Família

09/10/2015 09h02

Gestando um mundo mais solidário

Oferecer seu corpo e sua alma para que outra mulher realize o sonho de ser mãe. Este enredo pode parecer uma linda história de amor. E é.

Por Nanda Barreto

Nanda Barreto
Imagem nbe

A solidariedade uniu para sempre as pernambucanas Danielle Figueredo, 31 anos, e Gabriela Souza, 37 anos. Mesmo sem se conhecerem muito bem, em 2014 elas embarcaram numa experiência que transformaria para sempre suas vidas.

A solidariedade uniu para sempre as pernambucanas Danielle Figueredo, 31 anos, e Gabriela Souza, 37 anos. Mesmo sem se conhecerem muito bem, em 2014 elas embarcaram numa experiência que transformaria para sempre suas vidas. Gabriela tem uma doença autoimune chamada de SAAF, uma síndrome que interfere na coagulação sanguínea, favorecendo o risco de tromboses, principalmente durante a gravidez. As duas têm amigos em comum e foi através de um sonho que Danielle escutou o chamado para oferecer sua barriga e sua alma com o intuito de realizar o grande sonho da vida de Gabriela: ser mãe.

Conheça esta história pelas palavras de Danielle!

Nosso Bem Estar - Bom, para começar, eu gostaria que você contasse um pouco sobre a origem desta tua experiência de barriga solidária. Como nasceu esta ideia em você?

Danielle Figueredo - Foi através de um sonho e uma mensagem na rede social que tudo começou. Eu e Gabriela somos de Recife/PE. Já nos conhecíamos há alguns anos mais não éramos amigas, tínhamos amigos em comum, e sempre nos encontrávamos em jantares na casa desses amigos ou em algum lugar em que a turma marcava, mas já sabia da história dela e sua luta para conseguir ser mãe e suas tentativas sem sucesso (onde ela mesma conta em seu blog Sobre Elefantes - https://sobreelefantes.wordpress.com/).

Gabi tem uma doença autoimune chamada de SAAF uma síndrome que interfere na coagulação sanguínea, favorecendo o risco de tromboses, principalmente durante a gravidez. Certo dia, sonhei com Gabi, e neste sonho uma pessoa dizia para falar a ela o que eu tinha ido fazer, mas eu não conseguia vê-la, sabia que era ela, ouvia sua voz só não a enxergava. Dias depois, tive o mesmo sonho e, dessa vez, eu a encontrei e falei para ela não se preocupar que eu iria dar a ela o que ela tanto queria. Acordei lembrando nitidamente de tudo.

NBE - E como este sonho ecoou no teu cotidiano?

Eu acredito fielmente que nada acontece por acaso e que tudo em nosso universo é formado por energia, seja nossa matéria física, nossos pensamentos, sentimentos, absolutamente tudo é energia, em diferentes estados vibracionais.

Fiquei pensando nisso sem parar. O que e por que eu havia sonhado com uma pessoa que não era próxima? O que eu iria “dar” a ela? E a resposta veio no mesmo dia, quando ela fez uma postagem na rede social sobre uma mãe que adotou uma criança e registrou tudo em fotografia. Lembro como se fosse hoje. Quando vi a postagem, eu comentei que já havia visto aquele ensaio e que era emocionante, logo após isso ela responde “Quero um desse, Dani!” naquele instante uma luz acendeu na minha cabeça, eu tinha uma missão, tinha que ajudar aquela pessoa, mas como era o que me intrigava. E num estalo, pensei: se eu quero ajudar, por que não eu mesmo fazer? Liguei para uma amiga advogada e perguntei se uma pessoa que não era parente poderia gestar o filho para a outra. Após algumas pesquisas, essa amiga descobriu que a legislação permite a gestação solidária entre não parentes, desde que comprovados infertilidade ou risco de vida da futura mãe biológica e que não envolva qualquer interesse financeiro. O pagamento por essa prática no Brasil é proibido e constitui crime. Foi a notícia que eu precisava e  comecei a pensar como isso iria refletir na vida de meus filhos de 03 e 05 anos, depois em meu marido, porque, afinal de contas, nada seria possível se ele não aceitasse. Por fim, pensei em mim mesmo, em como iria encarar isso dali pra frente, e só conseguia achar tudo muito simples e ajudar Gabi e sua família seria a melhor coisa do mundo. Meu coração estava a mil, uma sensação de preenchimento me tomava e decidi que iria oferecer essa ajuda, mas, para isso tinha um pequeno detalhe que era falar com meu marido, Josemar, uma cara super

NBE - Quais as emoções mais marcantes desta experiência e como você se sente agora?

De boa, só que isso não é algo muito tão fácil de entender e decidir por fazer demanda tempo, esforço, entre outros. Mas não vi empecilho algum, além de achar massa poder fazer isso por alguém. Esperei o momento certo e falei que tinha uma coisa pra conversar (isso era Agosto/2014). Vou detalhar a abordagem porque é uma das coisas que mais marcaram nesse processo:

Eu: Queria te falar uma coisa...

Josemar: Fale logo que já sei que quando você fica me cercando demais é por que quer alguma coisa.

Eu: O que tu acha da gente gestar o filho de Gabi e Breck?

Josemar: Como assim?

Eu: Gestar, meu filho, colocar o embrião deles na minha barriga, alimentar, cuidar, dar amor e depois devolver.

Josemar, olhou profundamente pra mim, respirou, encostou-se à parede e responde: Tu sabe que muitos amigos acham que a gente é doido né?! Que costumamos fazer coisa que muita gente não faz. Eu só conseguia responder que sim, e ele completa “Mas a gente é doido mesmo. Eu acho isso muito massa. Ligue pra ela e veja o que ela acha disso. Se ela aceitar, a gente mete bronca”. Pense numa mulher feliz. Por mim, por ter recebido essa missão de deus. Pelo marido arretado de bom. E por poder demonstrar tamanho amor ao próximo. Mandei uma mensagem para Gabi com os links contendo todas as perguntas e respostas sobre o assunto de Barriga Solidária e falei a ela que não sabia o motivo pelo qual estava me oferecendo para ajudar, mas sentia que deveria e poderia fazer. Caso ela quisesse, poderia me ligar pra gente trocar uma ideia e que, caso aceitasse, a gente estava disponível para seguir em frente. No mesmo dia Gabi me responde que estava se recuperando daquele e-mail, mas que iria me ligar. Depois de uma ou duas semanas ela me liga. Tivemos uma longa conversa e decidimos nos aceitar para iniciar o processo. Contratamos um advogado especialista na área que deu entrada em tudo. Recolhi todos os exames médicos e frequentamos uma psicóloga por quase dois meses a fim de obter o laudo atestando que estávamos aptos para seguir com o processo. Munidos de todos os documentos, demos entrada no Conselho Regional de Medicina de Pernambuco, que analisou nosso caso e autorizou o procedimento. No dia 24 de dezembro de 2014 viajamos para Recife para fazer a fertilização dos embriões fecundados (óvulos e esperma de Gabi e Breck) e após doze dias, tivemos o resultado positivo do Beta HCG.  

NBE - O que foi mais gratificante?

DF - Sentir que estava contribuindo para a felicidade de alguém, em especial meus amigos, foi a maior de todas as emoções. Me doar a esse ponto me fez crescer como ser humano. E é essa minha busca constante. Hoje me sinto plena, realizada. Não me restam dúvidas ou arrependimentos. Não houve sofrimento, apenas motivos para comemorar.

NBE -  O que significa ser mais humano, na sua opinião?

DF - Quando nos colocamos no lugar do outro em todas as circunstâncias, principalmente em momentos de “crises”. Quando saímos de nossa “zona de conforto” em prol do próximo. Meu desejo é que as pessoas saíssem também de suas zonas de conforto, queria levantar essa bandeira para que todos saibam que é possível quando o interesse é o amor, a felicidade mútua.

NBE - O que foi mais exigente, do ponto de vista emocional, na experiência de ser barriga solidária?

DF - Ter paciência e humildade para lidar com as opiniões das pessoas. Enquanto para mim a gestação solidária era algo simples e que não demandava nada além do que já sabia, como engravidar e passar pelos efeitos fisiológicos disso, como ganhar peso, sentir dores, enjoos, cirurgia entre outros- e isso nunca foi problema, muitas pessoas, inclusive amigos próximos, não concordaram, achavam que eu tinha enlouquecido, que estava me pondo em risco em vão. Alguns disseram até que eu estava sendo egoísta e que não estava pensando em meus filhos. E no final das contas, talvez tenha sido em meus filhos que eu estive pensando o tempo todo. Em como deixar para eles de herança esse exemplo de solidariedade e amor ao próximo. E acho que consegui, pois ao voltar do hospital, José, meu filho de 5 anos, me disse que outras mulheres deveriam ser corajosas como eu para ajudar mais pessoas.

NBE - O que foi mais surpreendente e emocionante nesta experiência?

DF - O que mais me surpreende é a corrente de amor que criamos com toda essa experiência e o que mais me emociona é poder ver meus filhos vivenciarem isso na pratica. Vê-los aprenderem que é bom fazer o bem para as pessoas, que quando nos propomos a fazer algo temos que ter foco e determinação. Ver a felicidade de uma turmona do outro lado que você conhecia e um tanto de muitas outras pessoas que você nem imaginava, e a felicidade dos nossos amigos em ter seus filhos tão esperado, poder divulgar essa experiência para mais pessoas e ajudar de alguma forma quem está passando por isso.  

Recebo diversas mensagens na pagina que criei para contar minha experiência, e ler todo aquele carinho por pessoas que nunca me viram não me conhece e nem imagina como sou e mesmo assim torceram e enviaram energias boas, é massa demais.

NBE - Você faria tudo de novo?

DF - Sim, faria sim! Hoje, existe a limitação do corpo (já tenho dois filhos) e com essa gestação no total são quatro, mas fora disto, não vejo um motivo de por que não fazer. Aprendi muito com tudo isso, criei novos laços, pude ajudar outras pessoas que desejam passar por essa experiência divulgando como foi o passo a passo... E o retorno que tive de tudo isso compensa demais. O amor é continuo, eu pude dar amor não só aos amigos que acolhi e a seus filhotinhos que ficaram na minha barriga recebendo muita energia boa, tanto minha, como dos meus filhos, meu marido, nossos amigos em comum, nossas família, mas veja, eles me acolheram também, e o resultado final é que a balança fica equilibrada sempre por que eu me doei mas recebi isso em proporções maiores. Fazer o bem é massa demais e estar aberto   para isso é melhor ainda.

 

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