Crescimento pessoal

07/03/2015 20h08

"​Aprendemos a ser mulher entre outras mulheres, com a experiência de cada uma"

Confira a entrevista com a terapeuta Lúcia D. Torres, mentora do Movimento Tendas e Clãs do Sul

Por Nanda Barreto/Nosso Bem Estar

Divulgação
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Mulheres de mãos dadas pela sacralidade feminina

Mentora dos círculos femininos Tendas e Clãs do Sul e facilitadora dos círculos Tenda da Lua, a terapeuta Lúcia D. Torres é uma mulher que acredita em si e nos seu sonhos. Mestra em Literatura Brasileira (UFRGS), terapeuta floral (Florais da Deusa) e consteladora familiar (Instituto Bert Hellinger/ Alemanha), astróloga, professora e pesquisadora ​em astrologia da saúde há mais de 30 anos, a porto-alegrense de 53 anos também é diretora da Unipaz-Sul. "Os povos tradicionais dizem que cada criança que nasce é um sonho que veio caminhar na Terra. Eu busco, apenas, cada vez mais, me tornar plenamente o sonho que sou, o sonho que encarnei", destaca.

A caminhada de Lúcia nos círculos de mulheres iniciou 1993, quando ela participou de um workshop de final de semana sob a condução de May East: "Rumo ao resgate da identidade feminina​". "Este encontro e esta jornada me modificaram profundamente, me levaram a partes de mim completamente desconhecidas. Ouvi no meu coração e no meu útero o chamado do tambor, de Gaia, da Mãe Terra, da Deusa. Desde então, ​reorientei a minha maneira de caminhar na vida e venho me dedicando a manter o chamado vivo através dos círculos que criei e que venho mantendo ao longo destes vinte e um anos, em parceria com todas as minhas irmãs de caminhada", ressalta.

Nesta entrevista, a terapeuta explica como funciona os grupos que ela focaliza e conta um pouco mais sobre a sua trajetória. Confira!


Como se organiza o Tendas e Clãs do Sul?
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O Movimento Tendas e Clãs do Sul é composto pelos círculos femininos da Tenda da Terra e Tenda da Lua, além de vários outros grupos que chamamos de clãs. Para o público adulto feminino, a jornada inicia pela Tenda da Terra. Anualmente, fazemos uma palestra aberta e gratuita (geralmente em março, no RS e PR , e em abril em SC) onde são apresentados a metodologia, os calendários e as facilitadoras que vão conduzir grupos naquele ano.

 As inscrições podem ser feitas diretamente com a facilitadora escolhida ou ainda pela secretaria do local onde os encontros são realizados. Qualquer mulher a partir dos 18 anos pode participar. São 08 encontros mensais de 03 horas (geralmente à noite) e 01 encontro de final de semana, em regime de imersão.

 O objetivo principal é ser uma jornada de autoconhecimento e autocura, onde cada participante é convidada a fazer outras escolhas com maior consciência e contribuir na construção de uma nova organização social onde os valores de um paradigma de parceria sejam priorizados.

Quais os principais benefícios conquistados por este resgate do sagrado feminino? Que aspectos da vida da mulher são trabalhados?

​No momento em que cada mulher se reconhece como um ser que busca a inteireza dos seus aspectos feminino e masculino, começa, verdadeiramente a sua jornada de autocura.​ Ao longo destes encontros, refletimos sobre os nossos diferentes papéis femininos através de temas que incluem a herança cultural e biológica, espiritualidade, vocação, parcerias, lealdades ocultas, maternidade, escolhas inconscientes, etc.

​Aprendemos a ser mulher entre outras mulheres, com a experiência de cada uma. O poder de estarmos sentadas em um círculo potencializa o processo, pois o campo que geramos é bem maior do que a soma de todas as consciências individuais. Ao repensar a sua maneira de ser e estar no mundo, cada participante vai resgatando suas partes perdidas ou negadas, vai reconhecendo a beleza da sua alteridade, vai ocupando o seu lugar na Vida. Ela se torna a mudança que quer ver no mundo.
 

Para você, o que é "Sagrado feminino"?

Não é novidade alguma que o princípio feminino vem sendo excluído da vida interior de cada um de nós há muito tempo. Com isto, estamos todos carentes de uma verdadeira vinculação com o que é mais essencial, com a capacidade de nos relacionarmos a partir da alteridade que vem da alma, deste lugar onde nos nutrimos e, por isto mesmo, podemos também nutrir ao outro.

É lamentável constatar que este feminino tem estado ausente de nossas vidas e daquele espaço tão sagrado que existe entre cada pessoa e todos aqueles a quem esta pessoa está vinculada. Igualmente trágico é perceber, ao longo destes vinte e um anos de jornada, que muitas, muitas mulheres mesmo, não têm contato algum com suas linhagens maternas. Parecem fantasmas famintos habitando corpos que não lhes pertencem, pois, para elas,  o território do feminino ainda é um lugar estranho, quase alienígena.  Totalmente desconectadas de sua própria linhagem, de seus ciclos e mistérios e, ainda, dissociadas de sua natureza visceral, buscam sua identidade num mundo corrompido, cujo sistema dominante impõe-lhe valores distorcidos e nega-lhes o que têm de mais verdadeiro e único.

No meu ponto de vista, tudo é Sagrado. Parece-me que, quando usamos a expressão "sagrado feminino", queremos ressaltar esta dimensão da sacralidade, da transcendência, que está tão esquecida ou negada nos dias de hoje. Homens e mulheres possuem a mesma dimensão do Sagrado em suas particularidades masculinas e femininas, pois estas polaridades energéticas se apresentam nos dois gêneros.​

Mas a Tenda não se apresenta como um baluarte do "Sagrado Feminino" e, sim, como um caminho do meio, um caminho transcultural, transpessoal, transdisciplinar onde as escolhas de cada uma encontrarão um ponto de ressonância em uma visão de mundo que transcende as diferenças, ao invés de reforçá-las. É um cadinho alquímico, um laboratório onde estamos experimentando a emergência de uma nova maneira de ser e estar no mundo, onde a cooperação, a parceira, a amorosidade, o sagrado, o respeito intra e entre gêneros são valores essenciais.

Qual a importância de espaços de vivência exclusivos para mulheres?

​Para podermos tecer junto com os homens uma nova forma de nos relacionarmos, de educarmos os nossos filhos, de consumirmos com maior consciência os produtos que nos são apresentados e os recursos ​que nos são disponíveis, de gerarmos outras formas de organização sociais, mais fraternas e cooperativas, precisamos, primeiro, nos reconciliarmos com os nossos ciclos e os mistérios próprios do nosso gênero. Não tem como aprender a ser mulher a não ser com outras mulheres. Como já cantou Caetano, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". Daí a importância, também, de começarmos este movimento de autoconhecimento a partir da puberdade, trabalhando com as meninas que se tornam jovens mulheres, ressacralizando a beleza e o poder da menstruação ou, ainda, na gestação, resgatando a capacidade e a sabedoria instintiva de parir e amamentar a cria.

Nosso movimento oferece estas jornadas coletivas para crianças, jovens, gestantes e mulheres mais maduras também. Acreditamos que, por terem vivido com outra compreensão os seus próprios ciclos, ocupando o seu verdadeiro espaço na Vida que escolheram, ao ​chegar no outono da existência (menopausa), certamente estarão mais inteiras e serenas consigo mesmas.​
 

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