Crescimento pessoal

28/03/2014 17h17

Como lidar com o estresse?

Compreenda a sua relação com este problema e suas distrações

Por Gyalwang Drukpa, mestre budista

BUDA VIRTUAL/ DIVULGAÇÃO/ NBE
Estresse

Todo sofrimento resulta da inflexibilidade e da noção de aceitação

“Todo o sofrimento do mundo vem do fato de pensarmos em nós mesmos. Toda felicidade do mundo vem do fato de pensarmos nos outros” – Shantideva

O estresse é um dos problemas mais graves de nossa vida. É muito comum e um tema importante a ser discutido. Como se trata de uma das maiores distrações, precisamos entender nossa relação com ele, descobrir sua causa, por que trabalhamos muito em troca de nada e cometemos tantos equívocos.

Meus amigos, pelo que me contam, vivem estressados por causa da economia, dos negócios, da família e de toda sorte das coisas. Só por curiosidade, consultei o dicionário para saber qual era a definição de estresse pelos modernos eruditos e encontrei o seguinte: “Consequência da incapacidade de se adaptar as mudanças.” Acho que, até certo ponto, estão certos quanto a isso. 

O estresse resulta da inflexibilidade e da noção de aceitação. Em outras palavras, é provocado pelo forte apego a certos objetos, maneiras, resultados ou expectativas. Quando há muita esperança ou expectativa, há também o medo de que ela não se concretize, de que nada saia de acordo com nosso plano ou nossa vontade. Daí vem o estresse. 

Hoje, quase todas as pessoas que me consultam afirmam que se cansam facilmente e não conseguem dormir bem. O fato é que nossa mente é como elefantes selvagens, num constante tropel de pensamentos, projetos, prazos e mais prazos. Assim, mesmo sem muitas atividades físicas, estamos sempre ruminando alguma coisa e nos pressionando sem necessidade. Sentimos isso até em sonhos. Na maioria das vezes, sufocamos nossas próprias possibilidades por não saber parar. Creio que, em certa medida, a inquietude é o oposto da confiança. Por isso, começamos a nos sentir mal e estressados quando constatamos que nossa vida está literalmente nos arrastando e nós não sabemos como fazê-la parar ou mesmo andar em passos mais lentos. 

Pensar nisso me deixa inquieto. Um de meus amigos estava quase chorando porque, a despeito de se sair muito bem nos negócios, sentia-se acuado pela necessidade de manter esse sucesso. Embora tenha adquirido uma grande fortuna, precisa trabalhar o dia inteiro para preservá-la. Acho que, quando começou o seu negócio, deve ter pensado ”Bem, se eu ganhar 1 milhão, ficarei muito feliz e plenamente satisfeito”. Agora, porém, que atingiu seu objetivo, arranjou outro pretexto para se estressar, estabelecendo um alvo ainda mais difícil. Assim, não há paz em sua mente em nenhum momento ele consegue relaxar, livre de pressões. Por isso veio até mim com lágrimas nos olhos e ignorando o que fazer para se livrar de semelhante fardo.

O mesmo acontece as pessoas em seus relacionamentos. Uma velha amiga me disse que, quando se casou, há alguns anos, supôs que suas preces tinham sido atendidas, mas agora está se separando porque o casal não se suporta. Sucede que esses meus dois amigos buscaram fora a solução para sua felicidade, na riqueza ou num bom parceiro. Por isso insisto tanto na aceitação e na renúncia a todas essas expectativas pois só assim é possível valorizar o momento presente. Se você continuar buscando fora a solução, jamais se livrará do estresse, mas se estiver com os pés no chão, lúcido e se aceitando da maneira que você é, dominará as artes de viver o presente e deixará o estresse a beira do caminho.

“Enquanto outros estiverem desesperadamente empenhados na busca insaciável de riqueza e poder passageiro, eu me estenderei a sombra, cantando”. Frei Luís de León. 

O que tenho feito de minha vida?

Se você é capaz de reconhecer esses sentimentos ou ajudar os outros a reconhecê-los, então tem uma grande oportunidade de ver aí um convite para mudar as coisas, retardar o passo e contemplar a vida. Todos, inclusive eu, deveríamos ser tartarugas de vez em quando.  Viaje de trem, sem pressa. Dê a si mesmo um pouco de tempo. Assim, verá as coisas com maior clareza e perceberá os detalhes da vida com um senso de gratidão. Ainda que enfrentemos inúmeras dificuldades no mundo, não seremos afetados porque saberemos valorizar até mesmo problemas e obstáculos, graças a nossa compreensão. Você não concorda que, quando vamos mais devagar , vemos as coisas com mais nitidez?

Quando meus amigos interrompem sua prática diária e eu lhes pergunto o motivo, respondem que é por falta de tempo. Alguns chegam a declarar que não posso entender isso, que não estou nos negócios e, portanto, não sei o que é estresse. Rio sozinho quando ouço tais absurdos, se eles soubessem por quanta gente sou responsável, quantas crianças alimento e de quantos mosteiros eu cuido, reconheceriam que posso entender isso muito bem. Lembro-me de que, ao planejar a criação de escolas para monjas – uma em Ladakh e outra no Nepal – fiquei muitíssimo inquieto. Passava o dia sentado, quebrando a cabeça com cálculos. A tarde, percebia que não tinha feito nada, exceto me preocupar. Não realizava nada, só perdia tempo. 

Sim, ficar estressado é perder tempo, sufocar a criatividade e o potencial. Por isso, aconselho meus amigos a retomar a prática diária, em vez de perder horas e horas se preocupando. Quando você está sob pressão, fica paralisado e indeciso, portanto é muito útil reservar um tempinho para meditar e relaxar. Você então recordará o significado da transitoriedade e refletirá sobre como a vida é preciosa. Mesmo quando as circunstâncias exteriores forem adversas, ainda poderá banir o medo e ter a coragem de estar bem, de viver uma vida proveitosa e mostrar-se flexível. Podemos ser autenticamente felizes porque essa flexibilidade vem de dentro de nós, não depende do mundo que nos cerca para ser um caminho reto e seguro. 

Sempre espero que meus amigos e alunos retomem sua caminhada e voltem a praticar (meditar), essa é a espinha dorsal da vida e da felicidade. Sem essa compreensão somos facilmente esmagados pelos altos e baixos da existência, mas com ela nos sentimos seguros para continuar andando, sem nos deixarmos envolver por emoções debilitantes.

O estresse é fruto do conformismo

Se vivermos nossa vida segundo um ritmo conservador levando-se em consideração os costumes, a tradição, a cultura ou os nossos próprios padrões inatingíveis, ele nos deixará estressados porque nos comportamos o tempo todo como conformistas. Achamos que, se não nos conformarmos, provocaremos confusão, seremos chamados de desordeiros. Isso é causa de muitas dores de cabeça. 

Sem dúvida, precisamos de alguma estrutura. Mesmo no ensinamento budista há estrutura e forma que nos ajudam ao longo do caminho, algo em que podemos nos apoiar. Porém acreditamos também que as pessoas devam afrouxar um pouco suas estruturas internas para reduzir os estresse e os equívocos. Quando tentamos ser ou agir de determinada maneira o tempo todo, ficamos excessivamente nervosos. Podemos disfarçar e parecer bem por fora, mas por dentro, sentimo-nos presos ou apanhados numa armadilha. Isso ocorre porque temos uma estrutura interna muito rígida, encerramo-nos numa espécie de caixa e ficamos sujeitos a inúmeras pressões, sempre insistindo em obedecer as nossas próprias regras e aos nossos padrões. Pensamos que as coisas, as pessoas e até nós mesmos temos de seguir um modelo e ficamos inquietos quando isso não acontece. Também nos apegamos a ideia da perfeição, alimentada por nossas esperanças e nossos medos, mas pode alguma coisa neste mundo, ser perfeita? Esse é um conceito totalmente subjetivo. Nada é perfeito – nada é errado. Tentemos, apenas, fazer o melhor. 

“Esqueça a vitória e a derrota e encontre a alegria”. – Buda

O que é "o melhor” para você?

Não gosto de dizer coisas negativas sobre o mundo moderno no qual vivemos. Entretanto, percebo que o estresse se deve em grande parte ao modo como as pessoas são educadas: ele enfatiza demasiadamente a competição. Você precisa competir com os outros até para se dar conta de que existe. E precisa ser o melhor. Porém, como ninguém pode ser o melhor por muito tempo (às vezes, nem por pouco), essa atitude é causa de inúmeros problemas. As pessoas estão sempre perseguindo o impossível, provocando com isso muito estresse e aborrecimento.

Tomemos, como exemplo, os negócios. Você pode ganhar 1 milhão e depois até 1 bilhão – mas sempre haverá pessoas que ganharam mais. Diante delas, você não é nada! Ao fazer essa comparação, sente-se perturbado ou acha que alguma coisa está faltando. Procura trabalhar mais, podendo ou não. Precisa competir, correr atrás do arco íris. Ele é tão bonito que você tem de alcançá-lo – mas não o alcançara, é claro.

“Que vida é esta se, cheios de cautela, não temos tempo de parar para contemplar?”. – William Henry Davies

Você talvez receie – se for mais devagar e ouvir o coração – perder dinheiro e não ser mais capaz de cuidar bem de sua família. Essa é uma preocupação bastante compreensível, que afeta muita gente. No entanto procure visualizar o tipo de pessoa que você é quando está muito estressado. É generoso, paciente e amável o tempo todo ou irritadiço, frustrado e quase sempre ausente de ”corpo e alma”? Vive mergulhado nos negócios, adquirindo ou conservando bens, ou dá a necessária atenção à vida e às pessoas que o cercam? Sim, você tem de trabalhar e ganhar o pão de cada dia, mas isso não significa que deva se tornar um escravo desse compromisso e achar que só existe vida fora do período das 9h às 17h. Um pouco mais de simplicidade e um pouco menos de expectativa na vida lhe darão um amplo senso de liberdade, que por sua vez dilatará o tempo num ritmo bem mais descontraído. Não exagere, não se esforce a ponto de não poder sequer respirar. Encontre o equilíbrio na vida ou siga o caminho do meio para usufruir de uma alegria serena, profunda e exuberante.

*Trecho retirado do livro “Iluminação diária: o caminho para a felicidade no mundo moderno”, de Gyalwang Drukpa.

Você também pode ler o texto completo clicando aqui.

Fonte: Buda Virtual - www.budavirtual.com.br

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