Crescimento pessoal

30/10/2018 09h30

A linguagem da vida

Entregue-se de coração à comunicação ‘não-violenta’ e transforme conflitos em conexão e parceria!

Por Elisa Dorigon

Acervo Pessoal
Capa nov ist 9875 05963

A prática da Comunicação Não-Violenta, criada pelo psicólogo americano Marshall Rosemberg, pode ser uma boa alternativa na reformulação da maneira pela qual nos expressamos e ouvimos.

A forma como nos comunicamos em nossas relações pessoais e profissionais e o modo de como interagimos e nos manifestamos na sociedade parecem ser um dos grandes desafios do mundo moderno. Embora a tecnologia da comunicação tenha avançado de forma vertiginosa e, tornado acessível o contato instantâneo entre as pessoas, ainda encontramos muita dificuldade em entender e ser entendido. As redes sociais, criadas para aproximar as pessoas e ampliar a comunicação em sociedade, têm propagado discursos que, em sua maioria, perpetuam a violência e alimentam a agressividade.

A prática da Comunicação Não-Violenta, criada pelo psicólogo americano Marshall Rosemberg, pode ser uma boa alternativa na reformulação da maneira pela qual nos expressamos e ouvimos. A CNV, como é popularmente conhecida, considera que somos todos compassivos por natureza e que estratégias violentas, verbais ou físicas, são aprendidas, ensinadas e apoiadas pela cultura dominante. Segundo o psicólogo, todos temos necessidades humanas básicas e cada uma de nossas ações é apenas uma estratégia para atender, pelo menos, uma dessas necessidades.

 

ORIGENS

Desde cedo, Marshall questionou-se sobre o que leva o ser humano a se comportar de maneira violenta. Quando tinha nove anos, precisou ficar trancado três dias em casa com sua família por conta de um conflito racial que eclodiu na sua vizinhança, em Detroit, culminando na morte de 40 pessoas.   

Depois de formar-se em psicologia, começou a estudar os fatores que afetam a capacidade das pessoas de se manterem compassivas. Impressionou-se com o papel da linguagem e do uso das palavras e identificou uma abordagem específica da comunicação – falar e ouvir – ligando as pessoas ‘de uma certa maneira’ que permita o florescimento da compaixão. Desde então, passou a utilizar o termo não-violência na mesma acepção que lhe atribuía Gandhi.

Em seu livro Comunicação Não-Violenta – técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais, o autor diz que embora não consideremos violenta a forma de falarmos, nossas palavras, não raro, induzem à mágoa e à dor, seja para os outros ou para nós mesmos e define: “A CNV não tem nada de novo. O objetivo é nos lembrar do que já sabemos – de como nós, humanos, deveríamos nos relacionar uns com os outros – e nos ajudar a viver de modo que se manifeste, concretamente, esse conhecimento. De forma prática, escutamos nossas necessidades mais profundas e as dos outros também. É simples, mas profundamente transformador”.

 

O PROCESSO DA CNV E ONDE PODEMOS APLICAR

A Comunicação Não-Violenta baseia-se em quatro componentes:

1-  observação

2-  sentimento

3-  necessidades

4-  pedido

Primeiramente, observamos a situação, sem julgamento ou avaliação. Em seguida, identificamos como nos sentimos ao observar aquela situação: magoados, assustados, alegres ou irritados. Em terceiro lugar, reconhecemos quais necessidades estão ligadas aos sentimentos que identificamos. Só, então, usamos a CNV para expressar claramente como estamos e o que queremos pedir. A comunicação consiste em receber as mesmas quatro informações das outras pessoas.

Segundo Marshall, à medida que mantivermos nossa atenção concentrada nessas áreas e ajudarmos os outros a fazerem o mesmo, um fluxo de comunicação se estabelece em ambos os lados, até a compaixão se manifestar naturalmente.

A CNV pode ser usada por nós mesmos, com outra pessoa ou com um grupo. Sua abordagem se aplica a todos os níveis de comunicação em diversas situações:

- relacionamentos íntimos

-  famílias

- escolas

- instituições

- terapia e aconselhamento

- negociações diplomáticas e comerciais

- disputas e conflitos de qualquer natureza.

 

UMA PRÁTICA PROFUNDA

Jader Mendes conheceu a Comunicação Não-Violenta há quatro anos, quando passava por uma grande crise emocional. Participou de um evento com Dominic Barter - cientista social inglês que, desde 1995 atua no Brasil com círculos restaurativos e, desde 2003 promove a comunicação não-violenta (CNV). Começou a ler o livro do Marshall e conhecer a profundidade do método que o ajudou a conseguir lidar com a situação. Desde então, a CNV é a base de sua prática espiritual.

“Comecei a olhar com mais clareza para minhas próprias questões de maneira auto-acolhedora e com maior aceitação. Neste processo, muita coisa foi se transformando dentro de mim e muitas dificuldades que eu achava que não conseguiria mudar, com a prática de me escutar, fui desbloqueando. Naturalmente, quando você muda por dentro, toda a sua vida muda: as relações com as pessoas, com a família e sua postura diante do mundo. É na verdade uma experiência mágica e difícil de descrever. Até a forma congelada que olhamos para a realidade muda. A CNV nos traz o aspecto criativo e devolve nossa capacidade de abertura para construir as coisas em uma direção diferente”, explica Jader.

Há um ano, Jader facilitou seu primeiro trabalho em Comunicação Não-Violenta dentro de uma Escola Municipal na Lomba do Pinheiro e, recentemente, passou a oferecer grupos de prática em Porto Alegre. “Como facilitador, tem sido uma experiência rica de crescimento, além de bastante desafiadora. Não é fácil lidar com as questões emocionais e sutis das pessoas. Exige muita sensibilidade, mas vale a pena! O objetivo dos grupos é que as pessoas possam, verdadeiramente, colocar em prática os princípios da CNV, promovendo transformações em suas vidas, desenvolvendo a empatia e interagindo consigo e com os outros de forma mais humana e menos agressiva em todos os âmbitos. Além de terem um aspecto curativo e de acolhimento, os grupos nos fortalecem enquanto um sistema de apoio, para que possamos nos empoderarmos e, caminharmos juntos rumo às transformações que queremos promover na sociedade”.

Em abril de 2015, impossibilitada de matricular-se na graduação em Psicologia, Karen Mello decidiu aproveitar da melhor maneira o semestre, já que não poderia estudar. Foi em um grupo de Yoga que conheceu o facilitador de CNV, Tiago Bueno. Na hora, identificou-se: “Queria e precisava daquilo, pois sempre me considerei e fui considerada uma pessoa agressiva com as palavras e já tinha reparado nas consequências de tudo isso. Eu queria ser menos violenta com minhas palavras”, relata.

Karen conta que encontrou no grupo um sentimento de pertencimento e autoaceitação. Como estava com bastante tempo livre, frequentava grupos até três vezes por semana: “No início pensei que seria algo para me modificar, até perceber que foi o contrário. Com a CNV descobri quem eu sou. Constatei emoções como raiva, tristeza, medo, insegurança e procurei saber de onde elas vinham. Adquiri liberdade e reponsabilidade pela minha própria felicidade. Minhas relações se tornaram mais autênticas, livres e com menos dependência, sem culpar os outros pelo que eu sentia”.

Hoje, Karen trabalha com práticas regulares e abertas de CNV, proporcionando aos outros a experiência positiva e transformadora que ela própria vivenciou. Os grupos atuam na forma de corresponsabilização financeira, ou seja, sem um investimento fixo.  Os gastos envolvidos para que o evento aconteça são compartilhados, assumindo, assim, um caráter mais inclusivo e atingindo um número maior de pessoas.   

 

 

CNV E A EDUCAÇÃO

Em virtude dos índices de violência terem se tornado insustentáveis dentro das instituições de ensino, Jader Mendes foi procurado pela equipe diretiva de uma escola para ajudar a lidar com esta questão e desenvolver, entre todos os integrantes, uma cultura de paz.

“O resultado é que hoje temos um grupo de práticas de CNV para os professores e muitos já mudaram bastante a forma como dão suas aulas. As crianças estão correspondendo melhor afetivamente e de maneira criativa. Também já realizamos rodas de escuta e sonhos coletivos com professores e funcionários. Agora, estamos nos preparando para ouvir os pais e alunos traçando, assim, um grande mapa de necessidades da escola. A ideia é que possamos reavaliar o modelo tradicional da educação e construirmos coletivamente uma escola baseada em valores humanos, como a compaixão e a solidariedade”, esclarece o facilitador.

Usar o princípio da comunicação não violenta não é uma tarefa fácil.  Esta prática depende de disposição, de um desejo de melhorar a si próprio e as nossas relações. É um exercício profundo e de grande potencialidade de transformação pessoal e social. Vale a pena conhecer e praticar!

 

 

X