Crescimento pessoal

24/10/2013 09h54

Os mantras como instrumento da mente

Conheça o que signifcam os sons, os diversos tipos e suas características

Por Pedro Kupfer, professor de Yoga

DIVULGAÇÃO/NBE
Om

Há diversos tipos de mantra, dependendo da maneira em que olharmos para eles ou da forma em que os classificamos. No contexto da cultura védica, mantras são textos metrifi cados que aparecem na primeira seção dos quatro Vedas: Rg, Sama, Yajur e Athārva. Esses mantras são complementados pelos Brahmānas, textos em prosa que figuram na segunda seção desses śāstras. Porém, nessa segunda seção dos Vedas encontramos ainda textos metrificados, as Upanisads, que também devem ser considerados mantras.

Os mantras são “traduções” da manifestação inteligente presente na criação, que chamamos Īśvara. Nas Upanisads, o próprio mantra On, por exemplo, é considerado uma espécie de símbolo sonoro, de “corpo” em forma de som de Īśvara, o criador. Literalmente, mantra signifi ca “instrumento do pensamento”. Os sons mântricos são o melhor instrumento para purificar a mente e praticar o nididhyāsanam. Mas cabe lembrar que a repetição de um som não é um fim em si mesmo: ela se faz em função do resultado: estabilidade do pensamento e reflexão sobre a identidade real.

Se nos observarmos no dia a dia iremos reparar que em muitos momentos ficamos sob tensão, com a consciência atenta apenas ao exterior e ainda com um diálogo interior, um ruído constante na mente, como um rádio que não desliga. Esse ruído de fundo forma a paisagem interior, o substrato das nossas experiências mentais. Não é possível mudarmos essa paisagem apenas querendo calar a mente no grito: precisamos usar a ferramenta adequada.

Os mantras nos ensinam a separar-nos das experiências e influências externas, nos levam para o silêncio e nos abrem o espaço interior. Eles predispõem a mente para meditar e nos conectam, através da reflexão em seus significados, com nossa verdadeira identidade.

O Yoga utiliza diferentes fórmulas para conduzir a mente a um estado de tranquilidade, o que lhe permite perceber a si mesmo como profunda calma, śāntah. Porém, é preciso igualmente prestar atenção ao significado desses sons. Esses significados variam, assim como as formas mas todos apontam para a mesma realidade: Brahman, o Ser ilimitado. Cada mantra revela um dos diferentes aspectos de Brahman, nas formas do universo manifestado.

ABC dos Mantras

BHAJAN: canção devocional hindu. O nome bhajan está associado ao bhakti, à devoção popular. Exemplos: os poemas de Kabir, Mirabai ou Tulsidas, cantados especialmente em festivais religiosos como o navaratrī, a festividade das nove noites dedicadas a Devī.

BIJAMANTRA: um som “semente”, também chamado matrikā, “mãezinha”, associado aos diferentes aspectos da manifestação de Īśvara, os devatās. Há treze bījas primários, cada um deles associado a um devatā. Por exemplo, o bīja Aim é associado a Sarasvatī, Dum é associado a Durgā, Gam a Ganeśa, etc. Existem ainda, no Yoga tántrico, outros bījamantras que estão associados aos sete principais chakras ao longo da coluna vertebral: Lam, Vam, Ram, etc.

JAPA: repetição de um mantra, frequentemente usando um mālā ou colar de 108 contas para a recitação de um mantra transmitido no momento da iniciação (dīksa) por um guru. Outra forma de meditação muito popular é a chamada japanamah, na qual se repetem os nomes das manifestações de Īśvara, como Om namah Śivāya, Om namo Narayanāya, Om Gam Ganapataye namah, e o conhecido mahamantra, entre outros.

KIRTANA OU SANKIRTANA: repetição de um mantra em grupo, em forma de pergunta e resposta, acompanhado de melodia e instrumentos musicais. Para fazer kīrtana também são usados os japanamas mencionados anteriormente.

PATHA: forma recitação dos hinos védicos dentro da tradição oral śrauta, associada ao Śrutih. Essa recitação se faz de acordo com regras mnemónicas e de pronunciação bem estritas, assim como acompanhado por três variações no tom: udātta, “elevado”, que é o tom mais agudo, anudātta “não elevado”, que é o tom mais grave, e svarīta , “soado”, que é o intermediário. Há ainda outro som nighada, que é a prolongação da nota elevada. Exemplos, os śāntipathas das Upanisads: sahanāvavatu, pūrnamadah, etc.

SLOKA: verso metrificado. Um śloka da Bhagavadgītā ou das Upanisads, por exemplo, pode ser repetido à guisa de meditação.

STOTRAM: hino de louvor dirigido a um devattā, uma deidade. Exemplos: Gangāstotram, hino à deusa Gangā, devattā do rio sagrado Ganges e o Daksinamūrtistotram, em louvor a Daksinamūrti.

Sobre o Japa

O japa é uma disciplina meditativa na qual repetimos um mantra. Essa repetição pode ser feita em voz alta (vaikhārī), na forma de um murmúrio (upamsu), ou mentalmente (manasa), sendo a segunda mais potente que a primeira, e a terceira mais potente que ambas. Outra maneira de fazer japa é escrevendo o mantra repetidas vezes (likhita japa).

O japa tem a virtude de nos dar foco e atentividade. Ao fazermos concentração num devattā, numa deidade, o pensamento flui em direção a ela e, naturalmente, as emoções e pensamentos se acalmam. Isso, por sua vez, nos permite compreender a nossa real identidade. Ensina Swāmi Dayānanda: “na prática de japa quebramos a associação livre dos pensamentos. Como o estímulo mântrico é sempre uniforme, fica fácil evitar a dispersão natural que tende a acontecer noutras situações”. 

Swāmiji explica aqui que, através da prática de repetição de um mantra, aprendemos a estabelecer o comando sobre o pensamento. Essa aquisição do comando sobre a mente acontece da seguinte maneira: ao repetirmos um mantra sucessivas vezes, conseguimos estabelecer, de antemão, qual será nosso próximo pensamento. Desta forma, adquirimos o comando sobre a mente, no sentido de que ela fica mais disciplinada e assim, podemos evitar distrações e conteúdos indesejáveis. Desta forma, o praticante fica em calma e consegue que a sua própria mente se torne um aliado no processo do crescimento interior.

Fonte: www.yoga.pro.br / Jornal Bem Estar

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