Família

01/02/2018 06h30

Chega de papinha

Conversamos com a britânica Gill Rapley, criadora do método BLW (Baby-Led Weaning), que estimula os bebês a mastigarem alimentos sólidos desde cedo e ainda decidirem, por conta própria, a melhor hora de desmamar!

Por Filipe Marcel

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BLW permite ao bebê guiar todo o processo, usando seus instintos e habilidades.

A transição que um bebê faz até deixar de se alimentar, exclusivamente, de leite materno é um processo que pode levar anos. No livro “BLW: o desmame guiado pelo bebê” (Ed. Timo, R$ 78), que acaba de chegar ao Brasil, a britânica Gill Rapley esmiúça a introdução alimentar desde o primeiro pedaço de comida sólida que o bebê ingere, a partir dos seis meses de vida, até os efeitos na infância e na fase adulta.

Enquanto que, na maior parte das famílias, o desmame é guiado pelos pais, que decidem quando e como seus bebês devem comer, o BLW permite ao bebê guiar todo o processo, usando seus instintos e habilidades. O método abre um mundo de boas possibilidades para o desenvolvimento da criança. Legumes, frutas e outros alimentos sólidos são oferecidos em pedaços, para que possam ser pegos com as mãos pelo bebê, estimulando desde cedo a sua autonomia. A autora acredita que, dessa forma, os pequenos passam a comer somente a quantidade que precisam, diminuindo as chances de desenvolver sobrepeso na infância.

Pra ficar fortinho

Ao contrário do que muita gente pensa, o BLW não é um método de alimentação baseado em receitas e, também, não se restringe ao ato de oferecer comida saudável apenas cortada em pedaços. Rapley destaca que o BLW é um processo alimentar que respeita o desenvolvimento e a autonomia do bebê. No entanto, alguns cuidados devem ser tomados. O método deve ser aplicado, somente, a partir dos seis meses, quando o amadurecimento do sistema digestivo está praticamente completo, além do amadurecimento físico e motor - aspectos extremamente necessários para essa nova etapa. Vale lembrar, ainda, que a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde indicam o leite materno, ou fórmula indicada por um pediatra, de maneira exclusiva até os seis meses de vida.

Na entrevista a seguir, Gill Rapley explica as origens do método BLW, as vantagens da alimentação em pedaços e revela o que mais chamou atenção durante sua passagem pelo Brasil, em novembro do ano passado.

Nosso Bem Estar - Qual é a importância da comida, especialmente, nessa fase da introdução alimentar?

Gill Rapley - As nossas atitudes, ao longo da vida, têm uma relação direta com a alimentação e vão muito além dos nossos gostos e desgostos. Esse comportamento tem suas origens no período da alimentação complementar, que começa quando os bebês começam gradualmente a adicionar alimentos sólidos à sua dieta, isso em torno de seis meses de idade. O BLW está justamente preocupado com a forma com que os alimentos complementares são oferecidos às crianças. Queremos que os bebês desfrutem de refeições familiares saudáveis, explorando e experimentando diversos alimentos, mas só começando a comer quando eles estiverem realmente prontos.

NBE - De que maneira o método BLW tem ajudado os bebês a se relacionarem melhor com o alimento?

GR - Eles decidem o que comer, o quão rápido e o quanto, além do tempo que irão trocar o leite pelos alimentos. Com o BLW, as refeições são oferecidas, mas a troca pela comida sólida depende do ritmo individual do bebê, sem pressão para cortar o leite. Além disso, os bebês não são forçados a continuar comendo depois de demonstrarem os sinais de saciedade, tampouco são persuadidos a comer alimentos específicos, nem receberem alimentos doces como recompensa pelo bom comportamento. Isso permite que as refeições sejam agradáveis ​​e levem ao desenvolvimento de uma relação saudável com alimentos e regulação do apetite de forma bastante natural.

NBE - E o que dizer em relação a outras formas de alimentar os bebês, como as papinhas, por exemplo, que são utilizadas pelos pais nessa fase de introdução alimentar?

GR - As pesquisas até agora mostraram que os bebês BLW são mais propensos, quando são crianças pequenas, a escolher alimentos saudáveis. Eles desfrutam de uma alimentação variada, além de não comerem mais do que aparentemente precisam. Também são mais suscetíveis a continuarem se amamentando por mais tempo. Tudo isso contribui para uma vida melhor. A amamentação prolongada, a experiência precoce com a mastigação e o compartilhamento de refeições familiares também contribuem bastante para o desenvolvimento natural do maxilar e das habilidades de fala e social.

NBE - Quais são as principais dúvidas dos pais em relação ao BLW?

GR - Há duas questões principais que os pais têm. Uma delas é: "será que meu bebê vai comer o suficiente?". Já a outra é: "ele pode se sufocar enquanto está comendo? ”. Em suma, sim, bebês comem o quanto eles precisam comer. E não, os bebês não estão mais propensos a se sufocarem com o método BLW em comparação com a alimentação feita com colher. Na verdade, as últimas pesquisas sugerem que o engasgamento pode ser menos provável em bebês BLW.

NBE - Como saber se o bebê comeu o suficiente?

GR - A questão dos bebês que comem "o suficiente" é um legado das décadas em que os pais foram encorajados a alimentar seus filhos com mais alimentos do que eles realmente precisavam. Essa prática enche o estômago da criança e tira espaço para o leite materno, que é algo muito mais nutritivo e que ajuda a prevenir doenças. As pesquisas mostraram que o leite materno ou a fórmula é a parte mais importante da dieta de um bebê até que ele tenha, aproximadamente, um ano de idade e indicaram que pode ser prejudicial reduzi-lo com muita rapidez. Com o BLW, os bebês continuam a ter o leite materno que desejam, aumentando gradualmente as quantidades de alimentos sólidos e reduzindo o consumo do leite materno, até cerca de nove meses de vida. Esse padrão é mais natural e permite que cada bebê construa sua alimentação dentro de um ritmo que seja mais adequado para ele.

NBE - O que você tem a dizer em relação ao sufocamento por alimento, como não confundi-lo com os reflexos naturais do bebê, também chamado de “gagging” no seu livro?

GR - O sufocamento é muitas vezes confundido com dois reflexos que realmente protegem o bebê de engasgar, que são o “gagging” (engasgo) e a própria tosse. Ambos os reflexos são comuns em bebês quando aprendem a comer e não são perigosos. As crianças podem gerenciá-los sem a necessidade de qualquer ajuda. O estrangulamento real é extremamente raro, seja qual for o método de alimentação, mas, como eu disse, as pesquisas mais recentes sugerem que é menos provável que isso aconteça quando os bebês se alimentam com as mãos.

NBE - Quando você decidiu criar o método BLW?

GR - Eu trabalhei como agente de saúde pública acompanhando pediatras e enfermeiras. Conheci muitos pais que achavam difícil a introdução de alimentos sólidos. Seus bebês se recusavam a ser alimentados com colher ou estavam dispostos a aceitar apenas alguns alimentos. Então, eu comecei a pesquisar esse fenômeno e aprendi que os bebês conseguem, de forma espontânea, pegar alimentos já com cerca de seis meses. Na minha pesquisa para PhD mostrei, justamente, que a alimentação com colher e a auto-alimentação são experiências muito diferentes para o bebê e que isso provavelmente afetará sua resposta quando forem oferecidos alimentos sólidos.

NBE - O que a fez acreditar neste método até o ponto de querer escrever um livro sobre ele?

GR - Quando você vê os bebês se juntarem com as refeições familiares, explorando os alimentos e, gradualmente, começando a mastigar e engolir, você pode ver claramente que é um estágio de desenvolvimento natural que não estava sendo aproveitado. Os pais que haviam alimentado suas crianças com o uso de colher e que depois tentaram BLW com um bebê mais novo ficaram, particularmente, impressionados. Eles realmente puderam ver os benefícios do BLW para o bebê e toda a sua família.

NBE - De uma forma geral, o que você acha mais fácil e difícil aplicar, especialmente, quando se trata de construir essa confiança dos pais?

GR - Alguns pais acham mais fácil confiar em seus bebês do que outros. Para muitos deles, é simplesmente um caso de se tornar mais seguro nas habilidades do bebê ao longo do tempo. O BLW nos permite confiar que o bebê comerá o suficiente e que ele realmente pode se alimentar. É, também, sobre respeitar as coisas que a criança ainda não pode fazer e entender que ela não precisa de ajuda. Por exemplo, colocar a comida na boca de um bebê não é uma boa ideia. Se ele ainda não conseguir colocar a própria comida na boca, ele provavelmente ainda não está pronto para mastigar ou digeri-la. As mães que estão amamentando podem achar um pouco mais fácil confiar em seu bebê, pois sabem que ele está sendo nutrido de forma suficiente, se ainda estiverem sendo amamentados com o leite materno.

NBE – O BLW pode ser usado por qualquer criança? Existe alguma restrição?

GR - O conceito geral, de deixar a criança fazer o que ela é capaz de fazer e respeitar suas escolhas, funciona para qualquer bebê. Alguns, porém, podem precisar de um apoio extra para garantir que estejam bem nutridos. Por exemplo, um bebê nascido de forma muito prematura pode precisar de suplementos de algumas vitaminas e minerais. Já uma criança com uma deficiência física pode precisar de algum alimento oferecido na colher. E, é claro, compartilhar a comida da família só será apropriado se for uma alimentação saudável, sem adição excessiva de sal e açúcar, por exemplo.

NBE - Alguma coisa mudou no método BLW, especialmente, depois que ele passou a ser colocado cada vez mais em prática?

GR - O BLW vem percorrendo alguns países da Europa há 15 anos e está se tornando cada vez mais popular em todo o mundo. As pesquisas relacionadas ao BLW também estão aumentando. Em essência, o conceito não mudou durante este tempo, mas ainda é mal interpretado, de modo que nem todos os que dizem que estão fazendo BLW, estão fazendo de fato. Esta é a razão pela qual escrevemos esse livro, para permitir que todos os pais e profissionais compreendam o que essa abordagem envolve: refeições compartilhadas, alimentos saudáveis, uma atmosfera segura e descontraída nas refeições e, acima de tudo, respeito pelo bebê. A única coisa que veio à tona, desde que escrevemos o livro, é o pequeno risco causado por alimentos muito crocantes, especialmente aqueles que se encaixam na boca do bebê. Passamos a sugerir, então, evitar fatias de alimentos como maçãs muito crocantes ou cenouras cruas no início.

NBE - De que forma as diferenças culturais, especialmente em relação aos alimentos, podem influenciar na adoção do método BLW pelas famílias?

GR - A cultura define os tipos de alimentos que são comidos pela família e a maneira como eles são ingeridos, mas o BLW tem funcionado muito bem em todas as culturas, desde que a dieta da família seja saudável. Embora os alimentos utilizados possam diferir entre as sociedades, a maioria das frutas, vegetais e carne pode ser cortada em formas e tamanhos que os bebês, de seis meses, já consigam lidar. Assim, o bebê progredirá rapidamente para alimentos mais complicados, como o arroz, por exemplo.

NBE - Existem casos em que os alimentos precisaram ser adaptados para o BLW?

GR - Algumas sociedades realmente possuem tradições particulares nas horas das refeições. Por exemplo, em Portugal, a maioria das famílias inicia uma refeição com uma sopa de vegetais. A sopa, talvez, não seja o primeiro alimento ideal para um bebê. Algumas famílias estão adaptando a sopa: tornando-a mais espessa, para que o bebê possa comê-la com as mãos; deixando alguns pedaços de vegetais, suficientemente grandes; ou, deixando a criança mergulhar pedaços de pão na sopa, até que ela possa comer usando uma colher.

NBE - Como foi sua experiência aqui no Brasil? O que você identificou de mais interessante, inclusive, em relação ao método BLW que é aplicado aqui?

GR - Foi emocionante ver a quantidade de pais, nutricionistas e pediatras defensores do BLW, e como eles estão ajudando a espalhar a prática. Pais e bebês não são muito diferentes, onde quer que eles vivam. No Brasil, a comida que é servida em muitos restaurantes já é apresentada em formatos que são perfeitos para o BLW. Isso inclui a carne, que é muito bem cozida no Brasil, de modo que é úmida e macia para um bebê sugar ou mastigar. Nós também percebemos que o uso de alimentos industrializados para bebês ainda não é muito difundido no Brasil como é em outros países. Isso significa que a adaptação ao BLW é ainda mais fácil, uma vez que a cozinha caseira pode ser ajustada apenas para atender a criança.

NBE - E dos alimentos que viu aqui? O que mais despertou sua atenção?

GR - Descobri muitos alimentos que não vemos no Reino Unido. Um é a mandioquinha, que vocês geralmente comem como purê. Os pais com quem falamos concordaram que também é perfeitamente possível oferecê-la em pedaços, em formato de bastão. Palmito também foi outra novidade, além de ser uma comida fácil e deliciosa para oferecer aos bebês. Em geral, fiquei bastante impressionada com as frutas e os vegetais brasileiros. Eles são muito mais frescos, saborosos e nutritivos, quando comparados com, por exemplo, as bananas e o papaia que comemos no Reino Unido.

NBE - A partir dessa experiência, quais alimentos você sugere para as famílias brasileiras que pretendem iniciar seus bebês no método BLW?

GR - De uma maneira geral, os pais brasileiros nos disseram que não existem problemas para adaptar suas refeições para que seu bebê possa compartilhá-las. O arroz e o feijão, por exemplo, podem ser adaptados para que os bebês possam pegar. Aos 8 meses, a maioria dos bebês já pode pegar pequenos pedaços de comida, como grãos individuais, desde que tenham a chance de praticar.

Um relato de uma mãe sobre a introdução alimentar pelo método BLW

Por Bárbara Bastos Hocsman

Muita coisa mudou em relação aos cuidados com os bebês desde os tempos das nossas avós e até mesmo das nossas mães. A tecnologia e o constante estudo das áreas ligadas ao desenvolvimento de bebês e crianças nos trouxeram uma infinidade de informações que nem sempre é simples de assimilar. Ainda mais no campo da alimentação.

Eu, como terapeuta de Ayurveda, há tempos vinha atuando na área de saúde feminina e gestantes, já habituada a acompanhar os dilemas das mamães quando se tratava da introdução alimentar dos seus pequenos. Com a minha primeira filha, segui o método tradicional (confesso que imaginava ser o único). A partir dos seis meses, fui introduzindo pequenas refeições de frutas e as papinhas. Sempre tive o cuidado de utilizar ingredientes de boa qualidade e temperos naturais. As coisas foram acontecendo de forma natural, pensava eu!

Com o segundo filho, que diferentemente da primeira, mamou exclusivamente leite materno até os seis meses de vida, fui pesquisar e ler mais sobre essa área da introdução alimentar. Já havia sido questionada pelas mães sobre quais seriam as melhores formas de iniciar a oferta de alimentos para as crianças. Seguia com as orientações compatíveis aos recomendados pelos pediatras, mas, como meu estudo estava ligado ao uso de especiarias e preparos diferenciados, buscava sempre unir ambos os conhecimentos.

Após o meu segundo filho completar os seis meses, eu então iniciei a sua introdução alimentar através do método BLW. Escolhi esta forma, pois ela respeita a individualidade de cada criança, seus ritmos e processos naturais. E é sobre isso que vou compartilhar com os leitores do Bem-Estar.

Minha experiência com o BLW foi muito positiva, desde o início. Antes de oferecer os primeiros alimentos, procurei pesquisar bastante sobre o tema para que eu pudesse estar preparada e confiante de que estava escolhendo o melhor caminho. Escolhi o marco dos seis meses, mas algo me dizia que meu bebê ainda não estava pronto.

Nem sempre a idade do bebê no calendário representa o amadurecimento dos seus sistemas. O que me chamou muita atenção no BLW foi o quão importante é observar o bebê, esquecer datas, olhar atentamente para o meu filho e ser capaz de perceber como ele está se desenvolvendo.

As primeiras dúvidas que surgiram foram em relação ao desperdício do alimento (pois, inicialmente o bebê mais brinca do que come) e se ele realmente estaria se alimentando. Nunca tive medo dos temíveis “engasgos”, pois sabia que a medida que meu filho ia ganhando força muscular, ele seria capaz de cuspir e somente ingerir o que ele pudesse mastigar no céu da boca. Nunca tive problemas com isso. Os sinais de prontidão são muito importantes de serem observados.

O leite materno ainda era seu principal alimento. Gostava de pensar na introdução alimentar mais como uma “complementação” do que como refeição. Naquele momento ele iria entrar em contato com outras substâncias, mas o que garantiria seu sustento ainda era o leite. Isso me deixou sempre muito tranquila.

Por volta dos sete para oito meses, ele começou a aproveitar melhor os alimentos oferecidos, aprimorou o movimento de pegar e levar o alimento à boca, abrindo os dedinhos para soltar. E neste momento, os primeiros dentinhos apareceram, o que me deixou muito contente, porque sempre associei que a dentição estava relacionada com a capacidade do bebê digerir os alimentos. Ele estava ficando pronto para comer!

O mais fantástico deste método é respeitar as escolhas do bebê. Assim como na amamentação, onde ele decide quando e quanto mamar, o BLW oferece a mesma possibilidade. A alimentação se inicia sem traumas, acompanhada por uma experiência sensorial bastante rica e com muitas descobertas.

Às vezes ele preferia comer apenas frutas, outras vezes carnes e alguns vegetais. Consegui diferenciar quais sabores ele tinha maior interesse. O que não acontece nas “papinhas”, já que, normalmente, se cozinha tudo junto. Também sempre foi possível perceber quando ele estava satisfeito; jogando a comida para o lado, batendo na mesa ou mesmo chorando para ser retirado da cadeirinha.

Faz muita sujeira, por isso, se você é uma mãe que não tolera toda essa bagunça talvez tenha uma maior dificuldade em seguir o método. Tinham refeições que eram finalizadas e corríamos direto para o banho. Muita troca de roupa! Mas tudo isso, no meu caso, não foi empecilho para seguir adiante, pois o ganho de ter um bebê independente, que escolhe o que quer comer, e se diverte associando bem-estar ao alimento, vale todo o esforço.

 
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