Família

06/03/2014 17h13

Excesso de atividades deixa crianças estressadas

Especialistas recomendam moderação nos projetos extra-curriculares

Por Nosso Bem Estar

MATKA WARIATKA/ ISTOCKPHOTO/ NBE
Crian%c3%a7as estresse

Ter tempo livre para brincar é fundamental para a saúde dos pequenos

Manter-se ocupado é realmente importante, inclusive para as crianças. Ter obrigações resulta em disciplina, em capacidade de administrar tempo, em flexibilidade e em socialização. Mas excesso de atividades não combina com o universo infantil. A prática pode resultar na perda de concentração e comprometer o aprendizado. Em casos mais graves, o estresse pode se transformar em até mesmo numa depressão.

Cursos de idiomas, balé, futebol, natação, judô, música, teatro... Cada vez há mais atividades extracurriculares para estimular os pequenos. Além de não deixarem os filhos na ociosidade, os pais apostam em sua formação, pensando no seu futuro. Quanto mais atividades, mais chances de se dar bem na vida. Será que é assim mesmo ou a criança precisa de tempo para brincar?

Hoje muitas pesquisas apontam que crianças com excesso de atividades tornam-se adultos estressados e ansiosos. Segundo Julie Robinson, especialista em educação infantil, o tédio não é tão mau quanto os pais possam pensar. Ele pode inclusive preparar as crianças para os momentos mais aborrecidos que terão na vida adulta, assim como ajudá-las a desenvolver a sua independência.

Há ainda a necessidade de se prestar atenção no tempo que passam usando computadores. Com novos amigos, e até com algum sofrimento ocasional, as crianças aprendem a criar empatia e a dominar melhor ferramentas de comunicação. E essas características também são interessantes para o mercado de trabalho.

Tempo livre para brincar

A presidente da Associação Nacional de Psicopedagogia, Maria Irene Maluf, defende um limite de atividades para crianças. "O mais importante para a criança é brincar, em segundo lugar vem a educação formal", afirma. Ultimamente a garotada tem assumido mais compromissos do que pode suportar.

O ser humano atual acumula inúmeras funções, principalmente a partir dos 18 anos. Isso não significa que a criança já precisa testar uma vida corrida. A brincadeira é a maneira como os pequenos vivenciam o seu cotidiano. Eles precisam desse tempo para aprender a enfrentar desafios lidando com as conquistas e derrotas, discutir regras e limites para uma determinada brincadeira, facilitando a socialização, os vínculos e desenvolvendo a inteligência.

Até os dois anos de idade, todos precisam brincar muito. A partir daí, algumas rotinas devem ser impostas. Mas é a partir dos seis anos que as tarefas escolares aumentam. É preciso ter hora para a lição de casa, para a atividade extra e para brincar.

Alerta para os pais

O excesso pode ser observado quando a criança começa a reclamar das atividades que está executando. A agenda lotada do pequeno muitas vezes reflete atitude agressiva, irritação, desatenção, ansiedade, impaciência e dificuldade de relacionamento interpessoal.

As atividades extras são importantes, sem dúvida, mas não devem ser colocadas como obrigações. As crianças precisam ter afinidades e gostarem das atividades que estão fazendo. A carga horária pode aumentar de acordo com a idade das crianças.

Quanto mais velha for, maior essa carga horária poderá ser. Sem esquecer que, como os adultos, cada criança tem seu pique. Duas crianças da mesma idade podem agüentar ritmos bem diferentes de atividades.

Problema de gente grande

Uma criança estressada pode apresentar sintomas físicos como enxaqueca, dor de barriga sem causa aparente, diarréia, náusea, enurese (faz xixi na cama à noite), ranger de dentes, falta de apetite entre outros. Caso esses sintomas apareçam, é melhor procurar o pediatra ou até mesmo uma ajuda psicológica.

De acordo com a psicóloga Márcia Ferreira são sintomas do estresse infantil: pesadelos e choros à noite, ansiedade, medos diversos, choro excessivo sem motivo justificado e isolamento. “Ou seja, ficam hipersensíveis a tudo", resume.

Esse estresse decorre também da competitividade que surge na criança, que quer se sobressair na escola ou nos círculos de amigos. "Além da cobrança dos pais, no mundo hi-tech que exige velocidade em tudo, elas também se cobram muito".

Conforme a experiência de Márcia, mesmo ouvindo do profissional que seu filho está com estresse, os pais têm dificuldade de entender e até de aceitar o fato, considerando que pode ser um problema passageiro. "Se não for tratado a tempo, o estresse pode se transformar em depressão infantil e ambos caminham juntos", conta.

Sintomas da depressão infantil

A depressão na criança nem sempre se caracteriza por tristeza. Muitas vezes, pode surgir com alterações bruscas de humor - alternância entre tristeza e euforia - daí a designação da depressão infantil como um transtorno de humor. "Esse transtorno compromete o desenvolvimento, interferindo no processo de maturidade psicológica e social".

Os sintomas clássicos da depressão infantil são: ansiedade, tristeza, irritabilidade, agressividade, hiperatividade, rebeldia, perda de interesse nas atividades, diminuição da atenção e da concentração, baixa autoestima e sentimento de inferioridade. Insônia e falta de energia para qualquer atividade, além de pessimismo e negativismo, também podem estar presentes.

Liberdade de escolha

Uma forma de evitar o estresse e a depressão infantil é respeitar a opinião da criança e permitir-lhe escolher as atividades. Mesmo que mude de ideia depois, como faz um adulto. "Ela pode experimentar coisas que depois vai descobrir que não gosta. E não pode virar depositária de situações e afazeres que seus pais não puderam ter na infância", sugere.

Fontes: Blog Criança é Vida – www.vidaecrianca.blogspot.com.br, Guia do Bebê - www.guiadobebe.com.br, Alô Bebê - www.alobebe.com.br, Associação Brasileira de Psiquiatria – www.abp.org.br

X