Família

08/08/2017 12h10

Aldeias urbanas

Conheça a história de pessoas que adotam um modelo de moradia comunitário, mesmo nas mais conhecidas metrópoles.

Por Nanda Barreto

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Você sabe o que é coliving?

São os chamados “colivings”, ou casas compartilhadas. Uma tendência mundial que também cresce no Brasil!

Não é à toa que mais de 85% da população brasileira mora nas cidades. A vida nos centros urbanos tem inúmeras vantagens: estar perto do trabalho e ter acesso a serviços como: transporte, saúde, educação e cultura. O preço a pagar por isso, no entanto, está cada vez mais alto. Dos aluguéis exorbitantes, passando pelo trânsito caótico, até a solidão de uma vizinhança que sequer dá bom dia, a metrópole cobra caro pelas oportunidades que oferece. Driblar esta lógica e criar um ambiente mais favorável para a qualidade de vida são objetivos das pessoas que optam pelo coliving.

Diferentes das chamadas repúblicas, em que geralmente as pessoas se juntam motivadas por questões financeiras, as comunidades urbanas se destacam justamente por reunir grupos que se propõem a romper com o individualismo da sociedade de consumo, colocando as relações afetivas em primeiro lugar. Não existem regras pré-determinadas. A partir da própria experiência, cada grupo desenvolve seus métodos para gerir as moradias e harmonizar a convivência.

Na avaliação da arteterapeuta Marina De Martino, 33, o eixo central em uma comunidade é o cuidado com a qualidade das relações e a cooperação por um objetivo em comum. “Confiança e autenticidade são fatores indispensáveis para o sustento da vida em comunidade. Conversar sobre as expectativas de cada um, deixar claro os objetivos e fazer acordos de convivência que organizem a vida coletiva também é fundamental” ressalta Marina, uma das fundadoras da Comunidade Dedo Verde, de São Paulo.

Criada em janeiro de 2014, a Dedo Verde nasceu com um grupo de amigos. Atualmente, 6 pessoas compartilham o espaço, que também funciona como ambiente de trabalho. “A ideia inicial era montar uma ecovila, mas todos nós estávamos muito ligados à cidade, nossas principais atividades e fontes de renda eram aqui. Nesse contexto, seria muito difícil dar esse passo para um ambiente com o qual não estávamos nada familiarizados, então surgiu o sonho da casa coletiva”.

Marina conta que, desde o início, a autossustentabilidade foi um pré-requisito. “Uma das nossas fontes de renda são os eventos culturais e de autoconhecimento que organizamos, então precisávamos de uma casa com fácil acesso, que tivesse um salão para a prática de danças circulares e quartos individuais para cada morador. Passamos, aproximadamente, um ano procurando esta casa, que tem quatro andares. Os dois andares de cima são exclusivos para os quartos. Nossa empresa funciona nos dois andares de baixo”, detalha. No repertório de atividades abertas ao público estão práticas de danças circulares, meditações e oficinas de culinária vegana.

A vocação para a arte e o cuidado terapêutico também faz parte do cotidiano da Comuna do Arvoredo, situada em Porto Alegre. Fincada no centro histórico da capital gaúcha, a comunidade foi fundada em 2008 e é composta por três imóveis antigos, tombados como patrimônio. Pela autoria dos moradores, os espaços receberam a carinhosa alcunha de Casarão, CasAzul e Casarinho - complexo arquitetônico que abriga 20 pessoas, incluindo uma criança de 2 anos. A maior parte dos moradores desenvolve atividades de geração de renda na própria comunidade. A movimentação é intensa. As casas recebem atividades como aulas de yoga, meditação, capoeira, comunicação não-violenta e teatro em um salão de vivências mantido, exclusivamente, para este tipo de prática.

 

Inspiração rural

A agricultura urbana, o cuidado com o meio ambiente e as práticas ecológicas também chamam a atenção na Comuna do Arvoredo. Nos fundos das casas, os muros foram derrubados e cederam espaço para a convivência e o cultivo de diversas espécies. Em meio aos arranha-céus do centro da cidade, quem chega ali, encontra um oásis de ervas aromáticas, flores e árvores frutíferas. Também há um ambiente para fogueira e rodas de conversa. A lavanderia é coletiva e a gestão dos resíduos orgânicos é prioridade: três grandes composteiras garantem que tudo seja devolvido à natureza em forma de adubo.

Juntos, os moradores do Arvoredo realizam compras coletivas de alimentos livres de agrotóxicos, direto do produtor, e se revezam no preparo de almoços. “A cada dia da semana uma dupla cozinha para todos. A alimentação é muito importante para nós.  Nos reunimos para comer juntos. Temos um cuidado especial, desde a forma como os alimentos são plantados até como são servidos”, celebra a francesa Marie Jafy, 25, que mora desde 2014 na comunidade. “Eu acho maravilhosa esta coisa de poder morar com gente de um a 50 anos, com trajetórias de vida e saberes tão diversos. Aqui, aprendi muitas coisas, como: me relacionar de forma mais autêntica, fazer a triagem correta do lixo, reconhecer plantas medicinais ou cozinhar para 40 pessoas com tranquilidade”, celebra Marie, que é engenheira, música e produtora cultural.

Diferente da paulistana Dedo Verde, que já nasceu com propósitos bem definidos, a Comuna do Arvoredo vai traçando suas afinidades pelo caminho. Mais de 60 moradores já passaram por lá nestes 9 anos. O ator e terapeuta Marcos de Castilhos, 59, é o único fundador que permanece. “Eu sou o ancião”, brinca. Na avaliação dele, a conexão afetiva e os aprendizados desta convivência são gratificantes. “Eu sinto que estamos aqui para nos curar dos efeitos do sistema capitalista. Para trocar, nos transformarmos e estimular o desenvolvimento humano de cada um. Quando há um ambiente propício, a vida flui”, sintetiza.

Vivendo na comunidade desde 2011, a cientista social Fabiane Crescencio, 34, observa que a atuação em defesa de uma sociedade mais justa é um dos aspectos que mais une o grupo. “Isso fica claro até mesmo pelo perfil das pessoas que acabam chegando até nós: somos em geral educadores, artistas, comunicadores, ativistas sociais e terapeutas”, pontua Fabiane, que também é mãe do pequeno Sidarta.

 

Família expandida

Para Fabiane, a experiência de viver a maternidade em um ambiente coletivo é desafiadora. “Meu filho nasceu aqui. Eu me senti super bem cuidada durante a gestação e no pós-parto. Já ouvi muitos relatos de mulheres que se sentiram solitárias nesta fase. Aqui na comunidade eu sempre tive bastante gente para me ouvir e compartilhar o que eu estava sentindo. Além disso, eu não precisava me preocupar com questões práticas, como a minha alimentação ou com a limpeza da casa, por exemplo”.

Ver o filho crescendo em meio a tantos adultos e cuidadores desperta sentimentos controversos em Fabiane. "Eu acho importante que o Sidarta conviva com tantas pessoas e estímulos. Cada um apresenta o seu universo para ele e assim ele aprende diferentes noções de limites e novas habilidades. Ao mesmo tempo que isso é muito bom, algumas vezes esta interferência externa me atrapalha um pouco".

 

Fora do Eixo

Com um viés mais direcionado ao ativismo, as Casas Coletivas do movimento Fora do Eixo funcionam como espaços de articulação política, trocas culturais e coworkings, além de moradias. Atualmente, o grupo mantém casas em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. A militante Claudia Schulz, 34, mora na unidade do Rio. “A Casa Coletiva é fruto das tecnologias sociais do Fora do Eixo. Desde o início, defendemos este modo de vida colaborativo, de ter um outro nível de sustentabilidade ao compartilhar a moradia e fazer disto uma forma de ampliar a velocidade e a dedicação ao trabalho”, pontua Cláudia, que também é gestora da Mídia Ninja, grupo de comunicação alternativo com forte alcance na internet.  

Os moradores das Casas se distribuem em equipes de audiovisual, redes sociais, infraestrutura e produção cultural, entre outros. Cláudia explica que a atuação das casas e dos integrantes do movimento é totalmente organizada em rede. “Quando a gente entra para o Fora do Eixo, falamos muito da questão do caixa coletivo, que é de fato um sistema de sustentabilidade, pautado pela economia solidária, criativa e colaborativa. Não temos salário. Os recursos entram através das nossas ações culturais por todo o país, e também, das festas e outros trabalhos como freelancer. A gestão financeira é compartilhada entre todas as Casas. Nossa relação é embasada em valores como confiança e desapego”.

Nas Casas Fora do Eixo, até o guarda-roupas é coletivo. “Temos algumas roupas individuais, com as quais temos uma relação mais afetiva. De resto, compartilhamos tudo. Buscamos atender todas as nossas necessidades básicas. Mas, por exemplo, se eu quero comprar uma calça jeans, talvez isso não seja entendido como uma prioridade, já que temos um armário com várias calças jeans. Moramos bem localizados, numa casa ampla, mas temos uma vida simples. Nossa potência está nas pessoas e não nos bens que a gente tem", defende.

Ao todo, 60 pessoas moram nas Casas Coletivas do FDE. "Aqui no Rio somos 25, mas muitas pessoas circulam neste ambiente. Já chegamos a ter 100 pessoas aqui. A gente também transita bastante entre as casas. Eu posso ficar uma temporada na casa de Brasília ou de Belo Horizonte, por exemplo, se houver demanda dos projetos que estamos tocando por lá. Recebemos hóspedes de diferentes movimentos sociais, jovens de outros países da América Latina e também indígenas, quilombolas, militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra e do Movimentos do Trabalhadores Sem-Teto. Somos verdadeiras aldeias urbanas, de portas abertas".

Na opinião de Cláudia, o que mais fortalece os moradores é a opção consciente de estar dentro desta comunidade livre. "O que nos une é a luta que a gente trava todos os dias em defesa da democracia e de ações que realmente transformem a vida das pessoas para melhor. Somos muito dedicados e acreditamos nos projetos que a gente desenvolve. O diálogo e a colaboração fazem com que a gente vença juntos os desafios do dia a dia”, sustenta.

 

O novo velho

Viver em comunidade faz parte da história da humanidade. A convivência em tribos e clãs foi sendo adaptada à vida urbana. As construções de habitações próprias absorveram o aumento da densidade demográfica nos centros urbanos e atenderam demandas privadas específicas. No entanto, desde os anos 70, esta lógica vem sendo questionada por pessoas que buscam um modelo de vida mais sustentável. Trata-se de um movimento que estimula a integração, os vínculos afetivos e a colaboração. A prática do "coliving" ou comunidades contemporâneas é caracterizada não apenas pela moradia coletiva, mas também pelo estilo de vida compartilhado. De olho neste mercado, algumas empresas de arquitetura estão trabalhando em projetos que ampliem as possibilidades deste modelo.

 

Para saber mais:

Cohousing Brasil

https://www.facebook.com/CohousingBrasil/

 

Comuna do Arvoredo

https://www.facebook.com/comunadoarvoredo

 

Comunidade Dedo Verde

https://www.facebook.com/Comunidade-Dedo-Verde

 

Fora do Eixo

https://www.facebook.com/foradoeixo/?fref=ts

 

Nanda Barreto é jornalista, instrutora de yoga e moradora da Comuna do Arvoredo.

 

 

 

DEPOIMENTOS

 

"A Comuna do Arvoredo é um oásis no meio do centro da cidade. Proporciona que a gente esteja perto dos locais de trabalho e lazer. Estou perto das ruas mais movimentadas da cidade e ao mesmo tempo, quando chego em casa tenho um pátio atrás. A nossa organização coletiva e as tecnologias sociais que desenvolvemos ao longo dos anos é algo que faz a diferença. Moramos em três casas e os aluguéis são somados e compartilhados de uma forma mais justa, de acordo com espaços públicos e privados que ocupamos. Não temos líderes ou hierarquias. Também realizamos compras coletivas de alimentos orgânicos, temos gestão dos resíduos, composteiras. Tudo isso foi construído de uma maneira que os saberes permanecem para o usufruto coletivo, independente de quem esteja morando aqui".

 

Fabiane Crescencio, 34, moradora da Comuna do Arvoredo

 

 

"Viver em comunidade é uma disputa de uma outra lógica de vida. A gente vem sentindo o tamanho dos problemas que o fundamento capitalista e individualista vem gerando. É um fardo pesado. No meu ponto de vista, a moradia colaborativa é mais sadia, pois buscamos uma outra forma de viver a vida, muito mais generosa, que valoriza o cuidado com o meio ambiente e com o ser humano. Viver em comunidade é cuidar do outro. Existe afeto envolvido nisso. Eu não enfrento problemas sozinha, compartilho e encontramos soluções juntos. Nós nos entendemos como uma grande família."

 

Claudia Schulz, 34, moradora da Casa Coletiva do movimento Fora do Eixo no Rio

 

 

"Viver em comunidade é bem interessante. Nós conseguimos reduzir o custo de vida e moramos muito bem: em uma casa muito confortável, com jardim, perto do metrô, temos um parceiro que realiza uma feira orgânica em nossa garagem e em troca recebemos produtos orgânicos como forma de pagamento. Além disso, participamos das diversas atividades que acontecem na casa, muitas delas, gratuitas para os membros da comunidade. São experiências de cooperação e de trocas muito ricas. Algumas vezes, a falta de privacidade incomoda um pouco, a bagunça de um interfere na vida do outro. Enfim, também há partes desafiadoras da convivência".

 

Marina De Martino, 33, moradora da Comunidade Dedo Verde em SP

 

 

 

"A maior cola da nossa comunidade é a possibilidade do convívio com as diferenças. Não temos uma linha espiritual única, um fazer econômico que nos ligue, ou, uma configuração social. Talvez o que mais nos aproxime seja a questão ideológica, que também é ampla. Escolhemos ainda permanecer na cidade e buscamos viver bem no meio urbano. Aqui construímos um outro espaço de convivência que vai muito além da lógica imposta pela economia de mercado"

 

Marcos de Castilhos, 59, morador da Comuna do Arvoredo

 

 

 

 

"Acho que a celebração da vida é uma das principais características da Comuna do Arvoredo. Os saraus, a música, as fogueiras, os grandes jantares e as longas conversas ao redor da mesa são atividades que fortalecem nossos vínculos. A abertura da nossa casa para o público externo também é uma marca importante, assim como a nossa rede de economia local e solidária. O apoio mútuo entre os moradores ecoa bastante, mesmo que não sejamos íntimos de todos (somos 20 pessoas atualmente!) eu sinto que sempre podemos contar e aprender uns com os outros".

 

Marie Jafy, 25, moradora da Comuna do Arvoredo

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