Crescimento pessoal

03/03/2015 22h23

"Há um movimento circular mundial, ecológico e planetário, uma nova visão do feminino"

Confira a entrevista com a jornalista Andrea Boni, uma das precursoras dos grupos de mulheres em Brasília

Por Nanda Barreto

Magda Fernanda
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Encontro Mundial de Círculos de Mulheres, realizado em SP (em setembro de 2014), organizado pela Cirandda da Lua

Foi para amenizar o estresse da vida de repórter que a jornalista Andrea Boni começou a frequentar círculos de mulheres, há 19 anos, em Brasília. "Eu precisava de um espaço de reconexão comigo mesma, para escapar do estresse. Hoje não consigo separar, mudou minha forma de relação com as pessoas, inclusive com o universo do trabalho".

Nesta entrevista ao Nosso Bem Estar, Andrea fala sobre sua experiência e conta um pouco da história dos primeiros grupos de Sagrado Feminino organizados na capital federal, sob a condução da romena Mirella Faur. "Precisamos exercer o protagonismo feminino no mundo de diversas formas, mas o trabalho é individual. Estou em busca de uma consciência planetária maior. Todos temos esta tarefa", defende.

NBE - Como se organizam os círculos de mulheres que você focaliza? Com qual propósito se reúnem, qual a dinâmica dos grupos e quem pode participar?

Andrea Boni - Há círculos de mulheres sendo formados em todos os lugares, no ambiente corriqueiro ou no espaço dedicado ao sagrado, às terapias, à arte, ao cuidado com o ambiente. Há um movimento circular mundial, ecológico e planetário, uma nova visão do feminino.

Na primavera de 2014, em setembro, foi realizado o I Encontro Mundial de Círculos de Mulheres em São Paulo. Foi possível ter a dimensão da infinidade de círculos de mulheres que estão sendo formados.

A referência ao círculo, seu simbolismo e a liderança circular tem permitido às mulheres resgatar os valores, princípios e conceitos femininos perdidos ao longo dos tempos, através da sua reconexão com o sagrado.

Estabelece-se assim uma nova relação entre todos os seres, de todos os reinos e planos. Dentro do círculo feminino, há a livre expressão dos dons individuais, incentivados pelas histórias sobre fatos e vivências comuns a todas. Os círculos estão sendo criados em função do propósito e da finalidade a que se destinam.

Há 19 anos, faço parte de círculos femininos que originaram a atual Teia de Thea (www.teiadethea.org). Os primeiros círculos sagrados de mulheres em Brasília foram iniciados e conduzidos por Mirella Faur, de origem romena, na Chácara Remanso, de sua propriedade, onde foram construídos templos a céu aberto e espaços para a realização de rituais. Mirella é referência na prática e estudo do sacralidade feminina no Brasil e autora de vários livros sobre o tema.

Quando Mirella  se mudou de Brasília para Águas da Prata (entre SP e MG), os círculos passaram a ser conduzidos pelas mulheres que já trilhavam o caminho com ela. O novo formato passou a se chamar Teia de Thea (Deusa em grego). Atualmente,  os encontros são realizados na Granja do Ipê, Campus da Unipaz (link e informações sobre a Unipaz no site da Teia de Thea).

Temos uma agenda de rituais mensais públicos (realizados nas luas cheias, na mudança de estações e outras datas de antigas tradições). Alguns rituais da roda solar são abertos aos homens, mas os da lua cheia são exclusivos para as mulheres. Em cada, um arquétipo da deusa é honrado, pois estamos estudando e cultuando deusas de diferentes panteões, culturas e tradições politeístas.

Nos reunimos ainda em grupos fechados de estudos, com encontros mensais, nos quais estudamos mitologia, oráculos, “mistérios do sangue”, xamanismo, antigas tradições (como a nórdica). Os encontros são vivenciais e são utilizadas várias práticas sagradas, para que as mulheres possam se reconectar com seus ciclos e a passagem deles. A condução  é feita pelas mulheres da Teia com a colaboração de Mirella Faur.

Como estamos juntas há muito tempo, já "tecemos" bastante e sempre há novas mulheres  chegando e se agregando à tessitura.

Pense no simbolismo da teia, é o que buscamos. São mulheres de diferentes profissões, idades e origem, atuantes no mundo, em busca de um espaço meditativo e de convívio, no qual possam se expressar com beleza e criatividade, buscando a profundidade da essência feminina. Usamos práticas meditativas, como a dança em círculo ou a xamânica, com tambores.

Há muitas outras formas de reunir as mulheres em círculo. Eu também faço parte de círculos de arte, arte-terapia, os quais utilizam outras linguagens, como o bordado, a dança de roda e as histórias, capazes de levar as pessoas para este novo referencial. Cozinhar juntas, por exemplo, pode ser muito nutridor.

NBE - Quais os principais benefícios conquistados por este resgate do sagrado feminino? Que aspectos da vida da mulher são trabalhados?

AB - Há benefícios em muitos aspectos, nos corpos físico, mental, emocional e espiritual e curas em diversos níveis. Historicamente falando, resgatamos a sacralidade do feminino dentro de uma sociedade patriarcal, na qual a contraparte feminina da divindade foi negada nos últimos três mil anos, pelo menos.

Há a necessidade de resignificar o espaço das mulheres no ambiente coletivo, propiciado pelo seu desenvolvimento individual. Esta é uma mudança de valores lenta e gradual que está acontecendo a olhos vistos e os círculos de mulheres têm fundamental importância neste processo.

O feminino divino tem a função geradora na existência, responsável pela vida. As mulheres, ao se reconectarem com os ciclos femininos, estão se harmonizando com o ritmo da natureza, portanto com seu ritmo natural. Há uma essência feminina e nós mulheres nos afastamos dela.

Assumimos papéis de uma sociedade patriarcal e os efeitos são visíveis. O rito é uma ponte para essa reconexão com a natureza e uma forma de devolver a sacralidade para todos os aspectos da existência, sem fragmentações.

No nível biológico há uma cura física capaz de se refletir nos níveis emocional e psicológico. Nossa cultura passou a negar a importância dos ciclos femininos, como a primeira menstruação, a gravidez, o parto, a menopausa, o envelhecer e a morte, daí a importância de resgatar os ritos de passagem e honrar os “mistérios do sangue”.

NBE - Para você, o que é "Sagrado Feminino"?

AB - O sagrado não está dissociado da vida. Vivemos em uma sociedade na qual o conceito de sacralidade perdeu sua essência. Nós mulheres, precisamos relembrar a importância de honrar nossos corpos sagrados, como parte do corpo da Mãe Terra. Os efeitos dessa dissociação se refletem na violência contra as mulheres, por exemplo, e em outros níveis da existência e até na forma de consumir, se nutrir, trabalhar, amar, viver. O ventre feminino pulsa no ritmo do ventre da Mãe Terra, da própria natureza e precisamos nos harmonizar. 

Encontro Mundial de Círculos de Mulheres, em SP. 2014. Foto: Magda Fernanda
               Encontro Mundial de Círculos de Mulheres, SP, 2014

NBE - O dia 8 de março está fixado no calendário como o Dia Internacional da Mulher. A data homenageia 130 tecelãs que no final do século retrasado realizaram uma greve pela garantia de direitos e foram reprimidas com violência, trancadas e queimadas na fábrica. É, portanto, uma data de luta pelos direitos e empoderamento da população feminina. Na sua opinião, de que maneira o Sagrado Feminino se relaciona com o movimento feminista?

AB - O movimento do feminino é atemporal, ancestral. O feminismo teve sua importância histórica e libertou as mulheres de muitos padrões impostos. Mas ainda há mudanças que não foram feitas, em alguns aspectos houve um retrocesso. Basta olhar para as culturas que, ainda, aprisionam as mulheres em crenças que não respeitam sua essência e nem mesmo a liberdade individual.

Transcrevo aqui dois trechos do livro “Círculos Sagrados para mulheres contemporâneas” de Mirella Faur

Um dos mais marcantes fenômenos do século XX foi o renascimento da religião da Deusa na cultura ocidental. Presente desde tempos imemoriais em todas as civilizações antigas, o princípio sagrado feminino personificado em múltiplas facetas e arquétipos da Grande Mãe foi eclipsado, depois renegado e aos poucos ocultado pelos conceitos e dogmas das religiões patriarcais. Existem atualmente várias religiões e caminhos espirituais e tradicionais e modernos, mas eles são desprovidos de tradições sagradas para as mulheres, e alguns chegam até mesmo a promover e defender as “incontestáveis” autoridade e supremacia masculinas.

As origens da religião da Deusa se perderam na noite dos tempos; anteriores a qualquer uma das religiões atuais eram os cultos da Grande Mãe, reverenciada por milhares de nomes e atributos. Em todas as civilizações antigas existiu um culto à Mãe Criadora e Mantenedora da Vida. Suas representantes humanas – as mulheres – eram honradas e respeitadas pelo seu dom milagroso de gerar a vida em seu ventre e nutri-la com o leite dos seios.

Os mais antigos mitos da Criação descrevem a organização do caos e a formação da vida como atos conscientes e amorosos de uma Deusa Mãe. Esculturas e imagens do período Paleolítico e Neolítico representam o sagrado ato de geração e nutrição na forma de mulheres, cujo corpo guarda e revela os mistérios do ciclo de vida, morte e renascimento. Essas imagens expressam conceitos cósmicos considerados de natureza feminina e contidos em uma rica variedade de simbologia. Esses conceitos constituíram a fundação sobre a qual se ergueram muitas culturas antigas.
 
NBE - Qual a importância de espaços de vivência exclusivos para mulheres?
AB - Muitas pessoas querem saber por que as mulheres precisam se reunir em um espaço exclusivo a elas.

As mulheres precisam estabelecer outros vínculos e equilibrar a energia feminina ausente no todo. A mulher tem uma natureza cíclica e é preciso resgatar esse conhecimento em um espaço protegido, onde possam se reconhecer como iguais.

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