Planeta

05/02/2019 06h00

Mudança de rumo na nave Terra

A crise ambiental é uma crise ética e de valores. Ela tem a nossa digital e o nosso DNA. Nós, seres humanos, somos a causa e precisamos ser a solução. Confira essa e muitas outras reflexões na entrevista exclusiva com o jornalista André Trigueiro.

Por Vera Mari Damian

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A crise ambiental é uma crise ética e de valores

As medalhas olímpicas e paraolímpicas que os atletas vão receber na Olimpíada de Tóquio, em 2020, foram confeccionadas a partir da reciclagem de ouro, prata e bronze de celulares antigos e de outros equipamentos eletrônicos doados por pessoas que atenderam ao projeto do governo do Japão.  Esta será a primeira Olimpíada com medalhas 100% recicladas e com viés colaborativo da população. Um verdadeiro Olimpo Verde.

Recentemente, o Parlamento Europeu votou favorável pelo banimento, até 2021, de todos os produtos de plástico que, em geral, têm uma única utilidade.  Em três anos, deixarão de circular pelos 28 países - membros da União Europeia, além dos famigerados canudinhos, colherinhas de café, copos, pratos, talheres, artigos de cutelaria e cotonetes, dentre outros produtos de plástico.

As garrafas plásticas também serão banidas, mas o prazo será um pouco maior: até 2025. O projeto é que 90% delas sejam recolhidas por serviços de coleta seletiva e recicladas, até desaparecerem de circulação. No horizonte das proibições também estão o uso de caixas para hambúrgueres, sanduíches e saladas, bem como recipientes para frutas, legumes, sobremesas ou alimentos gelados.

Produtos plásticos deste tipo levam cinco segundos para serem produzidos, alguns são utilizados por cinco minutos e todos demoram 500 anos para se degradar. Viajam por longas distâncias porque são leves, poluem terra e água e prejudicam a flora e a fauna marinhas por onde passam. Plásticos, hoje, formam ilhas no Oceano Pacífico com extensão maior do que o território de boa parte dos países do mundo. 

Iniciativas emblemáticas como esta das medalhas olímpicas ou medidas efetivas como a de proibição de plásticos pela União Europeia compõem algumas das ações que vêm sendo empreendidas mundo afora para tentar conter o aumento da poluição na terra, água e ar.

São iniciativas importantes, mas ainda insuficientes diante dos altos índices de contaminação a que chegamos, apesar dos inúmeros e incessantes apelos e denúncias dos ambientalistas nos últimos 50 anos.

Muito se ouve sobre a esperança das novas gerações mais conscientes. Mas, diante do agravamento da crise ambiental, talvez não haja tempo para elas. Para frear os desarranjos ambientais e os impactos céleres que o aquecimento global vem demonstrando, nosso momento agora exige 7 bilhões de ambientalistas em ação. Incluem-se neste número as pessoas físicas, jurídicas, governos, instituições, escolas, professores, pensadores, músicos, metalúrgicos, mergulhadores, astronautas. Enfim, cidadãos de todos os tipos e de todas as idades, sejam eles bebês que podem reduzir o uso de fraldas descartáveis a pessoas centenárias que contribuam com histórias e com seu exemplo do modo de viver mais simples do passado.

Nesta edição trazemos uma entrevista exclusiva com o jornalista e palestrante André Trigueiro que há mais de dez anos produz e apresenta o programa Cidades e Soluções, compartilhando com o público preocupações e exemplos bem sucedidos de novos rearranjos de produção e consumo. Segundo ele, precisamos corrigir o rumo urgente. E esta urgência precisa estar no radar de cada um.

 

Nosso Bem Estar – A cada ano assistimos um agravamento da crise ambiental e suas consequências.  Você acredita que ainda podemos reverter esta trajetória suicida da humanidade?  

André Trigueiro – A crise ambiental é uma crise ética. Uma crise de valores. Ela tem a nossa digital e o nosso DNA.  Nós somos a causa e nós precisamos ser a solução.

O que conta é o bom senso de prestar atenção em como o planeta funciona. Entender o software inteligente da vida e perceber que, ou corrigimos o rumo, ou pereceremos. O Planeta não depende de nós. Nós dependemos, literalmente, do Planeta. É uma questão de bom senso. De inteligência.

NBE – Qual o caminho para corrigir este rumo?

Trigueiro - O próprio Papa Francisco na encíclica Laudato SI (2015) deixou muito claro que o atual modelo de desenvolvimento não nos interessa, pois ele não tem compromisso com a erradicação da pobreza, da miséria e da exclusão social e, concomitantemente, devasta, destrói e depreda os recursos naturais e fundamentais da vida.

É preciso que as pessoas estejam mais atentas, que prestem mais atenção aos impactos que estamos causando sobre o Meio Ambiente, do qual somos absolutamente dependentes. Entender que tudo está ligado. O agronegócio quando destrói a floresta precisa saber que cada árvore traz em si um fenômeno de evapotranspiração (produção de vapor d’água). A Floresta Amazônica produz a cada dia uma quantidade de vapor d’água equivalente ao volume de água do Rio São Francisco. Este “Rio Voador”, evaporado, pega carona com os ventos alísios e se transforma em chuva em diversas partes do continente. E, ela é fundamental para a produção agrícola, inclusive no Sul do Brasil.

Então, a gente precisa ter conhecimento e aplicar a informação em nossa rotina, enquanto pessoas físicas ou jurídicas. Os responsáveis não são só os governos. As grandes empresas, as pequenas empresas, os indivíduos, as escolas, Universidades, organizações religiosas, terceiro setor – todos nós - podemos e devemos fazer muitas coisas diferentes para corrigir o rumo. Este senso de urgência precisa estar no radar das pessoas.

 

NBE – Este senso de urgência não parece estar sendo percebido por pessoas, empresas e governos. O que você vislumbra no horizonte a curto prazo? 

Trigueiro - Ou a gente acelera o passo ou vamos nos deparar com cenários cada vez mais hostis para a nossa presença na Terra. Isto já está acontecendo. Isto já é realidade. Já é objeto de muita preocupação de quem está se dando ao trabalho de acompanhar a mudança dos ciclos da chuva, o aumento nos níveis do mar, os eventos extremos, os impactos da destruição da biodiversidade sobre a nossa saúde, a piora da qualidade do ar. Tudo isto está acontecendo. E numa ciclotimia cada vez mais preocupante.

NBE – Quem está à frente de um país tem uma enorme responsabilidade. O que dizer de posturas como a do presidente dos Estados Unidos que decidiu sair do Acordo do Clima, ou do presidente do Brasil para quem a questão ambiental não é prioridade a ponto do próprio Ministério quase ser extinto?

Trigueiro - Não tenho o que mais dizer a respeito da confusão gerada por uma ação unilateral do Donald Trump que contrariou orientações, inclusive, das maiores empresas dos EUA, responsável por um abaixo-assinado recomendando que Trump não deixasse o acordo do clima. Um relatório de 1600 páginas assinado por 300 cientistas de agências federais norte-americanas detalhou os impactos negativos do aquecimento global sobre a economia, a saúde e o meio ambiente nos EUA. Instado a falar sobre isto, Donald Trump resumiu numa frase bucólica: “Eu não Acredito”.

Portanto, estamos falando de uma pessoa que não acredita no aquecimento global, mas o aquecimento global não é objeto de nenhuma corrente de fé. Trump confunde um fenômeno da natureza agravado pelo homem com religião ou ideologia. E ciência não se mistura nem com religião nem com ideologia. Quem faz esta confusão se expõe publicamente de uma forma muito vexatória, muito constrangedora.

Já o Brasil não é os EUA, portanto pode pagar um preço muito caro, caso o país queira ignorar as evidências do aquecimento global. Poderá haver retaliações comerciais, boicotes aos produtos brasileiros. E não é inteligente fazer isto.

2018 teve a maior taxa de desmatamento da Amazônia em uma década. Alguns cientistas dizem que isto veio a reboque das posturas do atual presidente, considerando a relação destas posturas para quem é grileiro, para quem desmata para plantar capim e criar gado, para quem invade território indígena...

Observe que a ideia do presidente eleito de juntar o Ministério do Meio Ambiente com o Ministério da Agricultura não foi para frente pelo posicionamento dos próprios ruralistas.  A classe política é majoritariamente representada por analfabetos ambientais. Quem domina a política do Brasil são homens, brancos, ricos que estão ligados a alguma área do setor privado. Assim, temos uma dificuldade de expressar no próprio congresso eleito os anseios mais legítimos da população brasileira. Neste aspecto há uma crise de representatividade. Existe um desequilíbrio no “jogo do poder”. Isto tem um custo econômico, um custo social e pode custar cada vez mais caro para o nosso país.

NBE – Você considera que a população brasileira é mais alfabetizada ambientalmente falando do que a própria classe política?

Trigueiro - A maioria absoluta da população brasileira, segundo pesquisas, se declara muito comprometida na defesa do Meio Ambiente e muito preocupada com os desdobramentos do aquecimento global.   

Porém, a gente precisa ter mais atenção nas decisões políticas que remetem à flexibilização das leis ambientais, ao afrouxamento dos mecanismos de licenciamento e fiscalização. Entre outras razões porque, por exemplo, a maior tragédia ambiental do Brasil– o desastre da Samarco que destruiu uma bacia hidrográfica inteira - teve origem em um licenciamento frouxo e em baixos ritos de fiscalização. No Brasil temos várias bombas relógios - várias Samarco - prestes a explodir por esta mesma razão.

NBE – O que dizer às pessoas que acreditam que as exigências ambientais atrapalham o desenvolvimento econômico?

Trigueiro - O Meio Ambiente não é contra o desenvolvimento. Ele qualifica o modelo de desenvolvimento. Quem diz que os ambientalistas atrapalham o progresso é dono de um discurso que caducou. É uma confusão do século passado. Não existe setor automotivo, agronegócio ou qualquer atividade econômica sem o uso inteligente do meio ambiente por qualquer indivíduo. Quem não atentar a isto pode pagar um preço muito caro e não leva muito tempo para pagar este preço.

* Vera  Mari Damian é jornalista pós-graduada em Gestão do Meio Ambiente.

12 princípios do consumo consciente

Consumir com consciência é consumir diferente, tendo no consumo um instrumento de bem-estar e não um fim em si mesmo.

1. Planeje suas compras
Não seja impulsivo nas compras. A impulsividade é inimiga do consumo consciente. Planeje antecipadamente e, com isso, compre menos e melhor. 

2. Avalie os impactos de seu consumo
Leve em consideração o meio ambiente e a sociedade em suas escolhas de consumo.

3. Consuma apenas o necessário
Reflita sobre suas reais necessidades e procure viver com menos.

4. Reutilize produtos e embalagens
Não compre, outra vez, o que você pode consertar, transformar e reutilizar.

5. Separe seu lixo
Recicle e contribua para a economia de recursos naturais, a redução da degradação ambiental e a geração de empregos.

6. Use crédito de forma consciente
Pense bem se o que você vai comprar a crédito não pode esperar e esteja certo de que poderá pagar as prestações.

7. Conheça e valorize as práticas de responsabilidade social das empresas
Em suas escolhas de consumo, não olhe apenas preço e qualidade do produto. Valorize as empresas em função de sua responsabilidade para com os funcionários, a sociedade e o meio ambiente.

8. Não compre produtos piratas ou contrabandeados
Compre sempre do comércio legalizado e, dessa forma, você contribui na geração de empregos estáveis e no combate ao crime organizado e a violência.

9. Contribua para a melhoria de produtos e serviços
Adote uma postura ativa. Envie às empresas sugestões e críticas construtivas sobre seus produtos e serviços.

10. Divulgue o consumo consciente
Seja um militante da causa: sensibilize outros consumidores e dissemine informações, valores e práticas do consumo consciente. Monte grupos para mobilizar seus familiares, amigos e pessoas mais próximas.

11. Cobre dos políticos
Exija de partidos, candidatos e governantes propostas e ações que viabilizem e aprofundem a prática de consumo consciente.

12. Reflita sobre seus valores
Avalie, constantemente, os princípios que guiam suas escolhas e seus hábitos de consumo.

Fonte: Instituto Akatu – Consumo consciente para um futuro sustentável

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