Saúde Integral

09/06/2015 00h27

Oi? Pode falar mais alto?

Mais comum do que se pensa, perda auditiva atinge cerca de 9,7 milhões de brasileiros

Por Nanda Barreto/Nosso Bem Estar

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Perda auditiva: prevenir é o melhor remédio

Não há como escapar: todos nós vamos experimentar algum grau de perda auditiva ao longo da vida. O processo é individual, com causas e efeitos distintos em cada um. A fonoaudióloga Ângela Bigolin Tussi, 29, explica que a perda auditiva pode ter causas associadas. “As causas mais comuns são exposição prolongada a ruídos, predisposições genéticas, medicamentos ototóxicos (que, embora usados em outros tratamentos, têm como efeito colateral a perda auditiva), inflamações repetitivas (otites), presbiacusia (envelhecimento natural da audição), otosclerose (patologia relacionada à articulação ossicular dos ouvidos, entre outras”, detalha.

O grau e o tipo de perda auditiva são avaliados por meio de audiometria − exame que avalia a capacidade do paciente para ouvir sons. De acordo com a fonoaudióloga Beatriz Lisboa Ribeiro, 37, um dos principais alertas da perda auditiva é a queixa “ouço, mas não entendo”. “Essa é a reclamação mais comum em idosos. Televisão com volume muito alto, dificuldade de entender ao telefone, dificuldade de conversar em ambientes ruidosos como restaurantes, pedir para repetir muito as palavras são alguns dos sinais”, pontua.

Mais barulho, menos audição
Com o vigilante José Carlos Bitencourt, 53, aconteceu assim: um dia ele estava numa roda de conversa e percebeu que não conseguia entender o que seus amigos diziam. Outro dia, em casa, todos reclamaram que ele estava com o volume da televisão muito alto. Além disso, passou a ser comum as pessoas pedirem para ele diminuir o tom de voz. “Essas situações foram se repetindo e eu comecei a desconfiar que algo estava errado”, conta. José Carlos acredita que a sua perda auditiva é consequência de uma intensa exposição a ruídos no local de trabalho. “Eu trabalhei anos em um posto de gasolina. Havia muito barulho.”

Após um período de negação da perda auditiva, José Carlos resolveu procurar ajuda. “No início foi difícil. Por eu não entender o que as pessoas diziam comecei a me afastar delas. Eu não conseguia acompanhar as conversas e por isso me isolei. A gente tem que ficar pedindo para a pessoa repetir o que disse e nem todo mundo tem paciência. Comecei a ficar mais quieto e com a mente mais agitada”, recorda.

No caso de José Carlos, a audiometria apontou a necessidade de utilizar aparelho. “Sem aparelho não há como eu manter um bom relacionamento com as pessoas. Eu acordo de manhã, faço a higiene do ouvido e já coloco o aparelho. Só tiro para dormir. O apoio da minha família foi muito importante nesse processo. A minha esposa me deu muita força. A maior parte das pessoas fica impaciente com quem não escuta direito”, destaca José Carlos.

Prevenir é o melhor remédio
Dependendo do tipo de perda auditiva, é possível fazer tratamentos. “Existem perdas auditivas que são temporárias, como as causadas por inflamação, que pode ser tratada com antibióticos. A perda auditiva causada pela morte das células auditivas no interior da cóclea não pode ser recuperada. Para esses casos existe o aparelho auditivo”, salienta Ângela.

A melhor maneira de prevenir as perdas auditivas causadas pela exposição prolongada a ruídos é usando protetores auriculares. “Também é importante evitar volumes muito altos em fones de ouvido, por exemplo”, observa Beatriz. De acordo com a fonoaudióloga, quando perceber dor, coceira ou qualquer outro sintoma, a dica é procurar sempre um especialista para identificar uma possível infecção e tratar logo no início.

Aprendendo a conviver
O analista de sistemas baiano Carlos Machado convive com a perda auditiva desde a primeira infância. “Com cerca de dois anos, logo depois que enfiei um palito no ouvido direito fui levado pro hospital para acompanhamento. Mas não cheguei a precisar frequentar turmas nem escolas de surdos. Na infância, como ainda não havia uma perda muito grande, não interagi tanto com a cultura surda”, lembra.

A perda de Carlos foi se agravando com os anos. “Só a partir da adolescência comecei a perceber que ignorava o que as pessoas falavam comigo ou, em diálogos, passou a ser muito frequente eu pedir que o interlocutor repetisse o que tinha dito e, pior, passei a entender uma mensagem diferente da real. Entre os 20 e os 30 anos, diagnosticou-se uma pequena perda também no lado esquerdo. Não muito significativa isoladamente, mas que ajuda a piorar um pouco o quadro geral”, conta.

Nem sempre é possível evitar mal-entendidos. “Muitas vezes não me dou conta de que tem alguém falando comigo”, relata o baiano. Já o gaúcho José Carlos gosta de brincar com o que ele considera um grande benefício trazido pela perda da audição: “Depois que passei a escutar mal, fazer fofoca comigo não dá mais certo. Esta parte é muito boa! Ninguém vem me falar mal da vida de ninguém!”, diverte-se.

Dados oficiais
De acordo com o Censo do IBGE de 2010, cerca de 9,7 % milhões de brasileiros declararam ter alguma deficiência auditiva, o que equivale a 5,1% da população brasileira. Desse total, cerca de 2 milhões possuem deficiência auditiva severa. No que se refere a idade, cerca de 1 milhão de deficientes auditivos são crianças e jovens até 19 anos. O censo também revelou que o maior número de deficientes auditivos (cerca de 6,7 milhões) está concentrado nas áreas urbanas.

 

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