Família

20/11/2014 11h30

Consumo de Ritalina cresce 75% entre crianças e adolescentes brasileiros

Conhecida como “droga da obediência", medicamento é recomendado principalmente para combater o déficit de atenção

Por Nanda Barreto

Josué Goge/Flickr
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Especialistas alertam para consumo desnecessário do medicamento

Uma pesquisa realizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostra o aumento de 75% no consumo de Ritalina entre crianças e adolescentes na faixa dos 6 aos 16 anos de 2009 a 2011. Conhecida como a "droga da obediência", o medicamento é usado para combater o  polêmico Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

A OMS (Organização Mundial de Saúde) reconhece o transtorno e estima que cerca de 4% dos adultos e de 5% a 8% de crianças e adolescentes em todo o mundo tenham TDAH. Além disso, as entidades calculam que pelo menos duas crianças de uma sala de aula de 40 alunos sejam portadoras.

No entanto, o diagnóstico do TDAH é complicado pela ocorrência de comorbidades, como dificuldades de aprendizagem, transtornos de conduta e de ansiedade, e depen­de fortemente de relatos dos pais e professores; nenhum exame laboratorial confiável prevê esse tipo de problema.

Consumo prolongado
Usuário de ritalina por 10 anos, o funcionário público Lucio Marchetti (*) começou a consumir o medicamento na adolescência, após enfrentar dificuldades para se concentrar nos estudos. A orientação veio de um psiquiatra. "Comecei a usar para estudar para o vestibular. Foi como se a ritalina desfizesse o entrave que eu tinha pra exercer todo o meu potencial acadêmico. De repente eu tinha condições de estudar mais de 8 ou 10h por dia sem dificuldades, e conseguia cumprir com todas as exigências da faculdade".

Marchetti avalia que o medicamento nunca trouxe malefícios para o seu cotidiano. "Eu usei ritalina dos 19 aos 27 anos e agora profissionalmente não tenho sentido tanta necessidade. Estou tentando levar uma vida mais natural e estou experimentando outros medicamentos fitoterápicos para ajudar na concentração. Por enquanto, tem funcionado. Então, espero ao menos nesse momento não precisar voltar a tomar".

Uso indiscriminado
O aumento exponencial no consumo desto medicamente tem servido de alerta para a possível realização de diagnósticos indiscriminados. Basicamente, as crianças com TDAH têm dificuldade de prestar atenção, controlar comportamen­tos impulsivos e, em alguns casos, são hiperativas.

A psicóloga Ingrid Canete acredita que muitas crianças estão sendo medicadas erroneamente. "Eu atendo todas as semanas crianças que estão sendo diagnosticadas equivocadamente como indivíduos com déficit de atenção, bipolaridade, hiperatividade e autistas", ressalta.

Autora do livro  "Crianças Índigo - A Evolução do Ser Humano", a psicóloga destaca que muitos pais sofrem pressão das escolas para medicar seus filhos. "Existem escolas que estão constrangendo os pais e inclusive sugerindo pisiquiatras com as quais elas já tem alguma ligação para tomarem medicamentos. A ritalina é uma droga que causa dependência e é uma bomba inclusive para o organismo de um adulto. Isso está acontecendo como uma verdadeira epidemia", alerta.

A mão pesada da indústria farmacêutica
A preocupação de Canete é justificada. São cada vez mais comuns as análises estereotipadas, baseadas no senso comum. Em 2010, um caso chamou a atenção para o assunto: a farmacêutica Novartis e a ABDA (Associação Brasileira de Déficit de Atenção) promoveram o concurso nacional “Atenção Professor”, que tinha como objetivo “ajudar os educadores a conhecer e lidar melhor com o TDAH”.  Para levar um prêmio de R$ 7 mil, as escolas tiveram que apresentar propostas de inclusão de portadores de TDAH na sala de aula.

Na avaliação da piscóloga, que é especialista no tratamento de crianças conhecidas como índicas e cristais (**), os pais estão drogando uma geração de crianças com base na incompreensão e desinformação. "Há hoje uma melhor condição de trabalhar esta conscientização e ajudar os pais e professores a compreenderam e educarem estas crianças com menos estresse. O que estas crianças têm são hipercapacidades".

* O entrevistado preferiu preservar sua identidade

** Em breve traremos um post especial sobre o conceito de “crianças índico” e “crianças cristal”

 

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