Crescimento pessoal

19/12/2016 08h00

Ouvindo a Grande Voz

Descubra a história por trás dos Oráculos: conheça os mais diversos métodos de previsão e suas aplicações terapêuticas.

Por Elisa Dorigon e Emília Gontow

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A adivinhação ou divinação, profecia, previsão, palpite, pressentimento, intuição, é o ato de predizer coisas distantes no tempo e no espaço

A adivinhação é parte da história da humanidade desde o Paleolítico Superior, há cerca de 40 mil anos a. C.. É nascente no xamanismo das pinturas e gravuras rupestres feitas, provavelmente, por xamãs do grupo dos Cro-Magnon para atrair sucesso na caça e pesca. A necessidade de sobrevivência e os primeiros sinais da crença em fatores sobrenaturais convertem-se em sortilégios.

A Magia (controlar os acontecimentos através de "técnicas"), a Religião (auxílio de espíritos e divindades) e a Ciência (medições e comprovações) eram tidas por antropólogos como James George Frazer e escalonadas na construção do pensamento. Hoje, esta visão evolucionista caiu por terra, sendo consideradas formas distintas e não mais crescentes em níveis de valorização. Os oráculos constituíram aspecto fundamental da religião e cultura dos povos, no Matriarcado de culto à Deusa. A Religião se tornou uma das áreas de estudo que moldaram ideias atuais sobre as origens da consciência humana.

A adivinhação foi encontrada por antropólogos e pensadores da psique nas tradições chinesa, judaica, escandinava, romana, árabe, cigana, africanas e indígenas.  O tarólogo Jaime E. Cannes, nos conta que “foi através dos gregos e dos egípcios que conhecemos as primeiras fórmulas oraculares institucionalizadas, no templo de Delfos, na Grécia, e no templo de Amon, no Egito, os dois dedicados a deuses solares”, já no patriarcado.  

Na época do homem primitivo, a adivinhação já se manifestava como Animismo, termo desenvolvido por Edward Burnett Tylor para descrever a crença de que todas as formas da natureza, plantas, animais, fenômenos e objetos possuem uma alma, agindo intencionalmente.  Era dado significado aos padrões formados pelos ventos, nuvens, planetas, ossinho, pedrinhas, fogo, água, raios, evoluindo para palavras (por ex.: Pitonisas e Hierofantes), varetas, folhas de chá, borra de café, moedas, búzios e cartas. São mais de 70 formas de oráculos encontradas até nossos dias, sendo as cartas uma das formas oraculares.

A adivinhação ou divinação, profecia, previsão, palpite, pressentimento, intuição, é o ato de predizer coisas distantes no tempo e no espaço. Segundo a Drª Marie-Louise Von Franz, colaboradora de Carl Gustav Jung, a adivinhação se assenta na sincronicidade, que foca a simultaneidade de eventos a qual significamos e a íntima relação dos fatores psicológicos e físicos. A sincronicidade e onisciência do inconsciente que, não tendo a divisão passado/presente/futuro, tudo abarca, explicam a projeção dos conteúdos internos nos eventos externos. O inconsciente necessita de formas de linguagem e “sabe” a carta certa a ser pescada ou o hexagrama certo a se formar ao lhe dirigirmos uma pergunta.

Dos oráculos esperavam-se as previsões; com as pitonisas e sábios, as reflexões para tomadas de decisões e com os textos do I Ching, por exemplo, e as imagens do Tarô, os ensinamentos sobre a vida. É o caso das “carticellas” do séc. X sobre Virtudes para as crianças italianas, que podem ter resultado no Tarô. A informação mais atualizada sobre esta origem é de que, por volta de 1250 d. C., foi criado um baralho por um grupo de sábios no Marrocos ou norte da Itália. No entanto, foi proibido na Idade Média, sem nunca desaparecerem.

Ao longo da história, reis e rainhas tinham os seus conselheiros esotéricos e oráculos para as questões de guerra e governo. Na corte de Napoleão ficou famosa a astróloga, numeróloga e quiromante Anne-Louise de Lenormand com seu baralho de 36 lâminas para previsão. Este baralho é chamado de “Cigano” pelo apoio dos guias espirituais do povo cigano evocados pelos cartomantes, embora este povo não tenha tradição do uso de cartas e, sim, de leitura de mãos, a quiromancia. Ao longo da formação das Ordens esotéricas, o Tarô foi resgatado do seu obscurantismo e passou a ser muito estudado. A partir da década de 60, com a contracultura e a busca das religiões orientais, o Tarô e demais oráculos foram resgatados como ferramentas de autoconhecimento e, mais tarde, como terapia, inclusive integrados com outras áreas da saúde. Hoje a busca de terapia pelo Tarô é enorme.

Segundo Guido Gillabel, criador do Tarot Museum Belgium (Heffen, Bélgica), existem mais de 10 mil baralhos somente de Tarô. A partir de 1980, centenas de outros baralhos foram criados às funções oraculares do tarô às funções oraculares do tarô       em métodos diferentes do Tarô. Todo o oráculo responde o que o cliente perguntar, dependendo da visão, estudo e cultura do profissional. Há quem atenda com o baralho Lenormand que era específico para previsões; o mesmo com Runas e outros tipos de baralhos. É possível que o Tarô seja o oráculo mais abrangente por seu complexo sistema de figuras e símbolos que contam a história humana, levando a entendimentos tanto ao nível material como emocional e espiritual em respostas concretas, psicológicas ou metafísicas. Os oráculos trazem esclarecimentos, outros pontos de vista e revelações que auxiliam nas reflexões, contato com os próprios sentimentos e meditação.

O consulente manifesta o quanto não está sabendo resolver certo assunto ou precisa “se precaver” de dificuldades muito sérias, até mesmo perigos. Os oráculos sempre colaboram para a pessoa lidar com suas questões que vão desde causas na justiça, uniões, separações, solidão, frustrações, falta de relacionamentos, problemas entre pais ou irmãos, amigos, chefes, vizinhos, a compra e venda de imóveis, dúvidas profissionais, de carreira, missão de vida, distância entre pessoas, como lidar com filhos, com a saúde e espiritualidade, etc.

Oráculos como leitura do inconsciente

O tarólogo Jaime Cannes conta que, ao iniciar sua jornada com o tarô, lhe pareceu muito natural que as mensagens dos arcanos fossem ligadas à ideia de evolução espiritual. As imagens do tarô em sua sequência simbólica remontam pictoricamente aos processos iniciáticos descritos nas grandes escolas de mistérios e nos ensinamentos dos grandes mestres, tanto da magia quanto da espiritualidade. “Com o desenvolvimento do meu aprendizado e da própria tarologia no Brasil e no mundo, observei que a tendência era, cada vez mais, associar o tarô a uma linguagem psicológica. As teorias de Jung ganharam força no estudo, na prática e ensino e este processo foi fundamental para tirar o t às funções oraculares do tarô arô de uma aura quase supersticiosa. Por outro lado, toda abordagem espiritual começou a ser encarada como obscura e ultrapassada”, explica Jaime.

Houve um processo de desmistificação e determina-se que o tarô não precisa da crença em deuses para funcionar. “É um instrumento de leitura do inconsciente que revela os fatos do momento presente como são sentidos e vividos por quem consulta, mas mostra, também, as possíveis influências do passado dentro desse momento e as projeções do inconsciente para além do tempo reconhecível, ou seja, o tarô pode realizar prognósticos para o futuro”, diz o tarólogo.   

O tarô e as aplicações terapêuticas

É possível acrescentar também, as possibilidades de aplicações terapêuticas às funções oraculares do tarô.  Para Jaime, as revelações dos arcanos desvelam programações profundas na psique, que ao serem trazidas à tona, abrem campo para a libertação do programa e a sua resolução. “Não por acaso tantos terapeutas de abordagem convencional como psicólogos e psiquiatras, tanto quanto do holismo se aproximaram da tarologia. Foi um movimento muito importante e necessário, pois muitas escolas de magia acabavam colocando suas próprias crenças como verdades absolutas na prática e estudo desse sistema simbólico”, diz Cannes.

O que as pessoas estão buscando?

Na opinião do astrólogo e filósofo Edson Drago, a maioria das pessoas está preocupada com o que pode acontecer com sua vida. O oráculo pode dar respostas difíceis de serem encontradas. “Via de regra, as pessoas querem saber alguma coisa do mundo e do que estão vivenciando do ponto de vista externo a elas, que possam dar uma visão mais ampla. Muitas pessoas são motivadas pelo medo de que aconteça alguma coisa que elas não querem. Outros procuram entender o motivo das coisas estarem acontecendo de uma determinada forma. Buscam uma visão mais ampla, não no sentido de proteção, mas de entendimento.  A maioria das buscas é ocasionada pelo medo. Quando atendo alguém com medo, o primeiro passo é fazer com que ela acalme o medo e passe a observar resultados. Tem quem considere o oráculo uma espécie de salvaguarda do futuro. Mas é uma ideia equivocada pensar que no futuro possa acontecer alguma coisa na qual a gente tenha pouca responsabilidade”, avalia Edson. Pelo seu ponto de vista, somos responsáveis por quase tudo que nos acontece.

“O oráculo pode mostrar a relação daquilo que eu faço e digo nas minhas decisões e o que estas palavras, ações e decisões produzem no futuro. Qual a relação entre o que eu tenho para fazer agora e o que pode acontecer no futuro a partir destas decisões. É uma relação entre o indivíduo e seus resultados”, avalia.

Outras visões e depoimentos

“A vida é um grande mistério e nossa única certeza é a morte. A busca dos oráculos se dá pela necessidade de controle, real ou não, de nossos caminhos. As pessoas querem estar preparadas para possíveis eventos, benéficos ou não, que possam surgir e, também, escolher os caminhos que as levarão a atingir seus objetivos pessoais. Um oráculo pode nos auxiliar a fazer escolhas mais acertadas ou mesmo saber o resultado delas. Pode prevenir e mostrar doenças, perigos de vida, oportunidades nos negócios e nos relacionamentos afetivos, por exemplo.  Na minha visão, temos dois fatores importantes nas cartas, o primeiro é a influência do nosso subconsciente na hora em que o consulente escolhe as cartas a serem lidas. A ciência já sabe que nossa mente trabalha com símbolos. No cérebro (áries) há questionamentos, mas as mãos (gêmeos) buscam as informações. Existem canais de ligação psíquica entre eles. O segundo, e não menos importante, é o espiritual. Creio na presença Divina que a todos auxilia quando lhes é solicitado”.

Cristina da Costa – taróloga, astróloga e numeróloga, trabalha com oráculos desde 1995.

“As pessoas buscam os oráculos para saberem de questões ligadas aos seus conflitos de vida. Normalmente são interrogações a respeito dos relacionamentos, da saúde e trabalho. Tenho trabalhado com os oráculos como um meio de conexão com o inconsciente. Através dele, podemos não só obter uma diretriz para enfrentamento das situações de vida, como também de conhecimento de nossa estrutura psíquica. A partir daí, é possível construir profundas transformações, tanto em nível mental, quanto espiritual e material. Estou há alguns anos utilizando esse maravilhoso instrumento para o atendimento de pessoas, com ótimos resultados”.

Lucy Souza – taróloga há 10 anos.

“O oráculo nos permite visualizar o que está no inconsciente, porque bloqueamos nossos desejos, e como lidar com medos e desafios. Queremos restabelecer o equilíbrio emocional e espiritual e entender as fases da vida que estamos passando. É possível, também, acessar o passado, curando traumas, o presente resolvendo limitações e o futuro sondando possibilidades e auxiliando na tomada de decisões. O tarô se diferencia enquanto oráculo porque permite acessar uma vibração diferenciada. Além disso, ele trabalha com a transformação necessária para vivermos com mais qualidade de vida”.

Letícia Araújo – trabalha com cartas ciganas há 15 anos e mais recentemente com o tarô.  

“Acredito que as pessoas buscam os oráculos quando estão passando por algum desconforto em sua vida e querem encontrar respostas ou algum conselho em relação ao seu atual momento. Não considero a astrologia um oráculo e sim uma ferramenta de autoconhecimento que pode oferecer orientações ao seu desenvolvimento pessoal e esclarecer dúvidas sobre nossa própria vida e o nosso destino. Como estudiosa da Astrologia e das ciências ocultas há mais de 20 anos, digo que a consulta astrológica pode fornecer muitas informações que, com certeza, irão orientar na sua busca pessoal e missão de vida. Afinal, quando estamos vivendo de acordo com nosso propósito a vida tende a fluir mais facilmente”.

Tatiana Araújo – trabalha com astrologia há mais de 20 anos.  

 

Alguns tipos de oráculos

Cleromancia - é a arte de adivinhar o futuro jogando dados. Este  jogo nasceu no ano 3500 a.C. e tem origem egípcia. De acordo com uma lenda grega, o rei Menelau de Esparta usou a técnica da cleromancia para começar a guerra contra Tróia.

Teimancia – leitura das folhas de chá. Teve origem na China antiga, quando os imperadores a usavam para fazer previsões de acontecimentos futuros. Também foi praticada e aperfeiçoada na Turquia, Rússia e em países de toda Europa. A técnica consiste em identificar figuras formadas por folhas de chá nas paredes internas de uma xícara.

Cafeomancia  - leitura dos símbolos deixados pela borra do café na xícara. Desenvolvida pelos árabes e usada pelas odaliscas dos antigos sultões.

Cristalomancia - uso dos cristais ou pedras semipreciosas (bola de cristal ou de jogos com pequenas pedras).

Dominomancia – utiliza as peças do dominó como oráculo e sua origem é creditada à China.

Quiromancia - método de interpretação baseado nas linhas da palma da mão e no seu formato, tamanho e textura. De origem indiana, era praticado na China, no Tibete, na Pérsia, na Mesopotâmia e no Egito.

I Ching ou Livro das Mutações - texto clássico chinês composto de várias camadas sobrepostas ao longo do tempo. Pode ser compreendido e estudado tanto como um oráculo quanto como um livro de sabedoria.

Runas - são parte de um alfabeto nórdico, pertencente à tradição do povo Viking. Com o significado de "sussurro secreto", cada Runa tem um desenho singular. Elas estão ligadas a várias divindades que fornecem meios para revelar realidades ocultas.

Elisa Dorigon é jornalista e Emília Gontow é taróloga há 21 anos, arteterapeuta e terapeuta floral.

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