Família

03/05/2018 09h30

Adolescentes - Espaço Para Crescer

O quarto do adolescente é uma metáfora de seu mundo e de suas inquietações. Quando se tranca, busca um lugar seguro para compreender melhor a realidade. Ensinar-lhe o valor da privacidade requer muita comunicação.

Por Nosso Bem Estar

Edu Castello/ Editora Globo
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O quarto do adolescente é uma metáfora de seu mundo e de suas inquietações.

 O quarto do adolescente é uma metáfora de seu mundo e de suas inquietações. Quando se tranca, busca um lugar seguro para compreender melhor a realidade. Ensinar-lhe o valor da privacidade requer muita comunicação.

Numa etapa marcada por rebeldias, incertezas e descobertas, os jovens entre 12 e 18 anos consideram seu quarto um lugar sagrado. Alguns trancam a porta com chave, outros penduram uma placa “Proibida a entrada”, e a maioria se refugia ali por horas, permitindo o acesso somente de seus amigos. Essa busca de privacidade tem um profundo significado emocional. Parece simplesmente um lugar físico, mas o quarto é um espaço simbólico que eles necessitam para construir sua identidade e testar sua emancipação naquele ambiente. Além de proporcionar segurança, marca o início de uma etapa para os pais, pois constitui uma oportunidade para estabelecer acordos familiares e para ensinar-lhes valores como a responsabilidade e a solidariedade.

 

CONFINAMENTO VALIOSO

O psicólogo Sérgio Candela explica que no contexto social atual, o quarto dos adolescentes constitui seu “pequeno mundo”. “Os adolescentes não são donos de nada, como a casa é dos pais e a escola da comunidade, se agarram nas poucas coisas que são suas, entre elas o quarto. Eles têm um forte sentido de pertencimento, e contar com seu próprio espaço lhes proporciona um refúgio para repousar, explorar ou refletir sobre si mesmos”, assegura.

Já a psicoterapeuta Gioconda Colmenares destaca que, evolutivamente, o ser humano passa de uma socialização intensa, na infância, à busca de uma intimidade quando adulto. Os adolescentes estão exatamente nessa transição: descobrindo-se como pessoas independentes. “É uma etapa de rituais de iniciação. O quarto é tido como o templo onde começam os processos necessários para o desenvolvimento da identidade.”

 

CRESCER NA INTIMIDADE

Uma ‘festa do pijama’ com as amigas ou passar a noite com os amigos são momentos que favorecem o crescimento emocional porque acontecem num espaço onde podem se expressar com espontaneidade. Apesar de muitos pais ficarem horrorizados com a bagunça do quarto de seus filhos adolescentes - enorme quantidade de objetos jogados no chão, da parede até o teto -, eles devem respeitar sua intimidade.

“Os adolescentes vivem um momento de grande confusão: o corpo está modificando, os amigos são cada vez mais importantes, se apaixonam pela primeira vez, têm dúvidas sobre aceitação e são muito sensíveis a qualquer comentário. Toda essa odisseia é mais assimilada nesse espaço privado”, acrescenta Gioconda. Em seu quarto, podem se distanciar dos adultos. Gioconda aponta que fecham as portas para que não entrem nem as pessoas nem as críticas: “Isso lhes permite conhecer suas necessidades, avaliar as possibilidades, decidir o que querem ser. Essa privacidade ajuda a lidar com a ansiedade de crescer”.

 

MOMENTO DE OURO

Dar um quarto para o adolescente também é uma oportunidade para educar. Os especialistas destacam que além de ser importante para o crescimento emocional, os pais podem transformar a experiência em aprendizagem. “Ao oferecer um quarto e ensiná-los a manter a ordem, se beneficiam duplamente. O tema é propício para trabalhar a empatia, a solidariedade e a responsabilidade, valores que se devem aprender em casa, pois é o primeiro lugar de socialização do indivíduo”, afirma Sergio Candela.

Ele sugere dizer sempre que a casa é dos pais e que os jovens fazem uso dela. Essa ideia permite que a valorizem e aprendam a mantê-la. “Os adolescentes não param para pensar que os pais estão ocupados para arrumarem sua ‘desordem’, e que essa tarefa cabe a ele. Nessa idade, costumam ser pouco receptivos, por isso é preciso ensiná-los. Se não querem que ninguém entre, pode-se aceitar, sob a condição de que mantenham o quarto limpo e em ordem”, aconselha. Ressalva que o mais importante é estabelecer normas.

 

ISOLAMENTO CONTROLADO

Embora os adolescentes geralmente fiquem muito tempo trancados, e é preciso respeitá-los, os pais devem criar um clima agradável para que queiram compartilhar momentos com a família. “O fato de passarem muito tempo no quarto também dependerá do clima que existe na casa”, aponta Sergio Candela. E acrescenta que o estabelecimento de limites a respeito do quarto se consegue num ambiente democrático, ou seja, de comum acordo. “Eles irão cumprir as ordens se tiverem participado do processo de negociação. Se acreditarem que nada será imposto, estarão mais abertos para expressar seus sentimentos e ficarão menos inclinados a se fechar.” Se o adolescente sente que tem apoio e pode se aproximar de seus pais, passará menos tempo isolado.

 

BATER ANTES DE ENTRAR

Um dilema de muitos pais é se devem ou não entrar no quarto do adolescente, se devem entrar quando estiver ausente e em que circunstância. Os terapeutas concordam que, por regra geral, é preciso sempre bater na porta antes de entrar. Mas, é preciso observar a atitude do jovem e analisar a situação. Se há alguma suspeita de que possa estar escondendo alguma coisa, é importante verificar. “Em casos extremos, a intervenção deve ser feita o quanto antes. A primeira opção é consultá-lo para promover a comunicação e a confiança, mas sem se esquecer que são jovens e que precisam de apoio nos momentos de dificuldade”, explica Candela.

Mais importante que entrar ou não no quarto, é os pais entenderem que o distanciamento não é algo pessoal com eles. “Se compreendem o processo que vivem os filhos, poderão aproveitar quando se aproximarem para falar. Esse encontro é muito importante para os jovens”, diz Gioconda.

Outra inquietação dos pais é quando há vários adolescentes em casa e se devem compartilhar o quarto. O melhor é perguntar a eles. “Se tiverem que dividir, buscarão a maneira de ter seus espaços para desfrutar dos momentos de solidão”, explica Candela. Acrescenta ainda, que os irmãos podem estar no mesmo quarto, desde que haja regras. Isso não compromete seu bom desenvolvimento físico e emocional.

Publicado na revista PSYCHOLOGIES

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