Família

06/06/2018 09h30

A dois no divã

Conheça a história de pessoas que buscaram a terapia de casal para resolver conflitos, melhorar a convivência e, até mesmo, criar coragem para terminar a relação e seguir em frente!

Por Nanda Barreto

Pxhere | Pixabay
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Uma divergência aqui, uma “vingancinha” ali, um nariz torto acolá. Das pequenas implicâncias cotidianas ao abismo da mágoa silenciada, os desafios são inerentes ao relacionamento afetivo.

Uma divergência aqui, uma “vingancinha” ali, um nariz torto acolá. Das pequenas implicâncias cotidianas ao abismo da mágoa silenciada, os desafios são inerentes ao relacionamento afetivo. O casal, no entanto, nem sempre está preparado para lidar com os desentendimentos que vão surgindo. Mesmo com o desejo de seguir juntos, os amantes se deparam com limites e inabilidades para colocar o amor em prática. Nestas horas, buscar ajuda especializada pode ser uma boa estratégia. Não para manter a relação a qualquer custo, mas para cuidar da saúde emocional de cada indivíduo.

A terapeuta Edna Corral, 59, trabalha com casais há mais de 20 anos. De acordo com ela, a finalidade da terapia é ajudar a resolver conflitos. "O terapeuta faz uma escuta do casal, auxiliando na busca de diferentes maneiras de se comunicar, de ouvir e ser ouvido pelo outro, enquanto ambos demonstram suas insatisfações. É importante que um compreenda como o outro pensa e sente, mesmo que não aceite, e, desta maneira vão tomando consciência da responsabilidade de cada um na relação, tanto na construção dos problemas quanto na resolução destes. Assim, o casal vai conhecendo possibilidades desta relação e poderá decidir pela manutenção ou pela separação", explica.

São inúmeros os motivos que podem levar o casal ao divã. "O casal pode se distanciar em função das brigas ou por não conseguirem falar sobre o que está acontecendo. Problemas, por exemplo, quanto à sexualidade ou com relação a ciúmes, por vezes, são difíceis de serem tratados pelo casal sem uma ajuda psicológica. O mesmo acontece quando se trata de problemas relacionados à infidelidade. São muitas as questões que podem gerar dificuldades na vida do casal e quando percebem que não estão co5nseguindo resolver sozinhos é o momento de buscar terapia."

A terapeuta destaca que existem muitos recursos que o próprio casal pode utilizar quando estiver diante de um conflito. "Além de conversarem sobre o que está ocorrendo, se dispondo a escutar um ao outro e, assim, chegarem a acordos sobre outras maneiras de lidarem com as situações conflituosas, é bom buscar artigos, livros sobre o assunto, conversar com amigos íntimos para uma troca de ideias e experiências. Também é válido evitar de falar para muitas pessoas sobre as dificuldades, pois isso pode trazer um novo obstáculo. Essa situação gera o constrangimento de ficarem bem depois de terem exposto tanto suas fragilidades", recomenda.

Novo fôlego

Na vida da jornalista brasiliense Débora Cruz, 37, a terapia de casal chegou em um momento de separação. "Eu estava casada há 5 anos e descobri uma traição. Me separei e ele sugeriu que a gente tentasse uma reaproximação, como forma de retomar o casamento. Utilizamos todos os recursos que tínhamos, inclusive a terapia de casal. Também mudamos de casa, fizemos viagens, e tivemos infinitas conversas sem auxílio profissional", relembra.

A terapia durou três meses e o casamento ganhou um pequeno fôlego. "No consultório, tivemos muitas conversas, dinâmicas e brincadeiras. Acabamos nos separando um ano e meio depois, mas guardo deste momento o resgate do carinho, do olhar, de perceber o outro com suas fragilidades, defeitos e qualidades. Entendi que a vida a dois pode ser dura, difícil, mas que precisa ser discutida todos os dias. Aprendi que em um relacionamento não dá para guardar mágoas, que a solidão do seu travesseiro vai te distanciando do companheiro que você escolheu para dividir a vida contigo, dentre tantas outras lições", ressalta.

Outro olhar para o mesmo sentir

O advogado Julio Monteiro*, 27, encontrou acolhimento e compreensão na terapia conjunta. Ele e o namorado buscaram ajuda profissional por recomendação de suas terapeutas individuais. "Fomos para o consultório nos dois momentos em que mais cogitamos terminar o relacionamento. A terapia de casal foi uma recomendação das nossas terapeutas. Eu estava trabalhando nas minhas coisas, ele estava trabalhando nas coisas dele, mas havia desafios que eram nossos, que não adiantava trabalhar pessoalmente. Foi importante buscar a mediação de uma terceira pessoa".

Os conflitos que Julio e o companheiro viviam estavam relacionados, principalmente, aos desejos que cada um sentia e às formas de tratamento. "Eu achava que o Artur* era muito grosseiro comigo. Além disso, ele tinha uma demanda de abertura do relacionamento que eu não estava conseguindo lidar. Apesar de eu já ter provocado a abertura do relacionamento, ficando com outras pessoas fora da nossa combinação, eu não me sentia preparado para isso naquele momento", relembra.

"O maior aprendizado que ficou para mim desta experiência é a ideia de que eu não era um louco. Meu companheiro tinha uma visão sobre mim, sobre as coisas que eu falava, como se fossem coisas absurdas, mas eram coisas absurdas dentro da lógica de mundo dele. Quando a terapeuta, que era uma pessoa que não estava habituada ao nosso relacionamento, via a situação, ela achava as minhas demandas e as minhas questões absolutamente normais. Então, a principal lembrança é que eu passei a dar mais credibilidade para o que eu estava sentindo", pontua Julio.

Maturidade a dois

A dona de casa Luzia Correa*, 61, costuma dizer que não foi ela e o marido que buscaram a terapia. Foi a terapia que os buscou. Ela explica: "Começamos a fazer terapia familiar em consequência de problemas com os nossos filhos. Fizemos em 2002 e 2003. Em 2009, depois de mais problemas com os filhos, retomamos com outro terapeuta. Após um período de terapia familiar ele acabou ficando só conosco. Já estávamos juntos há quase 30 anos e tínhamos 4 filhos adolescentes na época. Esta experiência nos ajudou muito".

Luzia conta que a terapia levou à solução de pequenos conflitos diários. "Sempre tentamos a famosa D.R. (discussão da relação) apenas entre nós. Nossos problemas, geralmente, estiveram relacionados à divergência de pensamentos, quanto à educação dos filhos, a manutenção da casa, o relacionamento com os demais familiares etc. Nesta caminhada, tive dias de muito choro e desânimo e dias de sentir que eu realmente estava no caminho certo e de que valia a pena. Hoje, olhando para trás, posso dizer que aprendi muito. Eu recomendo para todos, não apenas para jovens casais, mas, também, para casados há muito tempo e, até mesmo, casais idosos".

Edna Corral ressalta que as questões levadas para a terapia dependem bastante do ciclo vital do casal. "Pode ser que eles estejam recém se conhecendo e fazendo os acertos sobre a relação, vivenciando a maternidade e paternidade pela primeira vez ou no momento da aposentadoria. Enfim, cada momento traz questões diferentes. Além disso, ciúme, infidelidade, problemas com relação à sexualidade, intimidade, dificuldades na comunicação, problemas com a família de origem, finanças, dificuldade de individualidade dentro da conjugalidade são algumas das insatisfações mais comuns", detalha a terapeuta, que também coordena o Domus-Centro de Terapia individual, de Casal e Família, que é uma escola de formação de terapeutas na capital gaúcha.

Menos expectativas, mais autoconhecimento

Como acontece com muitas pessoas, foi só quando o relacionamento do analista de sistemas Lucas Santos, 37, estava em pé de guerra, que ele resolveu buscar ajuda. Naquele momento, a terapia representava a última chance de fazer o casamento dar certo. "Estávamos juntos há quatro anos e, nessa época, brigamos muito, discutíamos por qualquer coisa, inclusive, por coisas simples, como por exemplo, cuidar da casa. O casamento estava acabando. Eu tomei a iniciativa de procurar uma terapia de casal, que soube que funcionava por matérias jornalísticas e também leituras de blogs de pessoas que já haviam procurado esse tipo de terapia. Fizemos por 1 ano mais ou menos".

No meio do trabalho terapêutico, a ex-esposa de Lucas engravidou. "Não tínhamos filhos, o que trouxe mais urgência e pressão para que as sessões fizessem efeito positivo. Tínhamos o compromisso de uma sessão por semana, e, às vezes, apenas um de nós participava, de forma que a maioria das sessões era do casal juntos", conta o baiano que adotou Porto Alegre como lar.

Embora o casamento não tenha durado mais, Lucas carrega grandes aprendizados. "Na terapia, eu percebi o porquê eu era infeliz naquele relacionamento e que os relacionamentos não devem se nivelar por baixo. É viável sim ter um relacionamento construtivo, mas é preciso cultivá-lo dia a dia. Infelizmente o casamento não deu certo, mas a terapia foi muito importante para conscientizar o casal do que cada um buscava no parceiro e se essa expectativa era realista. Nossas vidas seguiram adiante e, hoje, temos uma linda filha para criar. Não somos amigos, mas passados já quatro anos de separados, mantemos uma relação de respeito".

Otimista em relação ao amor, atualmente, Lucas está no segundo casamento e não tem receio de dizer que cogita fazer terapia de casal novamente. "Desta vez, pretendo buscar ajuda bem antes do ponto crítico. Ainda não desisti da relação monogâmica tradicional. Entendi que a terapia serve para que os amantes tomem consciência do relacionamento em suas mais variadas camadas e nuances. Eu gostei muito da parte didática que ajudou a melhorar a divisão das atividades diárias da casa, e, também, de colocar as coisas para fora de forma mediada, sem cair na discussão exaltada sem limites".

Desenhar acordos

Embora quase todas as experiências contadas aqui mostrem o contrário, a terapeuta Edna Corral garante que é comum a terapia de casal não terminar em divórcio. "O objetivo da terapia de casal não é nem que o casal separe, nem que permaneça junto. O mito de que a terapia de casal é para a separação, talvez, tenha se formado em um momento em que não era muito comum este tipo de terapia. Nesses casos, os casais relutavam em buscar ajuda e quando o faziam a relação já estava desgastada demais, com muitas mágoas, para ser mantida", explica.

Edna conta que, atualmente, recebe no seu consultório muitos casais interessados em se desenvolver juntos, que visam criar ou redesenhar seus acordos, absorvendo as necessidades e interesses de ambos. "São casais que buscam ajuda para definir seu “contrato” de relação antes do casamento, ou seja, as maneiras de como vão lidar com diferentes assuntos da vida cotidiana do casal, como: as questões domésticas, financeiras, monogamia ou não, entre outras questões".

 

 

"Na terapia, entendi que a vida a dois pode ser dura, difícil, mas que precisa ser discutida todos os dias. Aprendi que em um relacionamento não dá para guardar mágoas, que a solidão do seu travesseiro vai te distanciando do companheiro que você escolheu para dividir a vida contigo".

 Débora Cruz, 37, jornalista

 

"Atualmente, recebo no consultório muitos casais que buscam ajuda para definir seu “contrato” de relação antes do casamento, ou seja, as maneiras de como vão lidar com diferentes assuntos da vida cotidiana, como as questões domésticas, financeiras, monogamia ou não, entre outras".

Edna Corral, 57, terapeuta
 

 

"A principal lembrança da terapia de casal para mim é que eu passei a dar mais credibilidade ao que eu estava sentindo no momento. Tinha uma pessoa que estava conhecendo a gente mais profundamente e ela não tirava o crédito daquilo que eu falava"

Julio Monteiro, 27, advogado

 

"Eu gostei muito da parte didática da terapia. Ela ajudou a melhorar a divisão das atividades diárias da casa e também de colocar as coisas para fora de forma mediada, sem cair na discussão sem limites"

Lucas Santos, 37, analista de sistemas

 

Já estávamos juntos há quase 30 anos e tínhamos 4 filhos adolescentes na época. Hoje, olhando para trás, posso dizer que aprendi muito. Eu recomendo para todos, não apenas para jovens casais, mas também para casados há muito tempo e, até mesmo, casais idosos"

Luzia Correa, 61, dona de casa

 

* Nomes fictícios utilizados a pedido dos entrevistados.

 

Nanda Barreto é jornalista, instrutora de yoga e focalizadora de danças circulares sagradas.

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