Saúde Integral

07/04/2014 17h17

Que seja o fim da violência obstétrica!

Confira entrevista exclusiva com o médico Ricardo Herbert Jones

Por Nosso Bem Estar

REYNARDT/ ISTOCKPHOTO/ NBE
Cesariana adelir

Cirurgia abdominal deve ser opção apenas em casos de real necessidade

Poderia ter sido só mais um caso em que, por orientação médica, a gestante optaria por um parto cirúrgico, apesar de apresentar condições para dar à luz de forma natural. Mas Adelir Goes, 29 anos, estava informada sobre todas as possibilidades de nascimento do seu terceiro filho. Por isso não aceitou a recomendação da obstetra. Voltou para sua casa e, na madrugada do dia 1 de abril, foi retirada de lá à força, mediante uma ordem judicial que a obrigava a fazer uma cesariana.

O episódio registrado no município de Torres, no Rio Grande do Sul, traz à tona uma série de debates e ganha repercussão internacional. Fica o alerta: Até que ponto pode o Estado intervir no direito da mulher de escolher a melhor forma de parir? Quem está apto a dizer quais os riscos oferecidos ao bebê no caso de uma opção pelo parto vaginal?

 

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Veja no fim desta matéria uma entrevista exclusiva com o obstetra Ricardo Herbert Jones, que esclarece o caso pela ótica da medicina baseada em evidências.

No Brasil, onde o movimento de humanização do parto está em crescente expansão, muitos especialistas saíram em defesa da mãe. Não por considerarem que a cesariana não seja importante em alguns casos, mas sim por ficarem perplexos diante da violência do modelo de intervenção utilizado pela equipe do hospital e da Justiça local.

Saiba mais sobre o movimento de humanização do parto em nossa reportagem.

Vários direitos foram ignorados no caso de Adelir. Além de ser obrigada a fazer uma cesariana que não desejava, ela foi retirada à força do seu ambiente doméstico, onde aguardava os sinais da chegada do bebê. Sob a pressão de policiais armados, diante dos filhos mais velhos e do marido, foi levada sozinha e sob custódia a um hospital público. Foi sonegada a presença de um acompanhante, que é garantida pela lei federal (11.108/2005).

Segundo a Promotoria de Justiça de Torres, o órgão foi acionado pela Secretaria Municipal da Saúde, que informou sobre a resistência da gestante em seguir a orientação médica. A partir disso teve início a movimentação, sob a alegação de “proteger a vida do nascituro”. A decisão foi fundamentada nas informações de apenas uma médica. Não houve oportunidade de se ouvir o depoimento da mulher ou de uma segunda opinião obstétrica.

Os argumentos para a realização do parto cirúrgico foram o tempo de gestação (supostamente 42 semanas), a apresentação pélvica do bebê (sentado) e o fato da mãe já ter feito duas cesarianas prévias. Todas estas justificativas são contestadas por equipes com ampla experiência em partos de diversos tipos.

Veja como o caso Adelir está sendo tratado na imprensa internacional.

A Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), órgão oficial de todos os ginecologistas e brasileiros filiados, também se posicionou a respeito do caso. Conforme nota publicada pela entidade, “prevalece o princípio da autonomia da mulher sobre o seu corpo”.

Além disso, se o profissional que acompanha a gestação não concordar com a escolha da mulher, ele pode abandonar o caso, indicar outro médico ou pedir que a paciente assine termos que o isentem de responsabilidade. Ou seja, há uma série de recursos possíveis antes de acionar a Justiça para obrigar a gestante a optar por uma cesariana. Todos foram atropelados no caso do parto de Adelir.

O que você tem a ver com isso?

A história de Adelir Góes abre um perigoso precedente que afeta direta ou indiretamente todos que militam por causas ligadas aos Direitos Humanos, Direitos das Mulheres, Direitos Sexuais e Reprodutivos, Direitos das Minorias (Adelir, seu marido e família são ciganos e argumentos discriminatórios têm surgido sistematicamente nos debates sobre o caso), bem como contra toda e qualquer forma de violência contra as mulheres, incluindo aquela praticada pelo poder público e seus agentes. O debate é particularmente importante para todos que têm se debruçado sobre o “Estatuto do Nascituro” e suas potenciais consequências sombrias.

Segundo o movimento “Somos todxs Adelir”, que está ganhando força na internet, o encaminhamento deste caso afeta os direitos humanos como um todo. “Não se trata de um debate sobre parto natural ou cirúrgico. Trata-se de uma violação aos direitos humanos, particularmente ao direito à integridade pessoal, liberdade pessoal, proteção da honra e da dignidade. Se você não quer ter filhos, se você quer ter o seu bebê por cesariana, o seu direito de escolha também está ameaçado quando o poder médico e o poder jurídico podem decidir por você e usar de medidas arbitrárias para que esta decisão seja cumprida à sua revelia”, salienta a campanha.

O que você pode fazer?

Se você quer fazer a sua parte para evitar que novas violações como esta aconteçam em nosso país, participe da petição pública e demonstre seu desejo de justiça! Assine aqui.

Você também pode se mobilizar para integrar o “Ato nacional contra a violência obstétrica”, que acontecerá em diversas cidades do Brasil na próxima sexta-feira, 11 de abril, a partir das 13h. Clique aqui para ver a agenda de cada região.

No cenário internacional, a notícia também tem causado reações em defesa dos direitos humanos e da mulher. Curta e compartilhe a página do movimento “We are all Adelir” no Facebook.

Se você ainda está por fora do assunto e quer compreender melhor o que significa o termo “violência obstétrica”, confira neste artigo a história de algumas intervenções dolorosas que poderiam ter sido evitadas...

Especialista comenta o caso

Com o propósito de esclarecer as informações disseminadas sobre o caso Adelir, o Nosso Bem Estar entrevistou o médico obstetra Ricardo Herbert Jones. Coordenador nacional da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento, ele escreveu os livros “Memórias do Homem de Vidro” e “Entre as orelhas – histórias de parto” e tornou-se referência quando o assunto é a retomada do sentido natural do parto. Confira!

Nosso Bem Estar: Segundo a versão oficial, haveria indicação de cesariana por três motivos: tempo de gestação (supostamente 42 semanas), duas cesarianas prévias e apresentação pélvica do bebê. O que você tem a comentar sobre esses três pontos?

Ricardo Herbert Jones: Um parto pode ser realizado na vigência de duas cesarianas anteriores. A própria American College of Obstetrics and Gynecology (ACOG) deixa muito claro nas suas considerações que uma paciente com duas ou mais cesarianas anteriores tem condições de tentar um parto normal (vaginal) com segurança. Quando se avalia os riscos de um parto nessas condições deve-se também lembrar que uma terceira cesariana NÃO É isenta de riscos, e pode trazer consequências dramáticas para a paciente. 

Da mesma forma, uma cesariana NÃO É a decisão natural e óbvia diante de uma apresentação pélvica. Todo o profissional que atende partos deve ter treinamento e conhecimentos técnicos que o habilitem a atender partos em posições pouco usuais. As revisões sistemáticas da Biblioteca Cochrane deixam clara a segurança na atenção a partos pélvicos, sejam na modalidade podálica (com os pés na frente) ou pélvica completa (com as nádegas do bebê aparecendo primeiro). Portanto, essa obrigatoriedade está claramente equivocada.

Quanto à idade gestacional de 42 semanas, desde que o bebê seja bem monitorado com uma avaliação de vitalidade (perfil biofísico) não há problema algum em aguardar o desfecho normal da gestação através de um parto em pacientes de mais de 41 semanas. No caso específico, havia sido realizado um ultrassom com perfil biofísico no dia anterior à intervenção. O laudo desta ecografia aponta para uma gestação em EXCELENTE ESTADO (perfil biofísico 8/8, nota máxima) e (chocante!) 40 semanas de gestação, e não as 42 anteriormente afirmadas. Portanto, sequer se tratava de uma gestação prolongada, e sim uma gravidez no termo. Além disso, ao contrário do que um jornal de Porto Alegre afirmou, NÃO HAVIA prolapso de cordão, e sim um prolapso da bolsa amniótica, o que só indica que ela já possuía alguma dilatação e que a bolsa naturalmente protuía por este orifício.
 
NBE: Você já teve experiências com partos pélvicos bem sucedidos?

RHJ: Sim, vários, e nunca tive resultados negativos de partos pélvicos, inclusive em bebês bem maiores do que o bebê de Adelir. Mas eu admito que um médico, diante do desafio de um parto pélvico para o qual não se sinta seguro, possa chamar um colega para auxiliar. Pode também encaminhar a paciente para outro serviço, com o objetivo de que seja bem atendida diante de seus desejos. Só me parece absurdo e inaceitável chamar a polícia.
 
NBE: O que há de mais grave neste caso, em sua opinião?

RHJ: O flagrante desrespeito aos direitos humanos. Um precedente perigoso para todas as gestantes do Brasil. O estabelecimento de uma ordem policial no relacionamento médico-paciente, e a possível criação de um sentimento de medo das pacientes em relação aos médicos que as atendem, que a partir de agora podem decidir denunciá-las diante de qualquer contrariedade.
 
NBE: Como favorecer o processo do parto desde o início da gestação?

RHJ: Criando um clima de confiança e respeito entre paciente e cuidador, onde a confiança e o respeito pelos pontos de vista do outro seja uma norma inquebrantável. Utilizar a medicina baseada em evidências como norteador do processo, e respeitar o protagonismo da mulher no nascimento.
 
NBE: Qual a sua visão sobre a integração dos serviços de profissionais como a doula?

RHJ: Um dos três pontos fundamentais da humanização do nascimento é a visão interdisciplinar do evento. Os outros dois são a adequação de condutas à Medicina Baseada em Evidências e o protagonismo da mulher respeitado. Com a visão interdisciplinar retiramos do parto a imagem de “evento médico”, mas ampliamos a sua visão para “evento humano”, onde a medicina terá um destaque fundamental, mas não único. Assim a incorporação de enfermeiras obstetras, obstetrizes, médicos de família e doulas no evento do parto é um passo para consolidar a humanização do nascimento como prática corrente no nosso país. Obstetras precisam trabalhar em rede, para que múltiplas visões possam se somar e acrescentar qualidade e segurança ao evento. Médicos obstetras, desta forma, são fundamentais pois são os únicos habilitados a tratar os pacientes de alto risco. A doula, última a se juntar ao time de profissionais que dão assistência à mulher no parto, tem sua contribuição estabelecida e confirmada por múltiplos estudos que atestam a sua validade, assim como a ausência de danos associados à sua presença. É importante que a doula possa estar presente em todas as circunstâncias em que ela é desejada pela gestante.

Você também pode ler mais sobre a visão de Ricardo Jones a respeito do nascimento em nossa reportagem.

Fontes: Redação Nosso Bem Estar, obstetra Ricardo Herbert Jones, Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia, movimento Somos Todos Adelir – www.somostodxsadelir.wordpress.com

 

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