Planeta

19/11/2014 14h13

Os segredos e manipulações para você consumir mais

Conheça as artimanhas do mercado para manter a sua dependência de consumo

Por Nanda Barreto

Phil Roeder/Flickr/CC
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Nos Estados Unidos, uma lâmpada comemorou mais 100 anos acesa. Porque esta tecnologia não está disponível em cada esquina?

O aniversário de 110 anos de uma lâmpada – acesa – causou alvoroço na cidade de Livermore, na Califórnia, Estados Unidos.  Feita à mão pelo inventor Adolphe Chaillet para presentear o Corpo de Bombeiros local, a lâmpada de 60 watts foi festejada pelas ruas, conquistou posição no livro dos recordes e virou uma das principais atrações turísticas da região. Ganhou até página em rede social. A notícia sobre a comemoração alastrou-se pelo mundo e acendeu uma série de questionamentos para milhares de consumidores.  Se é possível uma lâmpada funcionar por tanto tempo, por qual razão modelos duráveis como este não estão disponíveis no armazém de cada esquina?

Talvez o criador da lâmpada tivesse essa resposta.  Mas a vida de Chaillet não foi tão longa quanto a de sua invenção, e com ele morreu também a tecnologia que permitia a longevidade do filamento.  No entanto, ainda que fosse possível reproduzi-la, dificilmente a lâmpada centenária sobreviveria à força de um acordo firmado na década de 1920 pelos fabricantes de lâmpadas.  Ao se dar conta de que as pessoas consumiriam cada vez menos se o produto durasse mais, o setor protagonizou o primeiro cartel mundial, vigente até hoje.  De lá para cá, todas as lâmpadas que chegam às prateleiras já nascem marcadas para morrer no mesmo limite “xis” de horas.

A história desse cartel revela práticas industriais pouco claras, para não dizer obscuras, baseadas numa artimanha mercadológica conhecida pelo nome de obsolescência programada.  A estratégia consiste na fabricação de produtos planejados para funcionar por um período curto, tendo de ser substituídos por outros mais modernos, em uma lógica dedicada a estimular o consumo constante – motor do capitalismo tradicional.  O documentário produzido pela televisão espanhola RTVE, Comprar, Descartar, Comprar: a história secreta da obsolescência programada, conta bem essa prática empresarial desde os anos 1920.

Ao longo dos anos, a obsolescência programada tem-se tornado cada vez mais abusiva.  De um lado, a indústria justifica: o consumo não pode parar.  De outro, a população dá de ombros: o ato de consumir está tão arraigado que é considerado absolutamente natural pela maioria.  Mas há uma terceira via – o coro dos descontentes que, aos poucos, impulsiona alternativas.  Trata-se, principalmente, de iniciativas voltadas para uma revisão de padrões e hábitos de consumo.

De acordo com o professor Hélio Silva, autor do livro Marketing: Uma visão crítica, esse movimento também tem forçado o mercado a repensar sua atuação, até hoje baseada na velha ideia de que os recursos naturais são infinitos.  A tendência, nesse sentido, é ampliar a oferta de serviços e diminuir a quantidade de artigos fabricados.  Essa nova economia estaria cada vez mais centrada em “processos” do que em “produtos”, valorizando o conhecimento e a criatividade.  

“Tecnologia também é conhecimento e esse é o grande capital da atualidade. Isso significa dizer que não é necessário ampliar a produção e, sim, aprimorar a qualidade do que já temos.  Ou seja, desenvolver tecnologias menos impactantes ambientalmente e que cumpram com alguma função social”, reforça Silva, que leciona publicidade no Senac-SP.

O professor acredita que a guinada das empresas só virá com pressão social.  Para ele, as organizações continuam agindo como há 50 anos, porque se movem pela oportunidade de negócios e até agora tem sido muito rentável apostar em produtos.  Se duas ou três empresas dominam cada segmento do mercado, a margem de saída para o consumidor fica praticamente suprimida. “O que vislumbro é a organização da sociedade civil em iniciativas conjuntas”, defende.

Multidão insatisfeita

Apaixonada por tecnologia, a socióloga e jornalista Brunna Rosa viveu dias amargos com seu iPhone.  Após identificar que o aparelho não emitia sinais vitais, a paulistana buscou o auxílio da marca fabricante. “Imagine a minha surpresa ao descobrir que a Apple não se responsabiliza pela assistência técnica dos iPhone.  Produzem o material, mas, segundo eles, esse é um problema das operadoras.  É surreal”, reclama.

Um levantamento realizado pelos Procon em todo o País, referente a 2010, revela que o problema vivido por Brunna é experimentado por uma multidão de brasileiros.  O segmento aparelho celular foi o campeão no ranking geral de protestos, representando 32% dos 67 mil casos analisados.  Os três principais alvos de contestação são garantia, defeitos de fabricação e falta de peças para a reposição.

A coordenadora do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Lisa Gunn, acredita que a legislação vigente salvaguarda os direitos dos consumidores individualmente, mas que minimizar os danos ambientais impostos pelo consumo excessivo é uma atitude que passa, necessariamente, pelo bolso das empresas.  “Percebemos que o mercado incorporou o discurso da sustentabilidade a seu favor, mas pouco ou nada está sendo feito na prática.  Os fabricantes precisam arcar com as consequências ambientais dos seus produtos e esse custo precisa ser maior do que o lucro que eles têm com a obsolescência programada”, afirma.

E você, já teve algum artigo eletrônico que em pouco tempo já deixou de funcionar? Compartilhe sua experiência conosco!

Leia também: A naturalização da obsolescência

Texto publicado originalmente na Revista Página 22

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