Crescimento pessoal

02/05/2017 11h00

Conversa com o guru - Purushatraya Swami

Em entrevista exclusiva o líder espiritual Hare Krishna, fala sobre seu novo livro “O Monge e o Aposentado” e revela como encontrou o caminho da sua própria salvação.

Por Filipe Marcel

Nosso Bem Estar | Arquivo Pessoal
M15

Sabedoria para todas as idades

Enquanto você estiver lendo essa entrevista, é bem provável que Purushatraya Swami, 72 anos, considerado uma das maiores autoridades dentro do movimento Hare Krishna, esteja embarcando para alguma parte do mundo, levando apenas um conjunto de roupas açafroadas, alguns livros e uma mensagem extremamente poderosa, que vem transformando a vida de milhares de pessoas por onde ele passa: cante Hare Krishna e seja feliz!

Nascido no Rio de Janeiro, aos 30 anos de idade ele decidiu ingressar na vida monástica, de onde não saiu mais. Hoje coordena a comunidade sustentável e ashram de Goura Vrindávana, instalada nas belíssimas montanhas de Paraty (RJ), e ainda é um dos quatro discípulos de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada no Brasil devidamente autorizados a dar iniciação e conduzir qualquer um pelo caminho da Bhakti-yoga, sempre compartilhando a mesma fé e determinação com que conduz a sua própria vida.

Com várias passagens pela Índia, o swami falou com exclusividade ao Nosso Bem Estar no meio de uma extensa agenda de viagens, dessa vez para lançar o seu novo livro “O Monge e o Aposentado”. A obra retoma uma conversa que o líder espiritual teve com um amigo de infância, durante um encontro casual em uma rua do centro do Rio, e traz reflexões importantes sobre a vida, a espiritualidade e o porvir.   

Nosso Bem Estar - "O Monge e o Aposentado" trata de uma conversa entre dois personagens, um deles o "monge", referindo-se à sua pessoa. Qual foi a trajetória dele até chegar neste livro?

Purushatraya Swami - Ao ingressar na vida monástica, em 1976, a minha trajetória, a partir daí, tem sido linear. Antes dessa data, houve muita busca e também alguns desacertos. Aos 15 anos entrei no Colégio Naval, em Angra dos Reis. Sonhava viajar pelo mundo. Logo na sequência completei o curso universitário na Escola Naval, na ilha de Villegagnon, no Rio de Janeiro. Assim que me formei oficial da Marinha, desisti da carreira e pedi demissão. Mas algumas coisas boas resultaram desse período militar: uma certa noção de disciplina e o hábito de acordar cedo. A partir daí, tive outras tentativas para me enquadra no sistema, mas nada resultou ser estável. Minhas paixões eram a música e a natureza. Ainda adolescente, fiz o curso de teoria musical na Escola Nacional de Música. Em relação à natureza, descobri um talento que tinha: paisagismo. Entrei para a Escola de Belas Artes, da UFRJ, e cursei meio curso.

 

NBE - Como se deu essa guinada para a espiritualidade?

PS - Com 25 anos ganhei de presente de um amigo de infância um livro de yoga do professor José Hermógenes chamado "Auto-perfeição com Hatha-Yoga". Até então, eu não tinha nenhuma noção sobre yoga e o pensamento oriental. Daí despertou em mim uma curiosidade avassaladora. Comecei a devorar todo o tipo de livro que tratava de assuntos esotéricos. Foi uma busca muito intensa. E tudo se dirigia para Índia. Dessa busca, despertou em mim uma atração pela vida monástica.

 

NBE - Como aconteceu esse ingresso na vida monástica?

PS - Eu já tinha lido vários livros sobre a Índia e, então, a Índia veio a mim.

 

NBE - Como foi isso, na prática?

PS - Aconteceu que o templo Hare Krishna se estabeleceu na rua em que eu morava, poucas casas depois da minha. Ao mesmo tempo, tive em minhas mãos o famoso livro Bhagavad-gita. Era uma volumosa edição, traduzida e comentada pelo mestre do movimento Hare Krishna, Srila Prabhupada. Li de cabo a rabo em uma semana. Fiquei impressionado com a seriedade nas considerações sobre o processo Bhakti-yoga de autorrealização. Visitei o templo e me dei muito bem com os monges residentes. Convidaram-me a fazer uma imersão de alguns dias na prática de Bhakti-yoga. Aceitei e logo me veio um pensamento: acho que vou tentar a vida monástica. Se não der certo, caio fora. O caso é que, depois de mais de 40 anos, ainda estou tentando.

 

NBE - Ainda está tentando? Como é isso?

PS - Sim, pois no caminho espiritual, os valores são ideais, quer dizer, são ilimitados. Por mais que a pessoa avance, a impressão é que existe muito mais pela frente. Esta é a sensação em minha jornada.

 

NBE - Como tem sido esta tua trajetória na vida monástica?

PS - Em 1978, tive a minha primeira visita à Índia. Voltei lá por diversas vezes. Já rodei por toda Índia. Posso dizer que conheço esse país muito mais do que a maioria dos indianos. Em 1985, ingressei na ordem de sannyasi e recebi o título de "Swami", que significa mestre em Bhakti-yoga. Nos anos 90, estive na Índia praticamente toda a década. Participei como docente de um instituto de filosofia na Índia. Viajei bastante por várias partes do mundo dando palestras. Aí, tive a inspiração de voltar ao Brasil e tocar um projeto por aqui.

 

NBE - Fale um pouco dessa sua atuação aqui no Brasil.

PS - Coordeno um projeto de sustentabilidade e espiritualidade nas montanhas de Paraty, sul do estado do Rio de Janeiro. Trata-se da Ecovila e Ashram Hare Krishna "Goura Vrindávana" (www.goura.com.br). Tenho desenvolvido também um projeto educacional de divulgação do conhecimento dos Vedas, chamado Instituto Paramatma de Filosofia e Espiritualidade Aplicada. Tenho, também, me dedicado a escrever. Meu primeiro livro chama-se “Sanidade Espiritual” e este, segundo, “O Monge e o Aposentado”.

 

NBE - O personagem "monge" foi devidamente explicado. E quanto ao personagem "aposentado", o que nos diz?

PS - O impulso para escrever este livro foi um incidente que durou não mais que dez minutos. Estava caminhando por uma rua no centro do Rio, quando me deparei com um amigo de infância que não nos encontrávamos não menos de 40 anos. Na juventude, tivemos longas conversas. Foi um encontro efusivo. Bem, para encurtar, já que o episódio está narrado no livro, ele então afirmou: "Acabo de me aposentar. Vejo você cheio de planos e desafios. Quanto a mim, não sei o que fazer daqui pra frente". Esta declaração sincera, que demonstra o estado de espírito de muitos que entram na terceira idade, foi o que me motivou a escrever este livro.

 

NBE - Qual é o tema principal do livro?

PS - É um confronto entre dois distintos paradigmas de vida. Mas é um confronto amistoso, um encontro de velhos amigos de infância. As conversas, divididas em cinco encontros ao todo, giram em torno da filosofia existencial, em como lidar com a realidade e elevar a consciência. Falamos, também, sobre questões seculares e alguns fatos característicos da sociedade atual. Trago certos conceitos e informações de conhecimentos que vêm do outro lado do planeta, notadamente o conhecimento dos Vedas, da Índia milenar.

 

NBE - Este é um livro exclusivo para pessoas de terceira idade?

PS - Em absoluto. É um livro para todas as idades. Quem está na primeira fase e na segunda fase de vida deve estar ciente do papel a desempenhar na terceira fase, a aposentadoria. Vemos que muitos chegam despreparados nessa fase.

 

NBE - Qual seria essa primeira e segunda fase?

PS - Primeiro, passamos pela fase de estudante; depois vem a difícil e exigente fase de vida familiar. Na primeira fase, alguém cuida de você, no caso os pais, os professores. Na segunda, você cuida de outros, ou seja, os seus dependentes. Na terceira fase, a aposentadoria, você deve cuidar de si. É um momento precioso que a natureza nos oferece para resolver todas as nossas pendências psicológicas e elevar nossa consciência. A pessoa deve se preparar para entrar na quarta fase, a fase mais difícil da vida, pois é quando acontece a ruptura da vida. Vemos que tem muita gente saindo mal desta vida. Nossa proposta é que saiam bem e por cima.

 

NBE - O que o senhor quer dizer com "sair por cima"?

PS - Chegar ao final realizado, lúcido, em paz consigo mesmo e com os outros, satisfeito com seu desempenho na vida, desapegado, confiante e esperançoso por coisas melhores pela frente. Para isto, é necessário estar bem consciente e preparar-se.

 

Ficou interessado em adquirir o livro? Escreva para pswami@goura.com.br.

“Por mais que a pessoa avance, a impressão é que existe muito mais pela frente. Esta é a sensação em minha jornada”.

 

"Acabo de me aposentar. Não sei o que fazer daqui pra frente’. Esta declaração sincera, que demonstra o estado de espírito de muitos que entram na terceira idade, foi o que me motivou a escrever este livro."

 

"Na terceira fase, a aposentadoria, você deve cuidar de si. É um momento precioso que a natureza nos oferece para resolver todas as nossas pendências psicológicas e elevar nossa consciência."

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