viu nascer através dos panos. Tenho cheiro de sabão e ela de medicamentos.

Estou sonolento, sofri demais, recebi anestesia através do sangue dela, colírio nos olhos, injeção na perna. Ela me mostra os seios. É difícil para mim, é difícil para ela que geme de dor também. Ela foi vítima como eu da ignorância do sistema. Mas através dos seus seios, ainda há esperança.

Não vou nascer novamente, vou curar minhas feridas no mundo. Mas se eu pudesse escolher optaria pela primeira parte deste conto. Se você acha que não é verdade tamanho sofrimento lembre-se que 40% das crianças da rede pública nascem assim como eu. Passam o que passei. E no particular, mais de 80%. Quero nascer diferente e só você que me gesta pode optar.

Não se deixe enganar. Não me deixe sofrer. Eu, que ainda estou em você, posso chegar com doçura e gentileza. Pense nisso. Mude o meu plano de parto enquanto pode. E saiba o que realmente acontece para escolher uma realidade gentil. Nascer pode não mais rimar com sofrer. Pode ser sinônimo de sorrir.

Fonte: Vila Mamífera. Kalu Brum é idealizadora do Vila Mamífera, doula e fotógrafa, jornalista de formação e poeta de coração. 

X