Saúde Integral

29/10/2014 10h56

Hospital do SUS reduz episiotomia ao tirar médico do parto normal

Corte mutilador é traumático para muitas mulheres

Por Giovanna Balogh, Maternar

DIVULGAÇÃO/ NBE
165 folhades%c3%a3opaulo divulga%c3%a7%c3%a3o nbe

Mulher usa banheira durante parto em hospital público

O hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte (MG), conseguiu reduzir drasticamente o número de episiotomias – corte feito entre a região do ânus e da vagina durante o parto normal – nos últimos 12 anos. O procedimento, que estava presente em 60% dos partos em 1992 é de apenas 4% neste ano.

O diretor clínico do hospital, João Batista Marinho de Castro Lima, atribui o sucesso a uma mudança de prática na unidade: enfermeiras obstetras acompanham os partos normais e não mais os médicos. “Os dados mostram que a queda mais drástica nas episiotomias ocorreu entre os anos de 1998 e 1999 quando colocamos enfermeiras em todos os plantões. Caímos para 10%”, explica. Segundo ele, após a prática deixar de ser rotineira, as lacerações são mais frequentes, mas a maioria de primeiro grau, ou seja, mais simples do que uma episiotomia que é uma cirurgia que provoca uma laceração de, no mínimo, segundo grau.

Para o médico, os médicos não foram formados para atender um parto normal sem episiotomia. Segundo ele, é o que se aprende nas residências médicas e foi o que ele aprendeu também. “Os médicos não são maus. Todos que estão fazendo [a episiotomia] acham que estão fazendo em benefício da mulher. Mesmo com o conhecimento de evidências de que a prática não é necessária, a mudança de prática é difícil. A forma de mudar a prática é no processo de formação”, relata o médico. Segundo ele, os residentes do Sofia Feldman não fazem episiotomia.

 

Nascer Melhor - Congresso Online de Nascimento Natural e Humanizado

Os dados foram passados por Lima durante uma audiência pública semana passada no Ministério Público Federal. O evento, que lotou o auditório, foi feito após a Procuradoria instaurar um inquérito civil para apurar a violência obstétrica e notar que a episiotomia está presente em boa parte das denúncias.

Mulheres não estão satisfeitas

“As mulheres não estão satisfeitas como o nascimento está sendo feito no Brasil. Os médicos precisam pensar em como mudar a realidade e precisam estar envolvidos nessa discussão”, disse a procuradora Ana Carolina Previtalli Nascimento. Para ela, mesmo as mulheres esclarecidas não sabem o que é a episiotomia e precisam ser informadas sobre os riscos e benefícios de qualquer procedimento antes, durante e após o parto.

Lima explica que as gestantes de baixo risco são atendidas na casa de parto normal do Sofia Feldman e que só são removidas para a maternidade se desejam anestesia ou caso haja algum tipo de complicação, quando passam a ser atendidas por obstetras. O diretor clínico diz ainda que a violência obstétrica deixa de existir se as  mulheres estão sempre acompanhadas de sua família durante o período que estão no hospital. “Não deveria nem ter lei para isso. Basta ver os resultados e os benefícios que traz a mulher estar acompanhada”, diz.

A maternidade de Belo Horizonte é filantrópica e atente pacientes apenas pelo SUS (Sistema Único de Saúde). O hospital, que é referência no país em parto humanizado, também recebe gestantes de alto risco e, por esse motivo, as taxas de cesáreas chegam a 25%, índice considerado baixo já que nas maternidades particulares do país a taxa é de 90% e, do SUS, de 52%. A unidade faz cerca de 940 partos por mês e é a com maior número de partos do país.

Pelo fim do corte mutilador

A médica Melania Amorim, que há 12 anos não faz episiotomias, também esteve presente na audiência pública e disse que trabalha “pelo fim do corte mutilador”. “Nas escolas de medicina ensinam que a episiotomia é para manter a integridade do assoalho pélvico. Como vai manter se vão cortar?”, questiona.

Segundo ela, o vai e vem da cabeça do bebê durante o trabalho de parto preserva a musculatura perineal. “É nesse momento que o médico pega o bisturi ou a tesoura e corta. Acham que o corte vai fazer bem. A episiotomia não traz benefício algum”, diz. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda uma taxa de apenas 10% de episiotomia. No Brasil, segundo a pesquisa Nascer no Brasil, da Fiocruz, 54% das mulheres são submetidas ao corte nos partos. No caso de primíparas (primeiro filho), o índice chega a 74%.

Violência obstétrica

Segundo ela, a episiotomia configura violência obstétrica pois o médico só pode fazer sem o consentimento da paciente se existir risco iminente de morte o que, explica a médica, não é o caso. “Aprendi na residência que cortar durante a contração não sente o corte, o que é mentira. Por isso muitos médicos cortam e suturam sem nem dar anestesia”, diz.

A médica Simone Diniz disse durante a audiência que, infelizmente, o parto normal é visto como algo nojento, que provoca a frouxidão da vagina. “Nos hospitais-escola a vagina da mulher pobre está lá para o aluno aprender a cortar e suturar. A mulher precisa sair do parto com integridade corporal”, relata. Para ela, a mulher parir deitada impossibilita ainda mais que o parto seja feito da forma mais natural possível e que não adianta querer apressar o período expulsivo.

Segundo ela, muitas mulheres acham que a episiotomia está presente em todo parto. “Já ouvi paciente dizer que se vai cortar por cima ou por baixo, prefere em cima pois embaixo é uma área mais nobre”, diz Simone. Para ela, é preciso ter educação perinatal, com exercícios perineais, plano de parto e acabar com manobra de Kristeller (pressionar a barriga da gestante para o bebê descer), por exemplo, que é associado a dano perineal.

Só em emergências

“Se não haver regulação da taxa de episiotomia, nada vai mudar”, relata. Segundo ela, por ser uma cirurgia, deve estar no prontuário médico, o que nem sempre ocorre.

A médica Rossanna Pulcinelli Francisco, representante da Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de SP), foi a única presente que defendeu o uso da episiotomia em casos específicos. “Nenhum médico foi formado para fazer o mal. Tema violência obstétrica incomoda pois pressupõe a intenção de ser violento. Na episiotomia não acredito na intenção de ser violento”, relatou.

Segundo ela, a gestante deve saber se não tiver uma episiotomia que poderá ter lacerações. “Estudos mostram que 50% a 60% tem períneo integro, mas também poderá ter laceração e a mulher precisa saber. O consentimento precisa ser livre e esclarecido. As pessoas precisam ter todos os esclarecimentos”, diz.

Fonte: Maternar - www.maternar.blogfolha.uol.com.br

 

Nascer Melhor - Congresso Online de Nascimento Natural e Humanizado

X