Planeta

28/10/2013 11h06

Consumo de carne provoca graves impactos ambientais

Pesquisas apontam que a pecuária é um dos principais responsáveis pelo aquecimento global

Por Nosso Bem Estar

WENDY DOMENI/DIVULGAÇÃO/NBE
Consumo de carne

O consumo de carne é, por si, um tema polêmico, pois envolve hábitos de alimentação – difíceis de mudar - e interesses de grandes setores da economia mundial (pecuária, frigoríficos, grandes empresa, etc.). Mas seu consumo excessivo e crescente - o rebanho bovino no mundo cresceu cinco vezes em 50 anos e hoje soma 6 bilhões de cabeças - não pode deixar de ser registrado e encarado sob novas óticas. É uma questão que deixou de ser meramente ideológica, saindo do simples debate do ser ou não ser vegetariano e passou a ser de interesse maior, por envolver a própria sobrevivência no planeta, já que a pecuária de corte é considerada a principal emissora de gases responsáveis pelo efeito estufa.

Não se trata necessariamente de extinguir já o consumo de carne, mas de repensar nossos excessos. Acreditamos que a informação pode trazer mais consciência e, decorrentemente, uma mudança em nossos padrões de comportamento. Diminuir o excessivo consumo pessoal pode ser uma importante medida de defesa da saúde pessoal e planetária. Afinal, se queremos uma mudança no mundo devemos começar por nós mesmos.

Segundo o relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), "A grande sombra da pecuária", o setor pecuário é o que produz mais gases componentes do efeito estufa. Comparando a seu equivalente em CO2 (dióxido de carbono), suas emissões são mais elevadas que os produzidos no setor de transportes. O relatório afirma que a atividade pecuária não ameaça somente o meio ambiente, mas é uma das causas principais da degradação do solo e esgotamento dos recursos hídricos.

Entre alguns números divulgados na pesquisa, a FAO sustenta que pelo menos 9% das emissões de CO2 produzidas por atividades humanas são procedentes do setor da pecuária e que este setor produz a proporção mais elevada dos gases mais prejudiciais que compõe o Efeito Estufa. Entre os gases procedentes do esterco, a FAO cita o óxido nitroso (N2O), que tem quase 300 vezes mais GWP (Potencial de Aquecimento Global) do que o CO2.

O setor pecuário gera 65% do óxido nitroso presente na atmosfera. Na verdade, os efeitos nocivos da poluição do ar causados pela pecuária são conhecidos há bastante tempo, mas nunca se pensou que o gado poderia contribuir tão decisivamente para aumentar a concentração dos gases.

Pode parecer brincadeira, mas o metano produzido pelo arroto das vacas (são animais ruminantes e o arroto é fundamental em sua digestão) é 23 vezes mais nocivo ao ambiente que o CO2. Considerando-se que uma vaca pode produzir até 500 litros de metano em apenas um dia, é fácil estimar os danos ambientais produzido por 200 milhões de cabeças de gado somente no Brasil. 

Para o pesquisador Paul Steinfeld, chefe da subdireção de Informação Pecuarista e Análise e Política da FAO, é preciso encontrar soluções rapidamente, pois a cada ano a humanidade consome mais produtos lácteos e carnes produzidos pelo setor, o que afeta ainda mais o meio ambiente. O documento adverte que para que a situação não piore, é fundamental que o custo de cada unidade de produção pecuária seja reduzida à metade.

Ameaça ao planeta

A pecuária representa uma das atividades humanas mais impactantes para o meio ambiente, consumindo grandes quantidades de água, grãos, combustíveis fósseis, pesticidas e drogas. É também a principal causa por trás da destruição das florestas tropicais e outras áreas naturais, além de grande responsável por outros impactos ambientais, como a extinção de espécies, erosão do solo, escassez e contaminação de águas, desertificação, poluição orgânica e efeito estufa.

A maior parte do gado brasileiro é criada pelo sistema extensivo, onde os animais permanecem soltos no campo, ocupando vastas áreas. Neste sistema, considerado pouco produtivo, cada cabeça de gado necessita de um hectare (10.000 m² - um campo de futebol) de terra para engordar.

O Brasil possui o maior rebanho do mundo (mais de 200 milhões de cabeças), que necessita de uma área de pastagem de, no mínimo, 2 milhões de km² para ser sustentado. Esta área equivale a um quarto do território nacional. Estas pastagens eram anteriormente áreas naturais como cerrados, florestas tropicais, entre outros.

Quando ambientes naturais são destruídos para a formação de pastos ocorre a perda de biodiversidade na área: a maior parte dos animais e plantas nativas desaparecem do local, sendo substituídos por forrageiras (capim) invasoras e gado. A remoção da cobertura vegetal original transforma completamente o ambiente, tornando-o impróprio para sustentar a maior parte das espécies que antes ali viviam. Além do mais, as raras espécies que se adaptam às novas condições tendem a ser eliminadas pelos fazendeiros, uma vez que entram em competição com o gado ou passam a predá-lo devido a ausência de suas presas naturais.

Há também várias doenças, como a raiva, o antraz, a toxoplasmose e a febre maculosa, que são transmitidas do gado para os animais silvestres e vice-versa, o que freqüentemente resulta na eliminação dos animais silvestres. A remoção da cobertura vegetal original para formar pastos não apenas compromete a biodiversidade, como também interrompe o equilíbrio e a reciclagem  natural de nutrientes, como estamos observando na Floresta Amazônica.

Locais no planeta onde a atividade de pastoreio é mais antiga são testemunhas de que o homem de fato transforma florestas em desertos. O superpastoreamento destrói toda a possibilidade de rebrotamento e crescimento vegetal. Além disso, quando o gado pisoteia massivamente o solo, este é compactado. Isto torna a absorção da água dificultada, além de possibilitar o arraste de material superficial pelo vento e pela água, resultando em processos erosivos.

A pecuária é uma das mais importantes fontes de poluição do meio ambiente. Ela consome grandes quantidades de recursos, gerando resíduos e gases que contaminam o solo, a água e o ar. A produção de excrementos animais ultrapassa em muito a produção de excrementos das grandes cidades. Este excremento na maior parte das vezes não pode ser empregado na agricultura e não é direcionado para nenhuma estação de tratamento de esgotos, sendo inadequadamente disposto no ambiente. Colocam em risco a saúde pública, estando associados à disseminação de coliformes fecais, proliferação de insetos e problemas de saúde como alergias, hepatite, cânceres e outras doenças.

Mesmo em países desenvolvidos, onde a abundância de recursos permite um manejo mais adequando e melhor infra-estrutura, a insustentabilidade da pecuária torna impossível o controle efetivo da poluição. Por exemplo, países europeus como a Holanda, Inglaterra, Dinamarca, Alemanha, Bélgica e França apresentam problemas ambientais ocasionados pela pecuária muito mais graves do que os nossos. Os Estados Unidos já possuem áreas com níveis de contaminação alarmantes.

A pecuária e a água

A pecuária implica também um uso ineficiente da água. Cerca de 70% da água doce captada pelo homem dos rios, lagos e depósitos subterrâneos são destinada para uso agrícola, sendo que os 30% restantes são utilizados para as demais atividades, como consumo doméstico, atividade industrial, geração de energia, recreação e abastecimento.

No Brasil, são necessários em média 2 mil litros de água para produzir cada quilo de soja. Para produzir cada quilo de carne bovina são necessários cerca de 43 mil litros de água! Nesse cálculo entram não só a água que os animais bebem, cerca de 50 litros/dia, mas também a água utilizada na produção de seu alimento.

O pecuarista não paga pela água que utiliza nem para os dejetos que o abatedouro gera. No preço da carne não estão contabilizados estes custos, nem os prejuízos ao meio ambiente causados pela criação de animais. Todos estes custos são subsidiados pelo governo. Isto significa que o contribuinte arca com todos, para lucro exclusivo do setor pecuário.

Vegetarianismo contra a fome

Se compararmos nossa atual produção agrícola com a população humana hoje existente, veremos que não há motivos para a fome no mundo. Não há déficit na produção. Pelo contrário, são produzidas cerca de 1,5 quadrilhões de calorias a mais do que seria necessário para sustentar nossa população. A fome só existe porque cerca de 25% dos grãos cultivados no mundo são utilizados na alimentação do gado.

Mesmo o fato de que este gado será posteriormente utilizado para alimentar seres humanos não é justificativa, visto que a produção de carne representa um uso ineficiente dos grãos. Os grãos são utilizados de forma mais eficiente quando consumidos diretamente por seres humanos. Caso o vegetarianismo fosse uma situação generalizada dentro de nossa espécie, seriam necessárias menos áreas de cultivo para sustentar nossa população.

Muitas áreas naturais jamais precisariam ser tocadas e desta forma haveria uma maior preservação ambiental. Não haveria a situação de desperdício de recursos hídricos, pois seriam adotadas para cultivo apenas áreas próprias para agricultura, sem quase nenhuma necessidade de irrigação. A captação de água ocorreria basicamente para atender às cidades e às indústrias, portanto haveria menor incidência de secas.

A mudança é possível?

A resposta é SIM. Cada um de nós é a causa pelo aquecimento global, mas cada um de nós pode fazer escolhas para mudar isso, através das compras que fizermos, da eletricidade que usarmos, dos carros que dirigirmos e principalmente pela forma com que nos alimentarmos. Podemos fazer escolhas que mudarão nosso futuro próximo e distante.

As soluções estão em nossas mãos. Só precisamos ter a determinação para elas se efetivarem. O que está em jogo é nossa sobrevivência, nossa habilidade de viver no planeta e ter um futuro como civilização. Só isso.

 

Fonte: Jornal Bem Estar

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