Bem-estar

09/09/2015 15h45

A busca da saúde por meio da acupuntura

Uma técnica oriental que vai além do alívio da dor e promove o equilíbrio do ser humano como um todo

Por Elisa Dorigon

WAVEMADEMEDIAMICROPHOTO DOLLAR CLUB /NBE
Capa jul dollarphotoclub 23709716

Carro-chefe da Medicina Tradicional Chinesa, a acupuntura é uma prática milenar que vem se popularizando no Ocidente e ganhando, a cada dia, mais adeptos.

Carro-chefe da Medicina Tradicional Chinesa, a acupuntura é uma prática milenar que vem se popularizando no Ocidente e ganhando, a cada dia, mais adeptos. O fato de considerar o ser humano como um todo e procurar o equilíbrio energético do organismo com foco no seu restabelecimento integral e não apenas na manifestação da doença em si tem chamado a atenção das pessoas, principalmente pelos bons resultados que proporciona.

Segundo a visão oriental, um desequilíbrio energético pode se manifestar fisicamente na forma de uma patologia, ou seja, para os orientais, toda doença tem sua origem em um desequilíbrio energético.

Para a Medicina Tradicional Chinesa, a energia vital, chamada de Qi, flui pelos canais de energia que ligam os principais órgãos do corpo. Esses canais são os chamados meridianos, com os quais trabalha a acupuntura.

A estimulação de pontos existentes ao longo dos meridianos influencia e equilibra a energia vital. A doença surge quando o fluxo de Qi nos meridianos está desequilibrado ou bloqueado.

No caso da acupuntura, os estímulos são realizados com finas agulhas que, ao serem aplicadas em pontos específicos do paciente, restabelecem o bom fluxo energético do organismo e o reconduzem a um estado de equilíbrio. Além das agulhas, a técnica pode ser aplicada com os dedos (acupressão), com laser ou por impulsos elétricos.

O acupunturista e especialista em coluna Nelson dos Santos Lima trabalha com o método desde 1971 e conta que essa antiga arte de cura possui princípios que diferem dos padrões de pensamento ocidental, baseando-se na visão do universo como um todo, composto por partes interligadas, em constante movimento e mutação. “O homem, como parte integrante desses contextos, deve ser visto globalmente, considerando-se aspectos sociais, ambientais, fisiológicos, mentais e energéticos”, explica. Por isso, a prática da acupuntura trata não apenas o sintoma, mas também as deficiências energéticas que, ao serem negligenciadas, acabam por originar os quadros clínicos apresentados pelo paciente.  

Nelson conta que no começo encontrou resistência por ter escolhido estudar a Medicina Tradicional Chinesa. “Quando contei para minha mãe que estava fazendo um curso de acupuntura ela me perguntou: ─ Para que, meu filho? Queres ser preso? Anos depois, quando visitei a China e vi a grandiosidade daquele sistema, aqueles hospitais modernos, me senti recompensado pelos anos em que trabalhei praticamente ‘escondido’.” Hoje, proprietário do Espaço Corpo e Saúde, em Porto Alegre, e com sua agenda de consultas lotada na capital,  Serafina Correa e Encantado, ele tem certeza que valeu a insistência.  

O diagnóstico

Na Medicina Tradicional Chinesa, o corpo é visto como um equilíbrio entre duas forças opostas e inseparáveis: yin e yang. Este equilíbrio é a base do diagnóstico e do tratamento. O yin representa frio, lentidão ou aspectos passivos da pessoa; enquanto o yang representa quente, excitação ou aspectos ativos.

Uma pessoa muito yang, por exemplo, é mais agitada, enquanto que a pessoa yin é mais calma, muitas vezes até desanimada. Mas não é tão simples assim. O diagnóstico em acupuntura leva em consideração, também, cinco diferentes estados de energia, correspondentes a cinco elementos: madeira, terra, metal, água e fogo. Cada um desses elementos controla um órgão: os rins, o baço, o fígado, os pulmões e o coração.

A aplicação desses conhecimentos, segundo o professor e acupunturista Paulo Renato Lima, é fundamental. Para isso, são utilizadas três ferramentas de leitura do paciente: uma anamnese (entrevista detalhada), a análise do pulso e da língua.

“Podemos dizer que a leitura do pulso e da língua é como uma foto do paciente e corresponde ao exame de sangue. Na anamnese, exploramos as principais queixas da pessoa e pedimos que as descrevam, com foco nas sensações e não do diagnóstico. Seus hábitos e histórico de vida também são considerados”, explica Paulo Lima.

Carioca, morando em Porto Alegre há 11 anos, seu interesse pelo conhecimento do corpo por meio do toque começou aos 14 anos, quando viu na televisão uma entrevista sobre Do-In, com Juraci Cançado. Como sofria de sinusite e muita dor de cabeça, fez o curso de automassagem e o resultado foi tão bom que procurou conhecer também outras modalidades como o Shiatsu e, posteriormente, a acupuntura, culminando com a formação e o mestrado em Medicina Tradicional Chinesa, nos Estados Unidos. 

Os principais benefícios

A aplicação da técnica é bastante variada, mas vale lembrar que o foco da acupuntura não é o desaparecimento do sintoma ou o tratamento de dores atribuídas geralmente a alterações em um órgão particular, nem atacar diretamente a suposta causa que originou a patologia. A acupuntura trata o indivíduo e visa ao restabelecimento do equilíbrio energético.

  • Melhora a circulação sanguínea;
  • Fortalece o sistema imunológico;
  • Previne doenças;
  • Diminui problemas hormonais;
  • Diminui os distúrbios de sono;
  • Diminui os sintomas da depressão e ansiedade;
  • Aumenta a vitalidade e a energia;
  • Promove o relaxamento;
  • Diminui o o estresse;
  • Rejuvenesce a pele;
  • Auxilia no tratamento contra o fumo, o álcool e as drogas.

 

Acupuntura e fisioterapia – aliadas no combate à dor

Após formar-se em Fisioterapia, em 2004, Caroline Fonamel Ferreira e Silva passou a procurar outras modalidades terapêuticas que contemplassem a saúde do ser humano como um todo. “Queria trabalhar com uma ferramenta mais holística, que não considerasse o paciente em partes, como somos acostumados aqui no Ocidente. Foi então que encontrei a acupuntura e decidi começar uma especialização”, diz a fisioterapeuta, formada pelo Colégio Brasileiro de Acupuntura desde 2009.

“Inicialmente as pessoas me procuravam mais em função do alívio da dor, principalmente na coluna. Hoje em dia, a maioria dos meus pacientes permanece se consultando comigo para manter o equilíbrio energético e prevenir o aparecimento de patologias. A maioria das dores traz consigo um fundo emocional. Com a melhora do organismo como um todo, a pessoa se sente tão bem que decide manter a acupuntura como um hábito”, conta Caroline.

A consulta

Uma técnica oriental que vai além do alívio da dor e promove o equilíbrio do ser humano como um todoA primeira consulta com acupuntura costuma ser mais longa e aprofundada. Para um bom diagnóstico, é necessário fazer uma anamnese detalhada, explorando o histórico de vida do paciente. É considerada uma série de questões como o sono, a alimentação, a sede, o apetite, o estado emocional, entre outros. O pulso e a língua também trazem informações relevantes sobre o tipo de tratamento que a pessoa precisa. Cada caso é um caso. “O fato de duas pessoas apresentarem a mesma síndrome não significa que o tratamento seja o mesmo. Cada pessoa é um indivíduo único e o tratamento deve ser individualizado”, diz Nelson.

Feita a entrevista inicial, passa-se à aplicação das agulhas. O tempo de tratamento também varia de pessoa para pessoa, portanto é difícil prever e definir um tempo único.

Teoria dos Cinco Elementos Wu Xing

A Teoria dos Cinco Elementos é a base da teoria da Medicina Tradicional Chinesa e guia no diagnóstico e no tratamento das patologias. Ela se baseia nas propriedades dos cinco elementos – madeira, fogo, terra, metal, água –,e suas características específicas se relacionam com a fisiologia dos Órgãos e Vísceras e dos tecidos do corpo.

Sendo assim, órgãos e tecidos são classificados em cinco categorias, de acordo com os Cinco Elementos, que funcionam conforme ciclos de Geração e de Dominância ou Controle. O ciclo de Geração forma uma sequência em que cada elemento dá origem ou gera o seguinte, assim como é gerado da mesma forma. Desse modo teremos: madeira gera fogo, fogo gera terra, terra gera metal, metal gera água e água gera madeira.

No ciclo de Dominância cada elemento controla o outro, ao passo que é controlado também, formando uma relação de controle: madeira controla terra, terra controla água, água controla fogo, fogo controla metal e metal controla madeira.

As relações de geração e dominância trazem o equilíbrio entre os elementos e a normalidade de seus processos, no caso do corpo humano, de um funcionamento fisiológico saudável. Como a lei que os Cinco Elementos seguem demonstra interdependência entre eles, o desequilíbrio em uma das fases ou na relação entre alguma delas vai repercutir no sistema inteiro.

Acupuntura para o tratamento da pele

A acupuntura tem se mostrado bastante eficaz para o tratamento de problemas na pele. Marcas de expressão, flacidez, estrias e manchas podem ter uma melhora significativa com a utilização dessa técnica. É o que contam os acupunturistas Lucas Marmitt e Denise Maia, que trabalham a estética com a acupuntura e têm obtido excelentes resultados.

“Na visão oriental, nada está isolado, o foco é sempre no todo. Embora as pessoas nos procurem para trabalhar a pele, e seja possível fazer um procedimento específico para isso, sempre buscamos a organização geral. Equilibramos o indivíduo integralmente para que o trabalho local apareça melhor”, explica Denise.

Casos de melasmas (manchas na pele), que a medicina tradicional atribui a questões hormonais, envelhecimento da pele, excesso de sol e uso de anticoncepcionais, são enxergados de outra forma pela medicina oriental.

Segundo Lucas, acontece uma desobstrução dos canais energéticos que fluem pela área, proporcionando uma limpeza. “Cada vez que a pele recebe este estímulo pela acupuntura, o organismo produz uma camada de colágeno. Ele interpreta como um ferimento e busca a reparação. Com a aplicação sucessiva, acontece uma sobreposição de camadas de colágeno e as linhas de expressão vão ficando mais tênues, o rosto vai ganhando mais firmeza e contorno.”

No consultório, Denise, que também é fonoaudióloga, trabalha mais a parte muscular, aplicando exercícios para reorganizar a musculatura facial e usando a acupuntura como complemento.

“Embora o Lucas trabalhe mais com a pele diretamente, ela também se beneficia dentro do meu trabalho, porque reorganizo funções como mastigar, respirar, deglutir, exercitando os músculos para tonificar ou relaxar. Como a pele do rosto está sentada diretamente em cima do músculo, conforme a musculatura se movimenta, ocorre uma vascularização, melhorando seu metabolismo e, por consequência, acontece a melhora, ela fica mais clara e brilhosa. A chamada é pela estética, mas o tratamento é sempre terapêutico”, esclarece a fonoaudióloga.

A face é como um índice de um livro, a história está contada ao longo do corpo, junto com as emoções. Por isso, ao manipular a face, em associação com a respiração, ocorrem desbloqueios que podem trazer lembranças, insights. São bloqueios emocionais que ficam encapsulados.

“Ao trabalhar na face, seja pela reorganização muscular, ou pela acupuntura, estamos trabalhando o indivíduo como um todo”, explica Lucas.

Segundo Denise, também é um trabalho de conscientização, em que é preciso que o paciente observe as mudanças que estão ocorrendo com ele. “É preciso termos consciência que a natureza é perfeita e fazemos parte dela. É olharmos para nós mesmos e percebermos que temos todas as condições de nos reorganizarmos. É preciso dar atenção a essa natureza perfeita, conversar consigo mesmo, olhar para dentro. Tudo está perfeito, a gente é que dá uma bagunçada”, finaliza.

 

 

X